Estudo aponta que Nova Orleans ultrapassou ponto sem retorno climático, com risco de ficar cercada pelo Golfo do México neste século, enquanto erosão, afundamento do solo e alta do mar pressionam moradores
A retirada planejada de Nova Orleans deve começar imediatamente, pois a cidade pode ficar cercada pelo Golfo do México ainda neste século, pressionada pela elevação do mar, pela erosão dos pântanos e pelo afundamento da costa da Louisiana. As informações são do The Guardian.
Estudo vê cidade cercada pelo oceano
O novo estudo afirma que a área de Nova Orleans pode ser engolida dentro de algumas gerações, com avanço contínuo do oceano e perda acelerada dos pântanos que ainda protegem a região costeira.
A avaliação estima que a cidade “pode muito bem estar cercada pelo Golfo do México antes do final deste século”.
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O cenário transforma a retirada planejada em assunto imediato para autoridades municipais, estaduais e federais.
O sul da Louisiana, de baixa altitude, enfrenta ameaças combinadas. A elevação do nível do mar é impulsionada pelo aquecimento global, enquanto furacões mais fortes ampliam riscos já existentes.
Outro fator é o afundamento gradual de uma costa fragmentada pela indústria de petróleo e gás. O estudo projeta elevação do nível do mar entre 3 e 7 metros.
Também prevê a perda de três quartos dos pântanos costeiros restantes. Com isso, a linha costeira poderá migrar até 100 quilômetros para o interior, isolando Nova Orleans e Baton Rouge.
Os pesquisadores compararam o aquecimento atual a um período quente semelhante ocorrido há 125.000 anos. Para eles, a região é a “zona costeira fisicamente mais vulnerável do mundo”.
População vive em área de alto risco
Nova Orleans tem cerca de 360.000 habitantes e está situada em uma bacia em forma de tigela abaixo do nível do mar. A própria geografia amplia o risco de enchentes severas.
Um estudo separado apontou que 99% da população está em alto risco de inundações severas, a maior exposição entre cidades dos Estados Unidos.
Shao disse que não há prazo específico sobre quanto tempo resta à cidade, mas afirmou que Nova Orleans enfrenta uma das maiores elevações do nível do mar do mundo.
Ela também concorda que a realocação terá de ocorrer. Embora reconheça o peso político e emocional do tema, defende que a retirada planejada será a solução final em algum momento.
Jesse Keenan, especialista em adaptação climática da Universidade de Tulane, afirmou que, em termos paleoclimáticos, Nova Orleans desapareceu, restando saber por quanto tempo.
Diques não seguram o longo prazo
Após o furacão Katrina, em 2005, bilhões de dólares foram investidos em diques, comportas e bombas para proteger Nova Orleans.
Mesmo assim, o estudo alerta que essas estruturas já exigem grandes melhorias para continuarem suficientes e não conseguirão salvar a cidade no longo prazo.
A avaliação sustenta que a região costeira da Louisiana já ultrapassou o ponto de não retorno, ainda que a mitigação climática continue sendo o primeiro passo contra os piores cenários.
Keenan afirmou que, mesmo se as mudanças climáticas parassem hoje, os dias da cidade continuariam contados. Nova Orleans ficaria cercada por mar aberto.
Keenan defende ação coordenada para apoiar moradores que deixarão a região, começando pelas comunidades mais vulneráveis, como as da paróquia de Plaquemines fora do sistema de diques.
Para ele, Nova Orleans está em “estado terminal” e precisa receber diagnóstico claro. Assim, seria possível organizar a transição das pessoas e da economia.
Erosão já engoliu área de Delaware
Desde a década de 1930, a Louisiana perdeu 2.000 milhas quadradas de terra, área equivalente a Delaware. Nos próximos 50 anos, outras 3.000 milhas quadradas devem desaparecer.
A velocidade da perda é extrema: uma área do tamanho de um campo de futebol é devastada a cada 100 minutos.
Diques e outras infraestruturas haviam restringido o curso natural sinuoso do Mississippi. Com isso, os sedimentos carregados pelo rio eram empurrados ao Golfo do México, sem repor pântanos costeiros.
O Desvio de Sedimentos de Mid-Barataria, iniciado em 2023, tentava restaurar fluxo mais natural no Delta do Mississippi. A estimativa era criar mais de 52 quilômetros quadrados de novas terras em 50 anos.
Jeff Landry, governador republicano da Louisiana, cancelou o projeto no ano passado. Ele alegou que o custo de US$ 3 bilhões era alto demais e ameaçava a indústria pesqueira estadual.
O novo estudo afirma que perder esse plano significa, na prática, desistir de extensas áreas costeiras da Louisiana, incluindo a região de Nova Orleans.
Sem plano, êxodo pode virar desordem
Neste mês, a Suprema Corte dos Estados Unidos permitiu que a indústria de combustíveis fósseis contestasse em âmbito federal uma decisão de júri estadual.
A decisão obrigava a Chevron a pagar US$ 740 milhões para remediar danos causados aos pântanos por dragagem de canais, perfuração de poços e despejo de águas residuais.
Keenan afirmou que a combinação dessas decisões cria um cenário em que o estado parou de tentar construir terra. Para ele, isso acelera o processo.
O pesquisador disse que as autoridades poderiam ganhar tempo, mas essa opção foi descartada. Ele também afirmou ser certo que os diques de Nova Orleans voltarão a falhar várias vezes.
Nesse cenário, a retirada planejada aparece como alternativa para reduzir uma migração caótica. Os Estados Unidos nunca transferiram uma grande cidade em larga escala.
Ainda assim, várias comunidades já se realocaram por razões econômicas, e outras agora se deslocam pela crise climática. Na Louisiana, infraestrutura poderia ser planejada ao norte, além do Lago Pontchartrain.
Keenan afirma que o êxodo já começou. Sem ação, moradores sairão aos poucos, em dinâmica descoordenada, pressionada pela dificuldade crescente de obter seguro.
Timothy Dixon, especialista da Universidade do Sul da Flórida, disse que Nova Orleans não desaparecerá em 10 anos, mas que formuladores deveriam ter pensado em realocação há um século.
A Louisiana já registrou perdas populacionais nos últimos anos. O estudo alerta que essa tendência pode se acelerar de forma desordenada se os riscos não forem tratados imedatamente.
O gabinete de Landry foi procurado para comentar o assunto, mas não respondeu. Sem estratégia pública, o debate sobre a retirada plajenada segue cercado por custos, vínculos afetivos, impactos econômicos e urgência climática e ausência de resposta oficial do governo estadual.
Com informações de The Guardiam.


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