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A cidade da “bola branca” gigante onde uma redoma esconde um radiotelescópio do INPE e o lugar precisa de “silêncio de rádio” para captar sinais do Universo

Escrito por Alisson Ficher
Publicado em 04/01/2026 às 15:34
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Estrutura misteriosa na Serra do Itapetinga chama atenção em Atibaia e revela um observatório ligado ao INPE, protegido por redoma “transparente em rádio” e cercado por regras de silêncio elétrico para evitar interferências em pesquisas científicas.

Quem cruza a região de Atibaia, no interior de São Paulo, pode se deparar com uma estrutura que parece fora de contexto: uma grande “bola” branca no alto da serra, visível a distância em dias abertos.

O que chama atenção não é uma obra de arte nem um reservatório de água, mas a redoma que envolve o principal equipamento do Rádio Observatório Pierre Kaufmann, conhecido historicamente como Rádio Observatório do Itapetinga.

Dentro dela, funciona um radiotelescópio de 13,7 metros associado às atividades do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) em parceria com a Universidade Presbiteriana Mackenzie.

Silêncio de rádio e interferência eletromagnética: por que o lugar é diferente

O motivo de tanta proteção e de tanta discrição ao redor não é estético.

A radioastronomia trabalha com sinais eletromagnéticos muito fracos vindos do espaço, e qualquer interferência produzida por fontes próximas pode afetar observações.

Em materiais públicos do INPE sobre o sítio de Atibaia, o próprio instituto descreve a existência de uma “zona de silêncio” ao redor de radio-observatórios, onde não devem ser desenvolvidas atividades que gerem interferências, citando exemplos de fontes comuns do dia a dia, como torres de transmissão de celular, controles remotos, fornos de micro-ondas, redes de internet sem fio, internet via satélite e radiocomunicadores.

No caso específico do observatório instalado em Atibaia, o INPE também registra que o local está inserido em uma região de “Silêncio Elétrico” estabelecida por lei municipal em 1972, com a finalidade de assegurar condições apropriadas de operação.

Em um estudo institucional sobre interferência eletromagnética no sítio, o instituto descreve ainda que o observatório fica em um vale com altitude média de 815 metros, circundado por morros e vegetação densa, elementos que ajudam a reduzir parte das interferências geradas nas proximidades.

Redoma “transparente em rádio” e o radiotelescópio de 13,7 metros

A redoma branca é parte dessa estratégia de preservar desempenho e continuidade de operação.

Em descrição oficial sobre o rádio-observatório, o INPE informa que o radiotelescópio de 13,7 metros foi projetado para operar em radiofrequências de até 100 GHz e que sua estrutura metálica leve é protegida contra a ação dos ventos e a incidência de radiação solar por uma redoma “transparente em rádio”, isto é, feita para permitir a passagem das ondas de rádio usadas nas observações.

A origem do observatório em Atibaia e a década de 1970

A história do complexo em Atibaia é anterior ao nome “Pierre Kaufmann”, adotado mais recentemente.

O INPE registra que as atividades do observatório começaram no início da década de 1970 com a instalação de um radiotelescópio menor, de 1,2 metro, operando em 7 GHz e dedicado a observações da atividade solar.

Além disso, integravam os instrumentos de pesquisa um sistema de recepção de sinais em Very Low Frequency (VLF) e um riômetro, usados para investigar a ionosfera terrestre.

INPE, Mackenzie e a trajetória administrativa do rádio-observatório

A antena maior, de 13,7 metros, passou a se consolidar como o principal instrumento do local ao longo daquele período.

De acordo com o INPE, o equipamento foi adquirido com recursos da Finep e, no início, operado por um grupo sediado na Universidade Presbiteriana Mackenzie.

O instituto também descreve uma trajetória administrativa que incluiu transferência para o Observatório Nacional em 1979 e, em 1982, para o INPE, por meio de comodato com prazo de 64 anos.

Em 2019, o observatório foi renomeado oficialmente como Rádio Observatório Pierre Kaufmann.

50 anos do Rádio Observatório do Itapetinga e a data de 1973

A presença do observatório também tem registro de marcos comemorativos recentes.

