Pelo menos uma dúzia de estados americanos discute proibir ou suspender a construção de novos data centers de inteligência artificial, e o Maine está prestes a se tornar o primeiro a aprovar uma lei estadual que congela esses projetos até 2027 tudo para evitar que moradores paguem mais caro pela energia consumida por essas instalações.
Os estados americanos começaram a reagir ao que muitos legisladores consideram uma ameaça concreta ao bolso dos cidadãos: o consumo voraz de energia dos data centers construídos para alimentar a corrida da inteligência artificial. O Maine aprovou em ambas as câmaras legislativas um projeto que proíbe a construção de novos data centers com capacidade igual ou superior a 20 megawatts potência suficiente para abastecer mais de 15 mil residências. A governadora Janet Mills já sinalizou apoio à medida, que, se sancionada, fará do estado o primeiro nos Estados Unidos a congelar esse tipo de empreendimento em escala estadual.
O caso do Maine não é isolado. Propostas semelhantes surgiram em pelo menos outros dez estados americanos, incluindo Virgínia, Geórgia, Nova York, Maryland e Oklahoma. A preocupação é a mesma em todos eles: data centers de grande porte consomem quantidades enormes de eletricidade e água, e o custo dessa infraestrutura pode acabar sendo repassado aos consumidores residenciais. No Maine, as tarifas de energia já subiram quase 60% entre 2021 e 2026, segundo dados compilados pelo Heatmap News, e a perspectiva de novos projetos gigantescos deixou legisladores e moradores em alerta.
Por que estados americanos querem proibir data centers de inteligência artificial
Segundo o portal do G1, a lógica por trás da reação de estados americanos contra os data centers é direta: essas instalações consomem energia em uma escala que rivaliza com cidades inteiras. Um único data center de 20 megawatts pode consumir a eletricidade equivalente à de mais de 15 mil residências, segundo o Wall Street Journal.
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Quando dezenas desses projetos são propostos simultaneamente em uma mesma região, o impacto sobre a rede elétrica se torna um problema público, não apenas uma questão empresarial. As concessionárias de energia precisam investir em infraestrutura para atender essa demanda e, conforme analistas ouviram a CNBC, tendem a repassar esses custos aos consumidores.
O consumo de água é outro fator que alimenta a oposição. Um estudo da Universidade da Califórnia em Riverside estimou que responder a 50 perguntas no ChatGPT pode consumir meio litro de água e os data centers que treinam esses modelos de IA exigem sistemas de refrigeração que utilizam volumes significativos desse recurso.
A combinação de contas de luz mais altas e uso intensivo de água criou uma reação política que já ultrapassa fronteiras partidárias nos estados americanos. No Maine, o projeto de lei recebeu votos de republicanos, embora a maioria da bancada democrata tenha liderado a proposta. O deputado republicano William Tuell resumiu o sentimento crescente ao afirmar que, quanto mais se aprende sobre o tema, mais uma pausa parece necessária.
O caso do Maine e a primeira proibição estadual da história
O Maine está na linha de frente dessa disputa entre estados americanos e a indústria de tecnologia. O projeto de lei LD 307, apresentado pela deputada democrata Melanie Sachs, passou pela Câmara por 82 votos a 62 e pelo Senado por 19 a 13.
A medida congela a construção de data centers com mais de 20 megawatts até novembro de 2027 e cria o Maine Data Center Coordination Council, um conselho encarregado de estudar os impactos dessas instalações sobre a rede elétrica, o meio ambiente e as tarifas cobradas dos moradores.
A deputada Sachs defendeu a proposta afirmando que não se trata de rejeição à inovação, mas de garantir a gestão responsável dos recursos naturais e energéticos do estado. Já opositores, como o deputado republicano Steven Foster, argumentam que o Maine já possui processos regulatórios robustos e que a proibição alimenta um medo desproporcional em relação a uma indústria que sequer tem presença significativa no estado apenas nove data centers operam atualmente no Maine.
Mas defensores da medida apontam que o objetivo é justamente se antecipar: com as tarifas de energia já entre as mais altas do país, permitir a chegada de grandes data centers sem planejamento prévio poderia ser devastador para as famílias de baixa e média renda.
