O Departamento de Justiça dos Estados Unidos (DOJ) confirmou investigação criminal antitruste contra os quatro maiores frigoríficos do país, incluindo a JBS e a Marfrig (controladora da National Beef), por suspeita de fixação de preços, manipulação de licitações e divisão de mercado na cadeia de carne bovina americana. O anúncio foi feito pelo procurador-geral interino Todd Blanche em entrevista coletiva na Casa Branca, ao lado da secretária de Agricultura Brooke Rollins e do conselheiro Peter Navarro. O encontro entre Trump e Lula está marcado para 7 de maio de 2026.
A investigação criminal contra JBS e Marfrig nos Estados Unidos tensiona a agenda do encontro entre Trump e Lula marcado para quinta-feira (7 de maio) de uma forma que nenhum dos dois lados previa. O DOJ confirmou que investiga os quatro maiores frigoríficos do país — Tyson Foods, JBS USA, Cargill e National Beef Packing, esta última controlada majoritariamente pela Marfrig — por suspeita de fixação de preços, manipulação de licitações, divisão de mercado e fraude em aquisições na cadeia de carne bovina americana.
O que transformou a investigação em crise diplomática foram as falas da entrevista coletiva na Casa Branca. Peter Navarro, conselheiro sênior para comércio e manufatura, acusou publicamente a JBS de distribuir “milhões de dólares pelo sistema político americano” e classificou as empresas brasileiras como “parte muito maior do problema”. Brooke Rollins, secretária de Agricultura, enquadrou a propriedade estrangeira de frigoríficos como “ameaça aos Estados Unidos” e declarou que “segurança alimentar é segurança nacional“. Procuradas, JBS e Marfrig (grupo MBRF) declinaram comentar.
O que o DOJ investiga e por que é criminal
A investigação não é administrativa: é criminal. O DOJ apura quatro condutas específicas: fixação de preços (price-fixing), manipulação de licitações de compra de gado (bid-rigging), divisão de mercado (market allocation) e fraude em aquisições (procurement fraud). Procuradores já analisaram mais de 3 milhões de documentos e entrevistaram centenas de pecuaristas americanos que alegam práticas anticompetitivas por parte dos quatro grandes frigoríficos.
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Todd Blanche, procurador-geral interino dos EUA, pediu que delatores se apresentem por meio do programa de whistleblowers do DOJ, que oferece recompensas de 15% a 30% sobre multas criminais acima de US$ 1 milhão. A investigação foi ordenada pelo presidente Trump em dezembro de 2025, por meio de ordem executiva que determinou ao DOJ a apuração de “colusão ilícita” na cadeia de suprimentos de alimentos, em contexto de alta nos preços da carne para o consumidor americano.
As falas que transformaram investigação em crise diplomática
A entrevista coletiva na Casa Branca foi o momento em que a investigação deixou de ser questão regulatória e virou questão geopolítica. Navarro declarou que “os brasileiros são parte muito maior do problema” e acusou a JBS de fazer doações políticas massivas nos EUA, fala que implica influência indevida no sistema político americano e que a empresa brasileira não rebateu publicamente.
Rollins foi igualmente dura ao classificar a concentração estrangeira nos frigoríficos americanos como ameaça à segurança nacional: “Metade dos gigantes do setor têm propriedade ou controle estrangeiro, tornando-os uma ameaça não apenas para nossos produtores de gado, mas uma ameaça para os Estados Unidos“. A declaração enquadra JBS e Marfrig não como parceiras comerciais, mas como riscos à soberania alimentar americana, mudança de tom que complica qualquer negociação diplomática entre os dois países.
A concentração que alimenta a suspeita
Os números que sustentam a investigação são expressivos. Os quatro frigoríficos controlam cerca de 85% do processamento de gado nos Estados Unidos, concentração que saltou de 25% em 1977 para os níveis atuais, segundo dados do USDA. As quatro empresas operam por meio de aproximadamente 70 subsidiárias, e JBS e Marfrig respondem por parcela significativa desse total com operações que incluem dezenas de plantas de processamento em território americano.
Do outro lado da cadeia, os pecuaristas americanos enfrentam crise severa. O rebanho dos EUA caiu para 27,6 milhões de cabeças em janeiro de 2026, o menor patamar desde a década de 1950. Mais de 100 mil fazendas de gado fecharam na última década, representando perda de 17% dos pecuaristas, segundo dados da R-CALF USA. A disparidade entre a concentração dos frigoríficos e a pulverização dos produtores é o argumento central da investigação: quem compra tem poder de ditar preços a quem vende.
O encontro Trump-Lula e o novo item na pauta
O encontro entre Trump e Lula estava marcado para quinta-feira (7 de maio) com pauta focada em alívio tarifário, cooperação em terras-raras e possível designação de facções criminosas brasileiras como organizações terroristas. A fala de Navarro contra a JBS injetou um item que o Itamaraty não esperava e que pode descarrilar a aproximação que o Brasil vinha construindo com a nova administração americana.
Para a diplomacia brasileira, o desafio é isolar a investigação criminal contra JBS e Marfrig da agenda comercial mais ampla entre os dois países. O Brasil é um dos maiores exportadores de carne do mundo para os EUA, e qualquer retaliação regulatória que afete as operações de JBS e National Beef em território americano teria impacto direto na balança comercial e nos empregos do setor no Brasil. O Itamaraty não comentou publicamente sobre o impacto da investigação na pauta do encontro.
O impacto na bolsa e o que os analistas dizem
A reação do mercado foi imediata. Ações da JBS (BDR JBSS32) e da MBRF (MBRF3, ticker do grupo Marfrig + BRF na B3) entraram sob pressão na segunda-feira. O Goldman Sachs sinalizou que a percepção de risco sobre o setor de proteínas tende a se manter elevada enquanto a investigação avançar. O Bradesco BBI avaliou que o caso pode ser ruído de curto prazo, mas reiterou visão cautelosa sobre o setor.
Para investidores, o risco vai além de multas. Uma condenação criminal antitruste nos EUA pode resultar em restrições operacionais, proibição de participação em contratos públicos e danos reputacionais que afetam a capacidade das empresas de operar no maior mercado consumidor de carne do mundo. A JBS é o maior frigorífico do planeta e os EUA são seu principal mercado. A Marfrig controla 51% da National Beef, quarta maior processadora americana. Qualquer desfecho desfavorável teria impacto desproporcional nas duas empresas brasileiras.
O que vem pela frente e o caso Agri Stats
O DOJ não deu prazo para apresentação de acusações formais, mas sinalizou que um acordo com a Agri Stats, empresa de dados de Indiana processada desde 2023 por suposto auxílio à colusão entre frigoríficos de aves e suínos, pode ser anunciado ainda esta semana. O julgamento do caso Agri Stats está agendado para 18 de maio de 2026 no Tribunal Distrital dos EUA do Distrito de Minnesota, e é processo separado da nova investigação contra os quatro grandes da carne bovina.
A investigação pode se estender também para os mercados de frango, carne suína e peru, segundo Blanche. Para JBS e Marfrig, os próximos meses definirão se a investigação resulta em processo formal ou se as empresas conseguem negociar acordo que limite os danos. Até lá, a incerteza regulatória nos EUA pesará sobre as ações, sobre a diplomacia e sobre a reputação do agronegócio brasileiro no exterior.
Você acha que a investigação contra JBS e Marfrig nos EUA é questão de justiça antitruste ou protecionismo contra empresas brasileiras? Conte nos comentários o que pensa sobre as falas de Navarro contra a JBS e se acredita que o encontro Trump-Lula conseguirá separar diplomacia de investigação criminal.

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