Crânio de 5.300 anos encontrado na Espanha revela a cirurgia de ouvido mais antiga já registrada, com sinais claros de sobrevivência após duas intervenções.
Em 2022, pesquisadores descreveram na Scientific Reports, revista do grupo Nature um crânio humano encontrado no sítio arqueológico de El Pendón, em Reinoso, Burgos, na Espanha, com evidências do que os autores classificaram como a intervenção cirúrgica otológica mais antiga já documentada. O estudo analisou um exemplar com duas perfurações bilaterais nos ossos mastoides, atrás das orelhas, associadas a um procedimento compatível com mastoidectomia. O crânio pertenceu a uma mulher que viveu há cerca de 5.300 anos, durante o Neolítico, e chamou a atenção dos cientistas justamente pela localização e pelas características dessas aberturas na região mastoide do osso temporal. Segundo os autores, as marcas observadas apontam para uma intervenção realizada para aliviar complicações ligadas a infecção no ouvido, possivelmente associada a otite média e mastoidite.
A descoberta não apenas identifica a cirurgia de ouvido mais antiga já registrada, como também indica que a paciente sobreviveu às duas intervenções, algo excepcional para o período, já que o estudo encontrou sinais claros de remodelação óssea e regeneração nos pontos operados.
Perfurações atrás das orelhas indicam mastoidectomia realizada com precisão
A análise detalhada do crânio revelou duas aberturas simétricas localizadas atrás de cada orelha, exatamente na região onde hoje são realizadas cirurgias para tratar infecções do ouvido médio que se espalham para o osso mastoide.
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Os pesquisadores identificaram que essas perfurações não foram causadas por trauma ou processos naturais, mas sim por intervenção humana deliberada.

As bordas das aberturas apresentam características típicas de raspagem controlada do osso, o que indica o uso de ferramentas e técnica específica. Esse tipo de procedimento exige conhecimento prático da anatomia craniana e controle preciso para evitar danos fatais ao cérebro e às estruturas adjacentes.
Sinais de cicatrização comprovam que a paciente sobreviveu às duas cirurgias
Um dos aspectos mais impressionantes da descoberta é a presença de cicatrização óssea ao redor das duas perfurações. Esse detalhe é fundamental, pois demonstra que a mulher não apenas sobreviveu ao primeiro procedimento, mas também ao segundo.
A regeneração óssea observada indica que houve tempo suficiente para o corpo iniciar o processo de recuperação, algo que não ocorreria em caso de morte imediata.
A evidência de sobrevivência após duas cirurgias cranianas em um período tão antigo desafia diretamente a ideia de que intervenções desse tipo seriam impossíveis sem medicina moderna.
Procedimento provavelmente tratava infecção grave que poderia ser fatal
Os cientistas acreditam que a cirurgia foi realizada para tratar uma condição conhecida como mastoidite, uma infecção do ouvido médio que pode se espalhar para o osso mastoide.
Sem tratamento, essa infecção pode evoluir para complicações graves, incluindo sepse e morte. A localização e o formato das perfurações são consistentes com a remoção de tecido ósseo infectado para aliviar a pressão e drenar a infecção.
Isso sugere que o procedimento não era experimental, mas sim uma tentativa deliberada de tratar uma condição potencialmente fatal.
Técnicas utilizadas indicam conhecimento empírico avançado
Embora não existissem instrumentos cirúrgicos modernos, os responsáveis pela operação demonstraram domínio técnico significativo.
A raspagem do osso, ao invés de perfuração brusca, indica uma abordagem mais controlada, reduzindo o risco de fraturas e danos internos.
Além disso, a simetria das intervenções sugere que o procedimento foi repetido com base em experiência prévia. Esse nível de execução aponta para um conhecimento empírico acumulado, possivelmente transmitido dentro da comunidade ao longo do tempo.
Caso desafia visão tradicional sobre medicina pré-histórica
Durante muito tempo, acreditou-se que práticas médicas no período Neolítico eram limitadas a intervenções simples e pouco eficazes.
No entanto, descobertas como a de El Pendón mostram que algumas comunidades já realizavam procedimentos complexos com resultados positivos.

A capacidade de realizar uma cirurgia craniana e garantir a sobrevivência do paciente indica um nível de organização e conhecimento muito mais avançado. Esse tipo de evidência obriga a reavaliar a forma como a medicina antiga é compreendida.
Comparação com outras cirurgias antigas reforça caráter excepcional do achado
Embora existam registros de trepanação em diferentes regiões do mundo, a maioria desses casos envolve perfurações no topo do crânio.
O caso espanhol se destaca por envolver especificamente a região mastoide, associada ao sistema auditivo. Além disso, a presença de duas intervenções bem-sucedidas no mesmo indivíduo torna o achado ainda mais raro. Isso coloca a descoberta em um patamar único dentro da história da cirurgia antiga.
Os pesquisadores sugerem que o procedimento foi realizado com ferramentas de pedra polida, comuns no período Neolítico.
Apesar da simplicidade dos materiais, o resultado final indica um uso extremamente preciso. A ausência de fraturas irregulares e a presença de superfícies relativamente lisas reforçam essa hipótese.
A execução controlada com ferramentas rudimentares demonstra que a limitação tecnológica não impedia resultados sofisticados.
Sobrevivência indica cuidados pós-operatórios e apoio social
A recuperação da paciente após duas cirurgias cranianas sugere que houve algum tipo de cuidado pós-operatório. Isso pode incluir proteção da ferida, alimentação assistida e monitoramento da condição geral. Além disso, a sobrevivência indica que a paciente não foi abandonada após o procedimento.
Esse aspecto revela não apenas avanço técnico, mas também organização social e cuidado coletivo dentro da comunidade.

A identificação da cirurgia de ouvido mais antiga já registrada contribui para expandir o conhecimento sobre a evolução das práticas médicas.
Ela demonstra que a busca por soluções para doenças complexas já existia há milhares de anos. Além disso, evidencia que a inovação médica não é exclusiva de períodos recentes, mas resultado de um processo contínuo ao longo da história.
Esse tipo de descoberta reforça que a medicina moderna é construída sobre uma base muito mais antiga do que se imagina.
Até onde vai o conhecimento médico que já existia há milhares de anos
O caso de El Pendón levanta uma questão importante: quantas outras práticas médicas avançadas podem ter existido no passado e ainda não foram descobertas? A limitação de registros escritos e a dependência de evidências arqueológicas dificultam a reconstrução completa desse conhecimento.
No entanto, cada nova descoberta sugere que o nível de sofisticação técnica das sociedades antigas pode ter sido muito maior do que a visão tradicional permite enxergar.
Diante disso, surge um debate inevitável: até que ponto a medicina pré-histórica já dominava técnicas que hoje consideramos modernas, mas que simplesmente se perderam ao longo do tempo?

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