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Cientista brasileiro ganha um dos maiores prêmios de pesquisa contra o câncer da Alemanha por descoberta sobre ferroptose, processo que pode fazer células tumorais resistentes a remédios entrarem em colapso e abrir caminho para novos tratamentos

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Escrito por Ana Alice Publicado em 12/07/2026 às 20:36
Assista o vídeoCientista brasileiro é premiado na Alemanha por pesquisa sobre ferroptose, mecanismo que pode ajudar a combater tumores resistentes. (Imagem: Ilustrativa)
Cientista brasileiro é premiado na Alemanha por pesquisa sobre ferroptose, mecanismo que pode ajudar a combater tumores resistentes. (Imagem: Ilustrativa)
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Uma pesquisa premiada na Alemanha investiga um mecanismo celular ligado à oxidação de gorduras e pode indicar caminhos contra tumores resistentes, embora a aplicação médica ainda dependa de muitos anos de estudos e testes.

O cientista brasileiro José Pedro Friedmann Angeli recebeu o Prêmio Alemão do Câncer de 2026 por pesquisas sobre a ferroptose, um mecanismo de morte celular que pode abrir novas possibilidades para o combate a tumores resistentes aos tratamentos disponíveis.

O reconhecimento foi concedido na categoria de pesquisa experimental e dividido com o cientista Marcus Conrad, do centro de pesquisas Helmholtz Munich.

A premiação ocorreu em 19 de junho de 2026, em Berlim, e destacou trabalhos voltados à compreensão das alterações químicas que levam determinadas células à morte.

Embora os resultados indiquem um possível caminho para o desenvolvimento de medicamentos, as pesquisas ainda estão na fase pré-clínica, sem tratamento aprovado para pacientes com base nessa estratégia.

Professor de biologia celular translacional na Universidade de Würzburg, na Alemanha, Angeli estuda como a ferroptose é controlada e de que maneira o processo pode ser direcionado contra células tumorais.

O pesquisador atua no Centro Rudolf Virchow de Bioimagem Integrativa e Translacional, ligado à instituição alemã.

“A gente ganhou pelas descobertas da biologia, do processo fundamental de regulação da ferroptose. E isso tem relevância para o câncer devido a esse grande interesse em eliminar essas células que são resistentes a drogas”, afirmou Angeli.

Criado em 1986, o Prêmio Alemão do Câncer é concedido pela Sociedade Alemã do Câncer e pela Fundação Alemã do Câncer.

Segundo as entidades organizadoras, a premiação está entre os principais reconhecimentos da oncologia na Alemanha e contempla pesquisas experimentais, clínicas, translacionais e relacionadas à assistência aos pacientes.

José Pedro Friedmann Angeli recebeu o Prêmio Alemão do Câncer de 2026 pelo avanço nas pesquisas sobre ferroptose e tratamento oncológico. Foto: Reprodução/X
José Pedro Friedmann Angeli recebeu o Prêmio Alemão do Câncer de 2026 pelo avanço nas pesquisas sobre ferroptose e tratamento oncológico. Foto: Reprodução/X

Como funciona a ferroptose

A ferroptose é uma forma regulada de morte celular provocada por danos oxidativos dependentes de ferro.

O processo ocorre principalmente nas membranas das células, onde moléculas de gordura sofrem alterações químicas até perderem sua estabilidade.

“O processo de ferroptose envolve a oxidação de ácidos graxos”, explicou Angeli.

Para tornar o fenômeno mais acessível, o pesquisador compara a reação ao que acontece quando alimentos ricos em gordura, como manteiga ou queijo, permanecem por muito tempo fora da geladeira.

Nessas condições, o contato com o oxigênio modifica as moléculas de gordura, alterando cor, cheiro e sabor.

Algo semelhante pode ocorrer dentro das células, cujas membranas são formadas, em parte, por lipídios vulneráveis à ação de espécies reativas de oxigênio.

Quando os danos ultrapassam a capacidade de defesa da célula, a membrana perde sua integridade e a estrutura celular entra em colapso.

A presença de ferro é decisiva porque o elemento participa das reações que aceleram essa oxidação.

Esse mecanismo difere da apoptose, uma das formas mais conhecidas de morte celular programada.

A distinção interessa aos pesquisadores porque algumas células cancerígenas desenvolvem maneiras de escapar da apoptose e, com isso, tornam-se menos sensíveis a determinados medicamentos.

Estudos científicos apontam que células resistentes a terapias convencionais e algumas células associadas à formação de metástases podem apresentar maior sensibilidade à ferroptose.

Isso não significa, contudo, que o processo possa ser aplicado de forma imediata ou indiscriminada em pacientes.

Ferroptose pode causar danos ou combater tumores

A ferroptose não tem apenas uma possível aplicação contra o câncer.

