Astronautas podem crescer até 3% no espaço, mas a coluna sofre, dor surge e a NASA alerta para risco de lesões após o retorno à Terra.
Em materiais e relatórios técnicos publicados pela NASA entre abril de 2018 e março de 2025, a agência registrou um fenômeno que, à primeira vista, parece positivo, mas carrega implicações médicas importantes: astronautas podem aumentar a altura em cerca de 3% nos primeiros dias em microgravidade. Esse crescimento ocorre sobretudo pelo alongamento da coluna vertebral, já que a ausência da carga axial constante da gravidade terrestre altera a mecânica da coluna e influencia diretamente a estatura em voo.
O efeito, porém, não representa um ganho fisiológico saudável. A própria NASA destaca que a elongação da coluna e as mudanças nos discos intervertebrais estão ligadas a relatos mais frequentes de dor lombar durante a missão e a preocupações com lesões após o retorno à gravidade. No relatório técnico publicado em março de 2025, a agência afirma que exposições prolongadas à microgravidade estão associadas ao aumento de queixas de dor nas costas e podem ter relação com alterações discais observadas no período pós-voo
Esse conjunto de alterações passou a ser tratado como um dos riscos médicos relevantes em missões de longa duração, especialmente em cenários futuros que envolvem permanência prolongada fora da Terra, como viagens à Lua e a Marte.
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Microgravidade elimina compressão da coluna e altera completamente a biomecânica do corpo
Na Terra, a coluna vertebral está constantemente submetida à ação da gravidade. Esse peso comprime os discos intervertebrais ao longo do dia, fazendo com que a altura de uma pessoa possa variar alguns milímetros entre manhã e noite.
No espaço, esse mecanismo deixa de existir. Sem a força gravitacional, os discos se expandem, aumentando o espaço entre as vértebras.
Esse processo leva ao aumento temporário da estatura, mas também provoca uma mudança importante na biomecânica da coluna. A musculatura que estabiliza a região lombar passa a trabalhar menos, enquanto os ligamentos e discos assumem uma carga diferente da habitual. Essa combinação cria um cenário em que a coluna fica mais alongada, porém menos estável e mais vulnerável a desconfortos e tensões internas.
Dor nas costas surge cedo em missões e afeta grande parte dos astronautas
A própria NASA reconhece que a dor lombar é um sintoma comum em missões espaciais. Em muitos casos, ela aparece logo nos primeiros dias após a adaptação à microgravidade.
Estudos citados pela agência indicam que uma parcela significativa dos astronautas relata algum nível de desconforto nas costas durante o voo. Esse sintoma está diretamente ligado ao alongamento da coluna e às mudanças na distribuição de forças sobre os tecidos.

A dor pode variar de leve a moderada, mas seu impacto vai além do desconforto físico. Em um ambiente onde cada movimento precisa ser preciso e controlado, qualquer alteração na estabilidade corporal pode influenciar o desempenho operacional da tripulação.
Risco mais crítico aparece no retorno, quando a gravidade volta a comprimir a coluna
O momento mais delicado não ocorre necessariamente durante a missão, mas no retorno à Terra. Após semanas ou meses em microgravidade, a coluna está adaptada a um estado de alongamento. Quando o astronauta volta a ser submetido à gravidade, ocorre uma compressão rápida e intensa sobre os discos intervertebrais.
Esse processo pode aumentar o risco de lesões, especialmente em estruturas que já estavam sob tensão durante o voo.
A NASA passou a monitorar esse risco com maior atenção após identificar que astronautas podem apresentar maior probabilidade de desenvolver lesões de disco intervertebral após missões espaciais.
Esse tipo de lesão pode afetar mobilidade, causar dor persistente e exigir recuperação prolongada, o que se torna crítico em cenários onde o astronauta precisa estar funcional imediatamente após o pouso.
Estudos indicam aumento de risco de hérnia de disco após missões espaciais
Pesquisas conduzidas com astronautas retornados de missões de longa duração mostraram um dado relevante: a incidência de hérnia de disco pode ser maior nesse grupo em comparação com a população geral.
Esse aumento de risco está associado ao ciclo de expansão e compressão sofrido pela coluna durante e após o voo.

