Resíduos agrícolas e costeiros alimentam uma pesquisa europeia que combina biotecnologia, design e produção regional para criar fibras têxteis. O projeto reuniu matérias-primas incomuns, processos industriais e dezenas de protótipos, revelando caminhos pouco conhecidos para reduzir a dependência de materiais convencionais.
Resíduos de esterco, palha de trigo e algas passaram a integrar uma pesquisa europeia voltada à produção de fibras têxteis de origem biológica, enquanto pesquisadores buscavam alternativas capazes de reduzir a dependência industrial do algodão e do poliéster convencional.
Batizado de HEREWEAR, o projeto desenvolveu processos para extrair celulose de diferentes fluxos de biomassa, convertê-la em filamentos e incorporá-la a tecidos destinados tanto a roupas corporativas quanto a peças usadas no cotidiano.
Sem se limitar à obtenção da matéria-prima, a iniciativa reuniu pesquisadores e empresas na produção de fios, tecidos planos e malhas, além do desenvolvimento de técnicas de tingimento, revestimento e acabamento baseadas em componentes de origem biológica.
-
Objeto misterioso visto em imagens atribuídas à NASA no Columbia reaparece em vídeo do g1, mostra estrutura perto da borda da Terra em 1996 e reacende dúvidas sobre registros espaciais sem identificação clara no espaço
-
Engenheiro que projetava ferramentas para Ford e Mercedes viu uma caixa rosa de doces e transformou papelão em pirâmides para substituir plástico-bolha e isopor em entregas
-
Filha largou São Francisco para assumir do pai uma fazenda familiar de quase 90 anos na Califórnia, viu 300 toneladas de uvas serem abandonadas no chão sem comprador e entrou em uma luta para impedir que a crise do vinho enterrasse a história da família
-
Mulher do sertão potiguar retomou o algodão que quase sumiu da região desde os anos 1980, plantou sem agrotóxicos no semiárido e viu a produção virar 6,4 mil camisetas no Carnaval de Salvador, levando uma cultura esquecida do campo para uma vitrine nacional
Ao fim do trabalho, mais de 70 protótipos de vestuário haviam sido produzidos, demonstrando materiais, processos industriais e modelos de fabricação regional concebidos pelo consórcio para aproximar inovação têxtil, circularidade e cadeias produtivas locais.
Esterco, palha de trigo e algas entram na indústria têxtil
Em diferentes frentes de desenvolvimento, as três fontes de resíduos foram estudadas para obtenção de fibras celulósicas, enquanto os protótipos reuniram materiais e soluções distintas elaboradas ao longo das etapas técnicas conduzidas pelo HEREWEAR.
Entre as matérias-primas avaliadas, a palha de trigo apresentou resultados promissores durante a biorrefinaria, avançando posteriormente para processos ajustados às exigências da fiação úmida e às características necessárias para a produção de filamentos contínuos.
Segundo o CORDIS, serviço oficial da Comissão Europeia para resultados de pesquisa, o trabalho foi coordenado pelo centro técnico da indústria têxtil da Bélgica e envolveu organizações científicas, fabricantes, pequenas empresas e especialistas em design.
Com custo total próximo de 7 milhões de euros, o projeto recebeu cerca de 6,16 milhões de euros da União Europeia, destinados ao desenvolvimento de materiais, processos de fabricação, ferramentas digitais e modelos de produção têxtil circular.
Na origem da pesquisa estava um problema estrutural da indústria da moda, cuja produção depende amplamente do algodão e do poliéster, materiais capazes de atender à escala comercial, mas associados ao consumo intensivo de recursos e ao uso de matérias-primas fósseis.
Para ampliar as alternativas disponíveis, o HEREWEAR investigou resíduos biológicos encontrados em cadeias agrícolas, industriais e costeiras, buscando transformá-los em componentes com propriedades adequadas às diferentes etapas de fabricação utilizadas pelo setor têxtil.
Como a celulose recuperada se transforma em filamentos
Durante a etapa de biorrefinaria, a biomassa recebeu tratamentos destinados a separar a celulose dos demais componentes, permitindo que o material recuperado fosse preparado para enfrentar as exigências técnicas envolvidas na produção de fios e tecidos.
Como impurezas e variações naturais dos resíduos alteram o comportamento da matéria-prima durante a fiação, os métodos de processamento precisaram ser ajustados e ampliados até alcançar especificações compatíveis com as etapas industriais seguintes.
Depois da recuperação, a celulose avançou para a fiação úmida, processo no qual o material é preparado em uma solução específica e posteriormente convertido em filamentos contínuos, adequados à produção de diferentes estruturas têxteis.
Paralelamente, o consórcio trabalhou com biopoliésteres processados por fiação por fusão, tecnologia que forma fibras a partir do aquecimento controlado de polímeros e permite combinar propriedades distintas em um mesmo material.
Ao testar diferentes combinações de filamentos, as equipes procuraram adaptar características como resistência, durabilidade, conforto e capacidade de processamento, fatores necessários para que as fibras suportassem operações semelhantes às praticadas pela indústria convencional.