Quando ocorre em tecidos saudáveis ou sem controle adequado, ela pode participar do desenvolvimento de diferentes doenças e provocar danos celulares.

Por essa razão, os cientistas trabalham em duas direções.

Uma delas busca impedir a ferroptose quando o mecanismo ameaça células que deveriam ser preservadas.

A outra procura induzir o processo de maneira seletiva em células tumorais.

“Sempre quando a gente trabalha com morte celular tem essas duas vias. Você tenta entender para prevenir e entender para induzir”, explicou Angeli.

O desafio está em desenvolver compostos capazes de alcançar o tumor e ativar o mecanismo sem produzir efeitos indesejados em tecidos saudáveis.

Também é necessário identificar quais tipos de câncer têm maior possibilidade de responder à estratégia.

Em experimentos de laboratório, tumores agressivos e resistentes a medicamentos demonstraram sensibilidade à ferroptose.

Ainda assim, resultados observados em células cultivadas ou em animais não podem ser automaticamente transferidos para seres humanos.

Antes de uma substância chegar aos hospitais, ela precisa passar por etapas de avaliação de toxicidade, dosagem, segurança e eficácia.

Os testes clínicos também devem verificar se os benefícios superam os riscos e quais pacientes poderiam ser selecionados para o tratamento.

Enzima GPX4 protege as células contra a oxidação

Parte do trabalho reconhecido pelo prêmio envolve a enzima glutationa peroxidase 4, conhecida pela sigla GPX4.

Ela funciona como uma das barreiras de proteção das células contra a oxidação excessiva de lipídios.

O grupo liderado por Marcus Conrad demonstrou que a perda da GPX4 pode desencadear uma forma não apoptótica de morte celular.

A colaboração com Angeli contribuiu para detalhar as bases moleculares da ferroptose e os fatores que determinam se uma célula será sensível ou resistente ao processo.

Os pesquisadores também identificaram mecanismos usados pelas células para evitar esse tipo de morte.

A descoberta dessas defesas permite procurar formas de bloqueá-las em tumores que continuam crescendo mesmo após a aplicação de terapias convencionais.

Com base nesse conhecimento, as equipes desenvolveram compostos destinados a explorar a ferroptose com finalidade terapêutica.

Estudos pré-clínicos realizados em camundongos indicaram redução do crescimento tumoral e da formação de metástases, de acordo com a Sociedade Alemã do Câncer e as instituições envolvidas na pesquisa.

Os resultados justificam a continuidade dos testes, mas não comprovam que as substâncias terão o mesmo desempenho em pessoas.

Diferenças entre organismos, efeitos colaterais e dificuldades para levar o medicamento até o tumor podem modificar a resposta observada nas etapas seguintes.

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Tratamento contra o câncer ainda depende de anos de pesquisa

Angeli afirma que o desenvolvimento de uma terapia baseada nessas descobertas permanece em estágio inicial.

Mesmo que as próximas etapas avancem sem interrupções, o caminho até um estudo clínico amplo pode levar mais de uma década.

“É uma fase muito preliminar ainda. Se tudo correr bem, até chegar em um estudo clínico de verdade, a gente está falando aí provavelmente de 10 a 15 anos”, declarou o pesquisador.

O prazo apresentado por Angeli é uma estimativa e depende dos resultados de cada fase.

Um composto pode demonstrar atividade contra células tumorais no laboratório e, mais adiante, ser descartado por não apresentar segurança suficiente ou por não atingir o efeito esperado em organismos mais complexos.

A premiação reconhece a contribuição científica para a compreensão da ferroptose e para a criação de ferramentas experimentais.

Ela não representa o anúncio de uma cura nem a disponibilidade de um novo medicamento contra o câncer.

Nascido no Brasil, Angeli já estudava a bioquímica da oxidação de lipídios antes de iniciar a colaboração com Conrad na Alemanha.

A aproximação entre os dois pesquisadores ajudou a formar uma linha de investigação que combina ciência básica, análise dos mecanismos celulares e desenvolvimento inicial de possíveis fármacos.

Essa integração permite investigar desde as reações químicas que ocorrem na membrana até a resposta de tumores aos compostos experimentais.

O objetivo é compreender em quais circunstâncias a ferroptose pode ser ativada e quais barreiras precisam ser superadas para uma futura aplicação médica.

Enquanto os testes prosseguem, a descoberta amplia o conhecimento sobre as estratégias usadas por células cancerígenas para sobreviver.

A possibilidade de atingir tumores que já não respondem a medicamentos mantém a ferroptose entre as áreas estudadas pela oncologia experimental.

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Ana Alice

Redatora e analista de conteúdo. Escreve para o site Click Petróleo e Gás (CPG) desde 2024 e é especialista em criar textos sobre temas diversos como economia, empregos e forças armadas.

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