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A Arábia Saudita conectou à rede o maior sistema de baterias do mundo, com 7,8 GWh distribuídos por três cidades no deserto, antes de ter energia renovável suficiente para justificar o tamanho do reservatório que acabou de construir

Escrito por Valdemar Medeiros
Publicado em 21/03/2026 às 13:42
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Image: China Power
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Arábia Saudita instala maior bateria do mundo com 7,8 GWh mesmo com menos de 10% de energia renovável e antecipa expansão do setor elétrico

Em 18 de dezembro de 2025, a Saudi Electricity Co. concluiu a conexão à rede elétrica de um sistema de armazenamento por baterias de 7,8 GWh distribuído por três localidades no sudoeste do reino, o maior do gênero já construído no mundo. O paradoxo é que a Arábia Saudita ainda gera menos de 10% da sua eletricidade a partir de fontes renováveis. O país que possui as maiores reservas de petróleo do planeta acabou de instalar a infraestrutura de armazenamento de energia renovável mais ambiciosa da história. E fez isso antes de ter geração suficiente para justificar o tamanho do reservatório.

Sistema de armazenamento de energia em GWh: o que significa uma bateria de 7,8 GWh

Para compreender a dimensão do projeto, é necessário estabelecer uma referência concreta. Um gigawatt-hora (GWh) equivale a 1.000 MWh. Uma bateria de celular tem em torno de 0,004 kWh. Já uma bateria de carro elétrico, como a de um Tesla Model S, possui cerca de 100 kWh. A bateria instalada pela Arábia Saudita soma 7.800.000 kWh, o equivalente a dezenas de milhares de veículos elétricos carregados simultaneamente.

Em termos operacionais, com 7,8 GWh armazenados, é possível alimentar uma cidade de porte médio por quase duas horas completas ou estabilizar a frequência de uma rede elétrica inteira por períodos prolongados.

Antes deste projeto, o maior sistema do mundo era o de Edwards & Sanborn, na Califórnia, com 3,3 GWh. O sistema saudita mais do que dobra essa capacidade.

Projeto de baterias na Arábia Saudita: três cidades conectadas por uma única rede de energia

O sistema foi implantado em três localidades — Najran, Khamis Mushait e Madaya — cada uma com aproximadamente 2,6 GWh de capacidade, todas conectadas a linhas de transmissão de 380 kV.

A escolha da região é estratégica. O sudoeste do país apresenta clima menos extremo, maior altitude e crescimento acelerado da demanda elétrica. Também concentra projetos eólicos em expansão, o que torna o armazenamento essencial para integrar a geração renovável.

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O projeto pertence à Saudi Electricity Co., estatal responsável pela geração e distribuição de energia. A National Grid SA atua como compradora da energia armazenada, enquanto a Algihaz Holding executou o contrato completo de engenharia, aquisição e construção.

A tecnologia central foi fornecida pela Sungrow, empresa chinesa considerada uma das mais confiáveis do mundo no setor de armazenamento de energia.

Escala industrial do projeto: 1.500 contêineres de baterias produzidos em apenas 58 dias

A dimensão logística do projeto é um dos pontos mais impressionantes. O sistema utiliza mais de 1.500 unidades do modelo PowerTitan 2.0, cada uma configurada em contêineres padronizados com baterias de íon-lítio, sistemas de conversão de energia e resfriamento líquido integrados.

Todas as unidades foram fabricadas em apenas 58 dias, um ritmo industrial raramente observado em projetos dessa magnitude.

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O modelo all-in-one reduz significativamente o tempo de instalação. Em vez de montagem complexa em campo, os módulos chegam prontos para conexão direta à rede elétrica.

Além disso, a densidade energética permite uma ocupação reduzida de área, otimizando a implantação mesmo em ambientes desérticos.

Funções avançadas do sistema: black start, estabilidade de frequência e suporte à rede elétrica

O sistema saudita não atua apenas como armazenamento passivo de energia. Ele foi projetado como uma estrutura grid-forming, capaz de desempenhar funções críticas para a estabilidade da rede elétrica. Isso significa que ele não apenas segue a rede, mas também pode definir parâmetros elétricos, funcionando como uma fonte ativa de controle.

Entre as funções mais relevantes está a capacidade de reativar a rede após apagões, conhecida como black start, com tempo de resposta significativamente inferior ao de usinas convencionais.