Outros estados americanos que seguem o mesmo caminho
O Maine pode ser o primeiro, mas dificilmente será o último. Pelo menos dez outros estados americanos já apresentaram propostas para restringir ou suspender temporariamente a construção de data centers, segundo levantamento da Conferência Nacional de Legislaturas Estaduais (NCSL).
A Virgínia, que lidera os Estados Unidos com 579 data centers em operação, enfrenta resistência crescente de comunidades locais que temem o impacto sobre o fornecimento de água e energia. No condado de Botetourt, moradores travam uma disputa ativa contra um data center planejado pelo Google.
Na Geórgia, outro polo de data centers de empresas como Meta e Microsoft, o legislativo estadual encerrou a sessão antes de votar uma proposta de moratória. Em Nova York, Maryland, Oklahoma e Carolina do Sul, projetos semelhantes foram apresentados, embora nenhum tenha virado lei até agora.
A pressão também alcançou o nível federal: o senador Bernie Sanders e a deputada Alexandria Ocasio-Cortez apresentaram um projeto para impor uma moratória nacional sobre data centers de IA até que um marco regulatório mais restritivo seja implementado. O economista Anirban Basu, da Associated Builders and Contractors, sintetizou a tendência ao Wall Street Journal: o Maine será o primeiro de muitos estados americanos a adotar moratórias semelhantes.
O lado econômico que os estados americanos não podem ignorar
Proibir data centers não é uma decisão sem consequências econômicas, e a indústria de tecnologia tem sido enfática ao apontar os riscos. Glenn Adams, diretor de desenvolvimento de negócios da construtora Sargent Corp., com sede no Maine, afirmou que qualquer estado que paralise a construção de data centers, mesmo temporariamente, ficará para trás em uma corrida global. A empresa já constrói data centers na Virgínia e na Carolina do Norte, e Adams alertou que investidores e desenvolvedores simplesmente migrarão para jurisdições mais receptivas.
O debate nos estados americanos também envolve um argumento menos intuitivo: o de que data centers podem, na verdade, ajudar a reduzir o custo da energia no longo prazo. Neil Chilson, chefe de política de IA do Abundance Institute, argumenta que essas instalações são clientes estáveis e de longo prazo que dão às concessionárias a receita necessária para investir em mais geração de energia e modernização da rede, beneficiando todos os consumidores.
No entanto, esse argumento enfrenta ceticismo em estados americanos onde as tarifas já são altas e a capacidade da rede é limitada. No Maine, organizações como a Our Power alertam que, mesmo que empresas se comprometam a construir sua própria geração de energia, isso provavelmente não seria suficiente para compensar o aumento geral nos custos.
O que o Brasil pode aprender com a reação dos estados americanos
Enquanto estados americanos tentam frear a expansão dos data centers, o Brasil caminha em direção oposta. Os primeiros grandes projetos de data centers de inteligência artificial anunciados no país no Rio de Janeiro, Eldorado do Sul (RS), Maringá (PR), Uberlândia (MG) e Caucaia (CE) poderão ter consumo equivalente ao de mais de 16 milhões de residências, segundo estimativas publicadas pelo G1. Apenas o projeto da ByteDance em Caucaia prevê capacidade inicial de 200 megawatts e investimento superior a R$ 580 bilhões.
O contraste é revelador. Nos estados americanos, a preocupação com o impacto sobre tarifas de energia e recursos hídricos já gerou legislação restritiva antes mesmo de os grandes projetos se materializarem. No Brasil, onde 204 data centers já operam e novos empreendimentos de escala sem precedentes estão a caminho, o debate regulatório ainda é incipiente.
A experiência americana sugere que ignorar o planejamento energético e ambiental no estágio inicial pode gerar uma reação pública e política muito mais custosa no futuro. A pergunta que os estados americanos estão fazendo quem paga a conta da revolução da IA? é a mesma que o Brasil precisará responder em breve.
Estados americanos estão travando a construção de data centers para proteger os moradores de contas de energia mais altas. Você acha que o Brasil deveria fazer o mesmo ou a prioridade deve ser atrair investimentos em tecnologia?

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