Os resultados avançaram da escala de laboratório para a escala piloto, permitindo a obtenção de filamentos de celulose e biopoliéster com desempenho adequado à continuidade dos testes, inclusive na fabricação de fios híbridos e estruturas têxteis.
Essa passagem entre escalas permitiu verificar o comportamento dos materiais em condições mais próximas das operações industriais, reduzindo a distância entre a pesquisa científica e as exigências encontradas durante a fabricação de roupas.
Após a produção dos fios, as equipes desenvolveram tecidos planos e malhas com fibras do HEREWEAR, submetendo os materiais a tratamentos enzimáticos, impressão, revestimentos, tingimento e acabamentos produzidos com componentes de origem biológica.
Por meio desses procedimentos, foi possível avaliar não apenas a aparência dos tecidos, mas também propriedades técnicas necessárias para diferentes categorias de vestuário, incluindo desempenho durante a fabricação e resposta aos processos de acabamento.
Microfibras e impacto ambiental dos novos tecidos
Outro eixo da pesquisa acompanhou a liberação de microfibras durante as etapas de fabricação e uso, considerando que a composição dos fios, a construção dos tecidos e os acabamentos interferem diretamente na perda de partículas.
Essa avaliação ganhou relevância porque fibras liberadas durante a lavagem e o desgaste das roupas podem alcançar sistemas de esgoto, solos e ambientes aquáticos, ampliando a necessidade de considerar o ciclo completo dos novos materiais.
Mais de 70 protótipos de roupas circulares
Mais de 70 protótipos foram produzidos em pequenas séries para roupas corporativas e streetwear, permitindo que as equipes avaliassem desempenho, circularidade e possibilidades de incorporar os materiais desenvolvidos às decisões de design.
Embora o projeto tenha pesquisado esterco, palha e algas, o número total de protótipos não significa que todas as peças reuniram simultaneamente as três matérias-primas, pois cada modelo apresentou resultados de diferentes frentes técnicas.
Entre os exemplos produzidos, um vestido modular foi confeccionado com filamentos baseados em celulose de palha de trigo, combinando a cor natural do material com uma construção planejada para permitir diferentes formas de uso.
Ao relacionar o desenvolvimento da fibra a escolhas voltadas ao prolongamento da vida útil, a peça mostrou como decisões de design podem participar da circularidade sem depender exclusivamente da composição química dos materiais.
Fabricação regional e rastreabilidade das roupas
Além da pesquisa sobre fibras, a fabricação regional tornou-se um dos eixos do HEREWEAR, que conectou microfábricas e recursos produtivos distribuídos em vez de concentrar todas as etapas em uma única instalação distante dos consumidores.
Esse modelo permitiu organizar pequenas séries e testar a coordenação entre produção de materiais, confecção e acabamento, aproximando diferentes participantes da cadeia e criando rotas mais curtas para determinadas etapas industriais.
Ferramentas digitais também foram incorporadas à estrutura, permitindo registrar dados sobre composição, origem e opções de tratamento no fim da vida útil dos produtos desenvolvidos ao longo da pesquisa.
A partir desses registros, fabricantes, designers e operadores podem acessar informações relevantes para reparo, reutilização e reciclagem, facilitando a identificação dos materiais quando as roupas deixam de atender à função original.
Amostras, ferramentas e resultados do HEREWEAR
Conforme o relatório do CORDIS, o HEREWEAR reuniu aproximadamente 1.000 itens em sua coleção de amostras, entre resíduos biológicos, filamentos, tecidos e protótipos produzidos nas diferentes etapas do projeto.
Além desse acervo, a iniciativa disponibilizou mais de 40 ferramentas, modelos e guias em uma plataforma criada para apoiar empresas e profissionais interessados no desenvolvimento de materiais têxteis circulares e sistemas regionais de fabricação.
Ao longo do trabalho, a rede formada pelo projeto chegou a 250 integrantes, dos quais 40 receberam preparação para atuar como mentores e apoiar a continuidade das ações desenvolvidas pelo consórcio.
Também foram produzidos oito artigos acadêmicos e trabalhos apresentados em conferências, acompanhados por orientações sobre fabricação, avaliação ambiental, desenho circular e ampliação dos processos testados durante a pesquisa.
Realizadas entre outubro de 2020 e outubro de 2024, as atividades deixaram resultados disponíveis para fabricantes, centros de pesquisa e designers interessados em avaliar materiais, ferramentas e métodos desenvolvidos pelo HEREWEAR.
No relatório, o CORDIS aponta a adoção comercial, o aumento de escala, a durabilidade dos materiais e a integração entre cadeias produtivas como temas relacionados ao aproveitamento das demonstrações conduzidas pelo consórcio.
Se esterco, palha de trigo e algas já podem participar da origem de novas fibras têxteis, quais outros resíduos presentes no cotidiano ainda poderiam ser transformados nos materiais usados para fabricar roupas?
