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A Europa está transformando esterco, palha de trigo e algas descartadas em novas fibras têxteis por meio de um projeto ambicioso e surpreendente que já produziu mais de 70 protótipos e pode mudar a origem das roupas usadas no cotidiano

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Escrito por Alisson Ficher Publicado em 12/07/2026 às 18:40 Atualizado em 12/07/2026 às 18:45
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Resíduos agrícolas e costeiros alimentam uma pesquisa europeia que combina biotecnologia, design e produção regional para criar fibras têxteis. O projeto reuniu matérias-primas incomuns, processos industriais e dezenas de protótipos, revelando caminhos pouco conhecidos para reduzir a dependência de materiais convencionais.

Resíduos de esterco, palha de trigo e algas passaram a integrar uma pesquisa europeia voltada à produção de fibras têxteis de origem biológica, enquanto pesquisadores buscavam alternativas capazes de reduzir a dependência industrial do algodão e do poliéster convencional.

Batizado de HEREWEAR, o projeto desenvolveu processos para extrair celulose de diferentes fluxos de biomassa, convertê-la em filamentos e incorporá-la a tecidos destinados tanto a roupas corporativas quanto a peças usadas no cotidiano.

Sem se limitar à obtenção da matéria-prima, a iniciativa reuniu pesquisadores e empresas na produção de fios, tecidos planos e malhas, além do desenvolvimento de técnicas de tingimento, revestimento e acabamento baseadas em componentes de origem biológica.

Ao fim do trabalho, mais de 70 protótipos de vestuário haviam sido produzidos, demonstrando materiais, processos industriais e modelos de fabricação regional concebidos pelo consórcio para aproximar inovação têxtil, circularidade e cadeias produtivas locais.

Esterco, palha de trigo e algas entram na indústria têxtil

Em diferentes frentes de desenvolvimento, as três fontes de resíduos foram estudadas para obtenção de fibras celulósicas, enquanto os protótipos reuniram materiais e soluções distintas elaboradas ao longo das etapas técnicas conduzidas pelo HEREWEAR.

Entre as matérias-primas avaliadas, a palha de trigo apresentou resultados promissores durante a biorrefinaria, avançando posteriormente para processos ajustados às exigências da fiação úmida e às características necessárias para a produção de filamentos contínuos.

Segundo o CORDIS, serviço oficial da Comissão Europeia para resultados de pesquisa, o trabalho foi coordenado pelo centro técnico da indústria têxtil da Bélgica e envolveu organizações científicas, fabricantes, pequenas empresas e especialistas em design.

Com custo total próximo de 7 milhões de euros, o projeto recebeu cerca de 6,16 milhões de euros da União Europeia, destinados ao desenvolvimento de materiais, processos de fabricação, ferramentas digitais e modelos de produção têxtil circular.

Na origem da pesquisa estava um problema estrutural da indústria da moda, cuja produção depende amplamente do algodão e do poliéster, materiais capazes de atender à escala comercial, mas associados ao consumo intensivo de recursos e ao uso de matérias-primas fósseis.

Para ampliar as alternativas disponíveis, o HEREWEAR investigou resíduos biológicos encontrados em cadeias agrícolas, industriais e costeiras, buscando transformá-los em componentes com propriedades adequadas às diferentes etapas de fabricação utilizadas pelo setor têxtil.

Como a celulose recuperada se transforma em filamentos

Durante a etapa de biorrefinaria, a biomassa recebeu tratamentos destinados a separar a celulose dos demais componentes, permitindo que o material recuperado fosse preparado para enfrentar as exigências técnicas envolvidas na produção de fios e tecidos.

Como impurezas e variações naturais dos resíduos alteram o comportamento da matéria-prima durante a fiação, os métodos de processamento precisaram ser ajustados e ampliados até alcançar especificações compatíveis com as etapas industriais seguintes.

Depois da recuperação, a celulose avançou para a fiação úmida, processo no qual o material é preparado em uma solução específica e posteriormente convertido em filamentos contínuos, adequados à produção de diferentes estruturas têxteis.

Paralelamente, o consórcio trabalhou com biopoliésteres processados por fiação por fusão, tecnologia que forma fibras a partir do aquecimento controlado de polímeros e permite combinar propriedades distintas em um mesmo material.

Ao testar diferentes combinações de filamentos, as equipes procuraram adaptar características como resistência, durabilidade, conforto e capacidade de processamento, fatores necessários para que as fibras suportassem operações semelhantes às praticadas pela indústria convencional.

Os resultados avançaram da escala de laboratório para a escala piloto, permitindo a obtenção de filamentos de celulose e biopoliéster com desempenho adequado à continuidade dos testes, inclusive na fabricação de fios híbridos e estruturas têxteis.

Essa passagem entre escalas permitiu verificar o comportamento dos materiais em condições mais próximas das operações industriais, reduzindo a distância entre a pesquisa científica e as exigências encontradas durante a fabricação de roupas.