Em publicação institucional, o INPE informou que, em 30 de outubro de 2023, foi realizada a comemoração de 50 anos do Rádio Observatório do Itapetinga, com referência à data de 20 de outubro de 1973, já sob a denominação atual de Rádio Observatório Pierre Kaufmann.

Pesquisa solar e radioastronomia: o que se observa no local

Do ponto de vista científico, a instalação é associada a observações do Sol e de fenômenos ligados ao ambiente espacial próximo da Terra.

Em notícia da própria Universidade Presbiteriana Mackenzie sobre a reinauguração do local em 2019, a instituição descreveu o observatório como usado para observações da atividade solar e sua relação com o planeta Terra por meio de ondas de rádio, além de citar pesquisas de radioastronomia galáctica e extragaláctica, incluindo a busca por quasares.

Medições de interferência e o “ruído invisível” do cotidiano

O “silêncio de rádio” citado no título, portanto, não se refere a um silêncio sonoro, mas ao controle de interferências no espectro eletromagnético que podem mascarar sinais astronômicos.

Essa preocupação aparece de forma objetiva nos materiais técnicos: o INPE publicou uma análise de interferência eletromagnética feita no sítio em 2005, com medições na faixa de 80 MHz a 3 GHz, para identificar sinais associados a atividades urbanas de Atibaia e regiões vizinhas e comparar o que era captado com o plano brasileiro de atribuição e destinação de faixas de frequência.

Uma singularidade no interior de São Paulo

Na prática, isso ajuda a explicar por que a “bola branca” não é apenas uma curiosidade visual.

Ela marca um lugar onde, por definição, a infraestrutura científica compete com o ruído invisível do cotidiano moderno.

O INPE descreve que existe articulação mundial para manter radio-observatórios livres de interferências e cita a União Internacional de Telecomunicações como fórum central para estabelecer princípios que embasam leis nacionais sobre gestão do espectro, incluindo a proteção dessas zonas.

Para Atibaia, a consequência mais evidente é que o observatório cria uma singularidade territorial: uma estrutura científica de alta sensibilidade instalada em área próxima a dinâmicas urbanas e de expansão, onde sinais de telecomunicação e equipamentos eletrônicos são parte do dia a dia.

Na própria comunicação institucional sobre a reabertura de 2019, a Mackenzie registrou que havia preocupação de preservação da lei relacionada à área de silêncio elétrico no entorno do observatório, reforçando que o tema não é apenas técnico, mas também administrativo e local.

Mesmo sem acesso ao interior do complexo, a redoma segue funcionando como um “ícone” involuntário: uma pista visual de que, naquele ponto da Serra do Itapetinga, há equipamentos voltados a captar informações em ondas de rádio que não chegam aos olhos como luz visível.

Para quem vê a esfera branca ao longe e se pergunta por que um município teria uma área voltada a reduzir interferências eletromagnéticas, a resposta está menos em mistério e mais em engenharia, espectro e ciência aplicada ao espaço — e, ao mesmo tempo, em como uma cidade convive com regras pensadas para proteger medições extremamente sensíveis.

Se uma “bola branca” na serra já indica que existe ciência acontecendo ali dentro, quais outras estruturas pouco conhecidas no interior do Brasil você já viu e só depois descobriu para que serviam?

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Washington
Washington
06/02/2026 10:14

A fotografia usada na matéria não é a do ROPK. O observatório fica num vale e não no topo de uma montanha.

Paulo Roberto Durigan
Paulo Roberto Durigan
05/01/2026 01:47

Faltou dizer sobre possibilidades de visitação e como a população pode ter acesso a observações no local.

Alisson Ficher

Jornalista formado desde 2017 e atuante na área desde 2015, com seis anos de experiência em revista impressa, passagens por canais de TV aberta e mais de 12 mil publicações online. Especialista em política, empregos, economia, cursos, entre outros temas e também editor do portal CPG. Registro profissional: 0087134/SP. Se você tiver alguma dúvida, quiser reportar um erro ou sugerir uma pauta sobre os temas tratados no site, entre em contato pelo e-mail: alisson.hficher@outlook.com. Não aceitamos currículos!

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