Há quatro décadas a Coreia do Sul comprou da Alemanha o desenho do seu primeiro submarino e montou o casco sob a supervisão dos engenheiros alemães; agora Seul acelera um programa de propulsão nuclear próprio e mira o clube fechadíssimo de marinhas que mantêm submarino atômico no mar, invertendo a relação com quem um dia foi a sua professora.
Quem acompanha defesa naval sabe que pouca coisa muda tanto o equilíbrio de um mar quanto um submarino que não precisa subir para respirar. E é exatamente para esse patamar que a Coreia do Sul decidiu correr. Depois de anos construindo submarinos convencionais cada vez melhores, o país pisou no acelerador de um projeto de submarino de propulsão nuclear de fabricação nacional, um salto que muito poucos governos no planeta conseguiram dar.
O detalhe que dá sabor à história é a origem dessa engenharia. Nos anos 1980, Seul não sabia montar um submarino do zero e foi bater na porta da alemã HDW, comprando a licença do Type 209. O primeiro casco saiu praticamente das mãos alemãs, e só a partir do segundo a construção migrou para estaleiros coreanos. Confesso que acho difícil imaginar virada mais simbólica: a aluna agora desenha sozinha e mira um tipo de submarino que a própria Alemanha nunca operou.

Do Type 209 alemão ao casco coreano
O caminho passou pela classe Jangbogo, derivada do projeto alemão, e desembocou na atual KSS-III, batizada de classe Dosan Ahn Changho. Esses submarinos já são quase inteiramente coreanos, fabricados pela Hanwha Ocean e pela HD Hyundai Heavy Industries, com baterias de íon-lítio e capacidade de lançar mísseis balísticos a partir de tubos verticais, algo raríssimo num submarino não nuclear. Foi essa base industrial que deu a Seul a confiança para subir o degrau seguinte.
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A diferença entre o que existe hoje e o que se busca é enorme. Um submarino convencional, mesmo equipado com propulsão independente de ar, precisa cedo ou tarde chegar perto da superfície para recarregar. Um submarino nuclear, não: o reator gera energia por meses sem parar, e o limite vira a comida da tripulação. Para um país que vigia um vizinho imprevisível ao norte e mares disputados ao redor, essa autonomia é estratégica.
Por que a propulsão nuclear muda o jogo
Quando se fala em submarino nuclear, é comum imaginar arma atômica, e os dois temas não são a mesma coisa. Aqui o nuclear está no que move o navio, não no que ele dispara. O reator aquece água, gera vapor, gira as turbinas e empurra o casco em silêncio, permitindo que ele fique submerso e quase indetectável por semanas a fio, percorrendo distâncias que um diesel-elétrico jamais alcançaria sem reabastecer.

Esse é o pulo do gato que coloca a Coreia do Sul num grupo de elite. Hoje, manter submarino de propulsão nuclear em operação é privilégio de um punhado de potências: Estados Unidos, Rússia, China, Reino Unido, França e Índia. Entrar nessa lista significa dominar reator compacto, combustível, blindagem e segurança a bordo, uma cadeia tecnológica que poucos países sequer tentam montar. Fico imaginando o tamanho do recado geopolítico que esse anúncio manda para a vizinhança.
O obstáculo do combustível
Nem tudo é só vontade política. Há um nó técnico e diplomático no combustível nuclear. Acordos internacionais limitam o nível de enriquecimento de urânio que a Coreia do Sul pode usar, e um reator naval costuma exigir combustível mais concentrado do que o de uma usina civil. Resolver isso passa por negociação com os Estados Unidos, parceiro histórico de segurança, e é aí que parte da discussão atual se concentra, com Seul buscando o aval para um arranjo que viabilize o reator sem romper compromissos.
Os estaleiros coreanos, por sua vez, já provaram que sabem entregar. A mesma indústria que constrói a KSS-III vem vencendo contratos no exterior e disputando encomendas que pouco tempo atrás eram domínio de europeus e americanos. A capacidade de fabricação existe, o capital existe, e a experiência acumulada com a linha de submarinos convencionais reduz boa parte do risco do projeto nuclear.

Não custa lembrar que esses mesmos estaleiros viraram fenômeno de exportação. A Hanwha Ocean e a HD Hyundai disputam hoje encomendas bilionárias de submarinos e navios de guerra na Europa e nas Américas, e chegaram a enviar um submarino convencional numa missão de mais de 14 mil quilômetros até a Ásia-Pacífico para demonstrar capacidade a clientes em potencial. Quem entrega submarino convencional desse nível tem chão de fábrica para encarar o desafio nuclear.
A aluna que virou referência
O que torna a notícia tão marcante não é só a engenharia, é a trajetória. Em quatro décadas, a Coreia do Sul saiu da posição de quem importava o desenho inteiro de um submarino para a de quem projeta, constrói e exporta plataformas de ponta, e agora se prepara para algo que a sua antiga professora alemã nunca colocou na água. É o tipo de virada que costuma demorar gerações e que aqui aconteceu rápido, na base de investimento contínuo em indústria pesada e formação técnica.
Para o leitor brasileiro, o paralelo é inevitável. O Brasil também persegue há tempos o seu primeiro submarino de propulsão nuclear, num programa próprio e cheio de altos e baixos, e olhar para a forma como Seul acelerou ajuda a entender o tamanho do desafio e da recompensa. Dominar essa tecnologia é, na prática, comprar um lugar à mesa onde se decidem as regras do mar.
O próximo capítulo dependerá menos de aço e mais de acordo: se a questão do combustível for resolvida, a Coreia do Sul terá aberto um caminho que vai inspirar e pressionar outras potências médias a tentarem o mesmo salto.
Será que a corrida pelo submarino nuclear vai redesenhar o equilíbrio naval da Ásia nos próximos anos?
