Estudo aponta que Antártida pode aquecer 1,4x mais rápido, com impacto no gelo, oceanos e ecossistemas do planeta.
Publicado em 22 de dezembro de 2025 na revista científica Geophysical Research Letters e repercutido em março de 2026, um estudo sobre a Antártida trouxe um alerta climático de grande escala: o continente pode aquecer cerca de 1,4 vez mais rápido que a média do Hemisfério Sul sob um cenário de aquecimento global de 2 °C, com efeitos potenciais sobre o gelo, os oceanos e os ecossistemas polares.
A pesquisa, assinada por Zihuan Zhang, Sai Wang, Deliang Chen, Xichen Li, Tingfeng Dou, Cunde Xiao, Wen Chen, Dahe Qin e Minghu Ding, utilizou simulações climáticas do CMIP6 e experimentos do Polar Amplification Model Intercomparison Project para investigar como o sistema oceano-atmosfera ao redor do continente antártico pode reagir nas próximas décadas. O resultado indica que a chamada amplificação antártica tende a emergir de forma mais clara conforme o aquecimento avança, impulsionada principalmente pelo aumento da temperatura da superfície do mar no entorno do continente.
O achado corrige a percepção histórica de que a Antártida permaneceria relativamente isolada das mudanças globais por causa de sua circulação oceânica e atmosférica. Segundo o estudo, o aquecimento dos oceanos ao redor do continente pode intensificar processos termodinâmicos capazes de elevar a temperatura sobre a massa continental, ampliando riscos associados à estabilidade do gelo, ao nível do mar e à vida polar em uma região considerada estratégica para o equilíbrio climático do planeta.
-
O primeiro trilionário da história, Elon Musk, abre o bolso e paga o equivalente a R$ 306 bilhões, ou US$ 60 bilhões, pela startup de programação com inteligência artificial Cursor, em mais uma aposta na IA feita por meio da SpaceX, sua empresa de foguetes
-
O futuro dos computadores pode mudar antes do esperado: Amazon aposta em computação quântica comercial em até sete anos, enquanto qubits, chip Ocelot, IA e simulações científicas entram no centro da nova corrida das big techs
-
O que uma vacina contra Covid-19 tem a ver com infarto e AVC? Estudo com mais de 1 milhão de veteranos revela uma ligação inesperada entre imunização, coração e idosos acima de 75 anos
-
Helicópteros despejam 6.000 troncos em 38 km de rios remotos de Washington para reverter décadas em que biólogos retiravam madeira da água achando que faziam o certo
Oceano ao redor do continente é o principal motor do aquecimento acelerado
Um dos pontos centrais do estudo é o papel do oceano na dinâmica climática da Antártida. Diferente de outras regiões do planeta, onde o aquecimento é dominado pela atmosfera, na Antártida o oceano desempenha um papel decisivo.
A pesquisa mostra que o aumento da temperatura das águas ao redor do continente pode:
- Elevar a transferência de calor para as camadas de gelo
- Acelerar o derretimento de plataformas glaciais
- Alterar padrões de circulação oceânica
Esse mecanismo transforma o oceano em um vetor direto de aquecimento, amplificando os efeitos do clima global sobre o continente.
Degelo pode se intensificar com impacto direto no nível do mar
O aquecimento acelerado tem implicações diretas sobre o gelo antártico. À medida que as águas oceânicas aquecem, ocorre maior derretimento na base das plataformas de gelo, estruturas que funcionam como “barreiras” para o fluxo de geleiras continentais.
Quando essas plataformas se enfraquecem ou colapsam, o gelo do interior do continente pode fluir mais rapidamente para o oceano. Esse processo pode contribuir para a elevação do nível do mar em escala global.
Perda de gelo marinho altera equilíbrio climático e afeta circulação oceânica
Além das geleiras, o gelo marinho também entra em risco. O gelo que se forma sobre o oceano desempenha um papel importante na regulação da temperatura e na reflexão da radiação solar. Com o aquecimento, a redução da cobertura de gelo marinho pode:
- Aumentar a absorção de calor pelo oceano
- Alterar padrões de circulação oceânica
- Influenciar sistemas climáticos em outras partes do planeta
A perda desse gelo cria um efeito de retroalimentação que pode intensificar ainda mais o aquecimento.
Ecossistemas polares entram em zona de vulnerabilidade com mudanças rápidas
O estudo também destaca impactos sobre os ecossistemas da Antártida. A região abriga espécies altamente adaptadas a condições específicas de temperatura e gelo, como krill, pinguins e focas.
Mudanças rápidas no ambiente podem afetar:
- Disponibilidade de alimento
- Áreas de reprodução
- Equilíbrio das cadeias alimentares
Esses impactos podem gerar efeitos em cascata que ultrapassam o ambiente local e afetam sistemas marinhos mais amplos.
Aquecimento polar pode influenciar clima em outras regiões do planeta
Embora a Antártida esteja geograficamente isolada, suas mudanças climáticas têm alcance global. Alterações na circulação oceânica e atmosférica podem influenciar padrões de clima em outras regiões, incluindo a distribuição de chuvas, intensidade de eventos extremos e temperaturas em diferentes continentes.

O continente antártico funciona como uma peça-chave no sistema climático global. Os resultados do estudo reforçam a ideia de que regiões polares podem responder de forma mais sensível ao aumento da temperatura global.
Esse fenômeno, conhecido como amplificação polar, já é observado no Ártico e pode estar ocorrendo também na Antártida.
No caso antártico, o processo é mais complexo devido à influência do oceano, mas os dados indicam uma tendência semelhante. A sensibilidade maior significa que pequenas variações globais podem gerar mudanças mais intensas na região.
Cenários dependem diretamente do nível de emissões nas próximas décadas
A intensidade do aquecimento projetado varia conforme os cenários de emissão de gases de efeito estufa.
Em cenários de altas emissões, o aquecimento tende a ser mais rápido e os impactos mais severos. Em cenários de mitigação, os efeitos ainda ocorrem, mas com menor intensidade. Isso indica que o futuro da Antártida está diretamente ligado às decisões globais sobre emissões.
Diante das projeções, os cientistas reforçam a importância do monitoramento contínuo da Antártida. Isso inclui:
- Observação de temperaturas oceânicas
- Medição da espessura do gelo
- Acompanhamento da cobertura de gelo marinho
Esses dados são fundamentais para entender a evolução do sistema climático e ajustar projeções futuras. O monitoramento permite identificar mudanças antes que seus impactos se tornem irreversíveis.
Diante desse cenário, o que acontece na Antártida pode redefinir o futuro climático global?
O estudo indica que a Antártida pode deixar de ser um sistema relativamente estável para se tornar um dos pontos mais sensíveis do planeta às mudanças climáticas.
Com aquecimento potencialmente mais rápido, impactos no gelo e influência sobre oceanos e atmosfera, o continente assume papel central no futuro climático global.
A questão que surge é direta: se a Antártida começar a responder de forma mais intensa ao aquecimento, até que ponto isso pode acelerar mudanças em todo o planeta nas próximas décadas?


-
-
5 pessoas reagiram a isso.