Lançada em 2018, a Parker Solar Probe entrou na coroa solar, suportou mais de 1.300 °C e revelou dados inéditos sobre o vento solar e tempestades solares.
Em 14 de dezembro de 2021, a humanidade atravessou um limite que por décadas parecia intransponível. A NASA, por meio da missão Parker Solar Probe, confirmou oficialmente que uma sonda construída por mãos humanas entrou na coroa solar, a atmosfera externa do Sol, algo jamais feito antes. O feito foi anunciado pela NASA em Washington, Estados Unidos, com dados coletados diretamente pela sonda durante uma aproximação extrema do Sol, realizada enquanto o equipamento orbitava a estrela a menos de 9 milhões de quilômetros de sua superfície visível. O projeto é liderado pelo Johns Hopkins Applied Physics Laboratory, responsável pelo desenvolvimento e operação da missão, em parceria com diversos centros científicos internacionais.
Esse momento não foi apenas simbólico. Ele marcou a primeira vez em que instrumentos científicos mediram in loco os campos magnéticos, partículas e fluxos de energia responsáveis por fenômenos solares que influenciam diretamente a Terra, como tempestades geomagnéticas, apagões de satélites e falhas em sistemas elétricos globais.
O que é a coroa solar e por que ela sempre foi um mistério
A coroa solar é a camada mais externa da atmosfera do Sol. Vista da Terra apenas durante eclipses totais, ela se estende por milhões de quilômetros no espaço e apresenta um paradoxo que intriga a ciência há mais de 70 anos: é centenas de vezes mais quente que a superfície do Sol.
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Enquanto a fotosfera solar tem cerca de 5.500 °C, a coroa pode ultrapassar 1 milhão de graus Celsius. Até a Parker Solar Probe, todas as explicações eram baseadas em modelos teóricos e observações indiretas. Nenhuma nave havia resistido às condições extremas de calor, radiação e partículas energéticas necessárias para atravessar essa região.
Com a entrada direta na coroa, a Parker finalmente permitiu observar como campos magnéticos se reorganizam, como o vento solar é acelerado e de que forma explosões de energia se propagam para o Sistema Solar.
A Parker Solar Probe: engenharia para sobreviver ao inferno estelar
Lançada em 12 de agosto de 2018, a Parker Solar Probe foi projetada para enfrentar condições que destruiriam qualquer espaçonave convencional. Durante suas aproximações mais extremas, ela suporta temperaturas superiores a 1.300 °C, enquanto seus instrumentos permanecem a cerca de 30 °C, graças a um escudo térmico de carbono com 11,4 centímetros de espessura.

Esse escudo, chamado de Thermal Protection System (TPS), é composto por espuma de carbono revestida com uma camada branca refletiva, capaz de bloquear mais de 99,9% do calor solar incidente. A nave também se move a velocidades superiores a 690 mil km/h, tornando-se o objeto mais rápido já construído pela humanidade.
Essas características permitiram que a Parker realizasse múltiplas passagens cada vez mais próximas do Sol, usando a gravidade de Vênus para ajustar sua órbita e reduzir progressivamente a distância de aproximação.
O momento histórico: quando a sonda realmente “tocou” o Sol
A confirmação da entrada na coroa solar veio após a análise dos dados coletados em 28 de abril de 2021, durante a oitava aproximação da sonda. No entanto, foi apenas em 14 de dezembro de 2021 que os cientistas anunciaram oficialmente que a Parker havia cruzado o chamado Alfvén critical surface, a fronteira física que separa a atmosfera solar do vento solar livre.
Essa fronteira é crucial porque marca o ponto onde o plasma solar deixa de estar magneticamente ligado ao Sol e passa a se expandir pelo espaço. Ao cruzá-la, a Parker entrou em uma região onde o vento solar ainda está sendo formado.
Os instrumentos da sonda registraram mudanças abruptas na direção dos campos magnéticos, variações na densidade de partículas e estruturas conhecidas como switchbacks, dobras magnéticas que ajudam a explicar como o vento solar ganha velocidade.
O vento solar e as tempestades que afetam a Terra
O vento solar é um fluxo contínuo de partículas carregadas que se espalha pelo Sistema Solar. Quando intensificado por erupções solares, ele pode causar tempestades geomagnéticas capazes de afetar satélites, sistemas de navegação GPS, comunicações por rádio e até redes elétricas terrestres.
Antes da Parker, os cientistas sabiam que essas partículas vinham do Sol, mas não compreendiam exatamente onde e como elas eram aceleradas. As medições diretas mostraram que grande parte dessa aceleração ocorre muito mais perto do Sol do que se imaginava, dentro da própria coroa.
Isso permite melhorar significativamente os modelos de previsão do clima espacial, algo estratégico para um mundo cada vez mais dependente de satélites e infraestrutura eletrônica sensível.
Descobertas científicas que mudam a física solar
Entre as descobertas mais relevantes feitas pela Parker Solar Probe estão a identificação de estruturas magnéticas em forma de zigue-zague, a confirmação de que o vento solar não é uniforme e a observação de fluxos de energia que se dissipam de maneira altamente dinâmica.
Os dados também indicam que pequenas explosões magnéticas, muito mais frequentes do que grandes erupções visíveis, desempenham papel central no aquecimento da coroa. Isso ajuda a resolver o chamado “problema do aquecimento coronal”, um dos maiores enigmas da astrofísica solar.
Além disso, a missão revelou que o Sol ejeta energia de forma mais fragmentada e caótica do que os modelos clássicos previam, forçando revisões profundas nas teorias existentes.
Por que essa missão é decisiva para o futuro da humanidade
Entender o comportamento do Sol não é apenas uma questão acadêmica. Tempestades solares severas já causaram apagões históricos, como o evento de Quebec em 1989, e representam risco real para satélites, astronautas e sistemas críticos de energia.
Com os dados da Parker Solar Probe, agências espaciais e operadores de infraestrutura podem desenvolver alertas mais precisos, reduzir riscos e proteger tecnologias essenciais. Em um cenário de crescente exploração espacial, essa compreensão se torna ainda mais vital.
A missão segue ativa, com novas aproximações programadas até o fim da década, cada uma levando a sonda ainda mais fundo na atmosfera solar.
Um marco definitivo na exploração espacial
A Parker Solar Probe não apenas “tocou” o Sol. Ela inaugurou uma nova era da ciência solar, em que fenômenos antes invisíveis agora são medidos diretamente.
Ao entrar na coroa solar, a missão transformou décadas de hipóteses em dados concretos e abriu caminho para uma compreensão mais profunda da estrela que sustenta toda a vida na Terra.
É um feito que redefine os limites da engenharia, da física e da própria curiosidade humana e que continuará gerando descobertas por muitos anos.

