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A China deixou de ser o lixão do mundo e agora enfrenta o oposto — usinas de incineração em série ultrapassam o volume de resíduos disponíveis, e o país corre para encontrar lixo para queimar

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Escrito por Romário Pereira de Carvalho Publicado em 19/11/2025 às 20:52 Atualizado em 19/11/2025 às 20:55
China, Lixo, Industria, Resíduos
Imagem ilustrativa: IA
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A virada chinesa no setor de resíduos expôs uma contradição crescente, em que antigas áreas de descarte são reabertas para suprir incineradoras em expansão acelerada

Até poucos anos atrás, a China era vista como destino voluntário do lixo mundial, porque importava resíduos para suprir sua indústria. Esse cenário começou a mudar, portanto o país passou a lidar com uma realidade completamente diferente. Hoje, o que sobra não é lixo, e sim incineradoras que precisam queimá-lo.

Nos últimos anos, antigas áreas de descarte começaram a ser escavadas. Muitas usinas passaram a queimar resíduos guardados há duas décadas, porque a demanda não para de crescer.

A longa história de dependência das importações

Em 2016, a China importou milhões de toneladas de plástico e manteve um papel central no fluxo global de resíduos.

Hong Kong também recebeu grandes quantidades, além de papel, sucata e têxteis. Durante mais de vinte anos, o país foi o principal receptor mundial. E isso aconteceu por decisão própria.

Nos anos 80, diante da falta de certas matérias-primas, o governo chinês decidiu importar resíduos úteis para abastecer sua indústria.

Além disso, casos como o do lixo eletrônico ganharam destaque, porque esse tipo de material era desmontado em condições ambientais muito precárias, como explica o acadêmico Erik Baark.

O crescimento interno mudou o jogo

No fim da década de 2010, o volume interno de lixo urbano aumentou de forma acelerada. O país passou de 158 para mais de 249 milhões de toneladas. Assim, o governo percebeu que estava ficando sem espaço.

As autoridades reagiram com medidas mais duras. Em 2017, mais de 800 empresas foram multadas por descumprir normas de reciclagem.

Além disso, poucos meses depois, 259 pessoas foram presas por importações ilegais de mais de 300 mil toneladas de resíduos. Mesmo assim, isso não bastava.

O choque no mercado global

O governo proibiu as importações. A decisão de 2017 e 2018 provocou um impacto mundial. Sistemas de reciclagem, especialmente no Ocidente, entraram em crise porque dependiam da China para escoar parte significativa de seus resíduos.

Mas a política chinesa seguia em outra direção. O 12º Plano Quinquenal apoiou o avanço da incineração, com metas claras para ampliar essa forma de tratamento. O país queria elevar o índice de resíduos incinerados para 35%.

O avanço das incineradoras

O ritmo de expansão foi muito rápido. De 2019 a 2023, o número de usinas saltou de 428 para 1.010. A meta de 2025, que previa capacidade diária de 800 mil toneladas, foi superada já em 2022.

Esse sistema passou a processar cerca de 80% do lixo do país. Portanto, a demanda por resíduos aumentou.

Agora, porém, a falta de matéria-prima virou problema. Grandes cidades enfrentam redução na operação de incineradoras porque o lixo disponível não é suficiente.

A corrida por resíduos

Reportagens recentes mostram que cerca de 5% das usinas não conseguem funcionar devido à escassez. A competição entre plantas aumentou, portanto a busca por lixo se intensificou.

Isso levou ao desenterramento de resíduos antigos. Em várias regiões, antigos aterros estão sendo escavados para recuperar material descartado há muitos anos. Mas essa ideia não é tão eficiente quanto parece.

Segundo o canal Jabiertzo, misturar lixo novo e antigo é essencial. Resíduos velhos não queimam bem sozinhos. Assim, torna-se necessário trazer lixo de outras cidades, o que cria custos e desafios adicionais.

Por que aterros voltaram ao centro do problema

A origem desse movimento não está em catadores tentando lucrar com vendas por peso. Ela vem da necessidade que as próprias incineradoras têm de armazenar cinzas geradas no processo.

Inicialmente, as usinas se ofereceram para liberar espaço em aterros e usá-lo para suas cinzas. Porém, como o lixo ficou escasso e o setor é altamente lucrativo, os aterros passaram a funcionar como fonte adicional de resíduos.

A rentabilidade média anual chega a milhões de dólares por planta em áreas rurais, portanto a pressão econômica se intensifica.

Um futuro incerto na China

Apesar da expansão, ninguém considera esse modelo sustentável. O crescimento do lixo chinês tem sido menor que o esperado.

Por isso, especialistas apontam que o sistema de incineração pode entrar em crise.

Primeiro, porque faltará material para manter todas as plantas ativas. Além disso, o desenterramento de resíduos não é considerado solução permanente.

Ele é apenas um jeito de atender à demanda imediata, sem resolver o problema de longo prazo.

A China mudou toda a dinâmica global dos resíduos. Mas agora enfrenta seu próprio dilema, porque criou uma estrutura que depende de um volume de lixo que já não existe na mesma proporção.

Com informações de Xataka.

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Romário Pereira de Carvalho

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