O sistema também fornece inércia virtual, compensando a ausência de geradores rotativos tradicionais, além de responder em milissegundos a variações de frequência e manter a estabilidade de tensão em regiões remotas. Essas características tornam o projeto um elemento central na transição energética do país.

O paradoxo energético da Arábia Saudita: maior bateria do mundo com baixa participação de renováveis

O dado mais surpreendente do projeto está na matriz energética do país. Mesmo após instalar o maior sistema de baterias do mundo, a Arábia Saudita ainda possui menos de 10% da sua eletricidade proveniente de fontes renováveis.

A Arábia Saudita conectou à rede o maior sistema de baterias do mundo, com 7,8 GWh distribuídos por três cidades no deserto, antes de ter energia renovável suficiente para justificar o tamanho do reservatório que acabou de construir
Image: China Power

Em 2024, a capacidade instalada de renováveis era de 4,7 GW dentro de um sistema total próximo de 97 GW. Em comparação, países europeus já operam com níveis muito superiores de participação renovável.

Isso significa que o país construiu uma infraestrutura de armazenamento de energia antes de ter geração suficiente para utilizá-la plenamente.

Expansão acelerada de energia renovável: meta de 50% até 2030

A explicação para esse aparente desalinhamento está no ritmo de expansão planejado. Sob o programa Vision 2030, a Arábia Saudita pretende gerar metade da sua eletricidade a partir de fontes renováveis até o final da década.

O país já acelerou sua capacidade instalada e possui dezenas de gigawatts em desenvolvimento, incluindo projetos solares e eólicos em diferentes estágios.

O armazenamento antecipado evita perdas de energia gerada e permite integração eficiente dessas fontes intermitentes.

Meta de armazenamento de energia: 48 GWh até 2030

O sistema de 7,8 GWh não é um ponto final, mas o início de uma estratégia mais ampla. A meta saudita é atingir 48 GWh de armazenamento até 2030, consolidando uma das maiores infraestruturas de baterias do planeta.

Projetos adicionais já estão em andamento, incluindo sistemas de grande escala que ampliam rapidamente a capacidade instalada.

Esse volume coloca o país entre os principais protagonistas globais na transição energética baseada em armazenamento.

China domina tecnologia de armazenamento de energia e fornece equipamentos para o projeto

Um aspecto estratégico do projeto é a origem da tecnologia. A Sungrow, fornecedora do sistema, é uma empresa chinesa que lidera a cadeia global de armazenamento de energia, incluindo produção de baterias, inversores e sistemas de gerenciamento.

A China domina a cadeia de suprimentos do setor, desde a mineração de minerais críticos até a fabricação final dos equipamentos.

O projeto saudita reforça essa dependência tecnológica, comum em projetos de grande escala ao redor do mundo.

O sistema de 7,8 GWh demonstra que projetos de armazenamento em larga escala são tecnicamente viáveis, economicamente executáveis e operacionalmente eficientes.

O uso de resfriamento líquido permitiu operação em temperaturas extremas, superando limitações típicas de baterias de íon-lítio em ambientes desérticos. Além disso, a arquitetura distribuída em três localidades aumenta a resiliência da rede e reduz riscos operacionais.

Arábia Saudita se prepara para um futuro além do petróleo

A construção da maior bateria do mundo não representa abandono do petróleo, mas uma estratégia de diversificação. O país busca reduzir o consumo interno de combustíveis fósseis para geração elétrica, liberando maior volume para exportação.

Ao mesmo tempo, investe em energia solar, eólica e hidrogênio verde, posicionando-se para um cenário energético global em transformação.

O projeto de 7,8 GWh é um marco dessa transição. Ele sinaliza que o armazenamento de energia deixou de ser um experimento tecnológico e passou a ser uma infraestrutura essencial, inclusive em economias historicamente dependentes do petróleo.

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Valdemar Medeiros

Formado em Jornalismo e Marketing, é autor de mais de 20 mil artigos que já alcançaram milhões de leitores no Brasil e no exterior. Já escreveu para marcas e veículos como 99, Natura, O Boticário, CPG – Click Petróleo e Gás, Agência Raccon e outros. Especialista em Indústria Automotiva, Tecnologia, Carreiras (empregabilidade e cursos), Economia e outros temas. Contato e sugestões de pauta: valdemarmedeiros4@gmail.com. Não aceitamos currículos!

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