Durante a missão, os discos absorvem mais fluido e se expandem. No retorno, essa estrutura inchada é submetida novamente à carga gravitacional, o que pode favorecer fissuras ou deslocamentos.
Esse mecanismo transforma um efeito aparentemente inofensivo, como o aumento de altura, em um fator de risco biomecânico relevante.
Mudanças na musculatura agravam o problema ao reduzir a estabilidade da coluna
Outro fator que contribui para o risco é a perda de massa muscular em microgravidade. Mesmo com rotinas intensas de exercício a bordo da Estação Espacial Internacional, os astronautas ainda sofrem algum grau de atrofia muscular, especialmente nos músculos responsáveis pela sustentação da postura.
Com músculos mais fracos, a coluna perde parte de seu suporte natural. Isso significa que, ao retornar à Terra, a estrutura vertebral precisa lidar com cargas maiores sem o mesmo nível de proteção muscular.
Essa combinação de discos mais vulneráveis e musculatura enfraquecida aumenta a probabilidade de lesões no período pós-missão.
Impacto funcional pode comprometer desempenho logo após o pouso
A preocupação com lesões na coluna não é apenas médica, mas também operacional. Em muitos cenários, especialmente em missões mais complexas, os astronautas precisam estar aptos para executar tarefas imediatamente após o pouso, incluindo evacuação da cápsula, deslocamento em ambientes hostis ou suporte a outros tripulantes.
Alterações na coluna, dor lombar ou limitação de movimento podem comprometer essa capacidade. Isso transforma um problema fisiológico em um risco direto para a segurança da missão.
Diante desses riscos, a NASA vem desenvolvendo estratégias para mitigar os efeitos da microgravidade sobre a coluna vertebral.
Entre as abordagens estudadas estão:
- Programas de exercício específicos para fortalecimento da musculatura lombar
- Equipamentos que simulam carga axial sobre o corpo
- Monitoramento contínuo da coluna por meio de exames antes e depois das missões
- Desenvolvimento de protocolos de recondicionamento pós-voo
Apesar desses esforços, a agência reconhece que ainda não existe uma solução completa para eliminar os efeitos da microgravidade sobre a coluna. O problema continua sendo tratado como um risco ativo em missões de longa duração.
Missões à Lua e Marte ampliam preocupação com saúde da coluna
O impacto desse fenômeno ganha uma dimensão ainda maior quando se considera o futuro da exploração espacial. Missões à Lua podem durar semanas ou meses, enquanto viagens a Marte podem se estender por anos.
Nesses cenários, os efeitos acumulados sobre a coluna podem ser mais intensos, e o retorno à gravidade pode ocorrer em condições ainda mais desafiadoras.
Além disso, em missões de longa distância, não há possibilidade de evacuação rápida ou tratamento especializado imediato.
Isso significa que problemas na coluna podem evoluir sem intervenção adequada, aumentando o risco de comprometimento físico da tripulação.
Alterações na coluna revelam limite pouco visível da adaptação humana ao espaço
O caso da expansão da coluna ilustra um ponto central da medicina espacial: nem todos os riscos são imediatos ou visíveis.
Diferente de falhas técnicas ou eventos externos, alterações fisiológicas podem se desenvolver de forma gradual e silenciosa.
O aumento de altura pode parecer um efeito curioso, mas está diretamente ligado a mudanças estruturais que afetam a integridade da coluna.
Esse tipo de adaptação revela que o corpo humano ainda está longe de ser plenamente compatível com ambientes de microgravidade prolongada.
Diante desse cenário, até que ponto o corpo humano suporta longos períodos fora da gravidade terrestre?
A expansão da coluna, a dor lombar e o risco de lesões após o retorno levantam uma questão fundamental para o futuro da exploração espacial.
À medida que as missões se tornam mais longas e ambiciosas, os efeitos acumulados sobre o corpo humano passam a representar um desafio tão importante quanto qualquer obstáculo tecnológico.
Se algo aparentemente simples como a ausência de gravidade já é capaz de alterar a estrutura da coluna e aumentar o risco de lesão, até que ponto o corpo humano conseguirá se adaptar a viagens ainda mais longas e distantes da Terra?


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