Após a produção dos fios, as equipes desenvolveram tecidos planos e malhas com fibras do HEREWEAR, submetendo os materiais a tratamentos enzimáticos, impressão, revestimentos, tingimento e acabamentos produzidos com componentes de origem biológica.

Por meio desses procedimentos, foi possível avaliar não apenas a aparência dos tecidos, mas também propriedades técnicas necessárias para diferentes categorias de vestuário, incluindo desempenho durante a fabricação e resposta aos processos de acabamento.

Microfibras e impacto ambiental dos novos tecidos

Outro eixo da pesquisa acompanhou a liberação de microfibras durante as etapas de fabricação e uso, considerando que a composição dos fios, a construção dos tecidos e os acabamentos interferem diretamente na perda de partículas.

Essa avaliação ganhou relevância porque fibras liberadas durante a lavagem e o desgaste das roupas podem alcançar sistemas de esgoto, solos e ambientes aquáticos, ampliando a necessidade de considerar o ciclo completo dos novos materiais.

Mais de 70 protótipos de roupas circulares

Mais de 70 protótipos foram produzidos em pequenas séries para roupas corporativas e streetwear, permitindo que as equipes avaliassem desempenho, circularidade e possibilidades de incorporar os materiais desenvolvidos às decisões de design.

Embora o projeto tenha pesquisado esterco, palha e algas, o número total de protótipos não significa que todas as peças reuniram simultaneamente as três matérias-primas, pois cada modelo apresentou resultados de diferentes frentes técnicas.

Entre os exemplos produzidos, um vestido modular foi confeccionado com filamentos baseados em celulose de palha de trigo, combinando a cor natural do material com uma construção planejada para permitir diferentes formas de uso.

Ao relacionar o desenvolvimento da fibra a escolhas voltadas ao prolongamento da vida útil, a peça mostrou como decisões de design podem participar da circularidade sem depender exclusivamente da composição química dos materiais.

Fabricação regional e rastreabilidade das roupas

Além da pesquisa sobre fibras, a fabricação regional tornou-se um dos eixos do HEREWEAR, que conectou microfábricas e recursos produtivos distribuídos em vez de concentrar todas as etapas em uma única instalação distante dos consumidores.

Esse modelo permitiu organizar pequenas séries e testar a coordenação entre produção de materiais, confecção e acabamento, aproximando diferentes participantes da cadeia e criando rotas mais curtas para determinadas etapas industriais.

Ferramentas digitais também foram incorporadas à estrutura, permitindo registrar dados sobre composição, origem e opções de tratamento no fim da vida útil dos produtos desenvolvidos ao longo da pesquisa.

A partir desses registros, fabricantes, designers e operadores podem acessar informações relevantes para reparo, reutilização e reciclagem, facilitando a identificação dos materiais quando as roupas deixam de atender à função original.

Amostras, ferramentas e resultados do HEREWEAR

Conforme o relatório do CORDIS, o HEREWEAR reuniu aproximadamente 1.000 itens em sua coleção de amostras, entre resíduos biológicos, filamentos, tecidos e protótipos produzidos nas diferentes etapas do projeto.

Além desse acervo, a iniciativa disponibilizou mais de 40 ferramentas, modelos e guias em uma plataforma criada para apoiar empresas e profissionais interessados no desenvolvimento de materiais têxteis circulares e sistemas regionais de fabricação.

Ao longo do trabalho, a rede formada pelo projeto chegou a 250 integrantes, dos quais 40 receberam preparação para atuar como mentores e apoiar a continuidade das ações desenvolvidas pelo consórcio.

Também foram produzidos oito artigos acadêmicos e trabalhos apresentados em conferências, acompanhados por orientações sobre fabricação, avaliação ambiental, desenho circular e ampliação dos processos testados durante a pesquisa.

Realizadas entre outubro de 2020 e outubro de 2024, as atividades deixaram resultados disponíveis para fabricantes, centros de pesquisa e designers interessados em avaliar materiais, ferramentas e métodos desenvolvidos pelo HEREWEAR.

No relatório, o CORDIS aponta a adoção comercial, o aumento de escala, a durabilidade dos materiais e a integração entre cadeias produtivas como temas relacionados ao aproveitamento das demonstrações conduzidas pelo consórcio.

Se esterco, palha de trigo e algas já podem participar da origem de novas fibras têxteis, quais outros resíduos presentes no cotidiano ainda poderiam ser transformados nos materiais usados para fabricar roupas?

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Alisson Ficher

Jornalista formado desde 2017 e atuante na área desde 2015, com seis anos de experiência em revista impressa, passagens por canais de TV aberta e mais de 12 mil publicações online. Especialista em política, empregos, economia, cursos, entre outros temas e também editor do portal CPG. Registro profissional: 0087134/SP. Se você tiver alguma dúvida, quiser reportar um erro ou sugerir uma pauta sobre os temas tratados no site, entre em contato pelo e-mail: alisson.hficher@outlook.com. Não aceitamos currículos!

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