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Com 5.100 metros de altitude, La Rinconada é o assentamento mais alto do planeta e moradores enfrentam pouco oxigênio, lixo, minas perigosas e crimes enquanto buscam ouro nas montanhas frias

Publicado em 28/11/2025 às 10:15
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La Rinconada, assentamento mais alto do mundo nos Andes peruanos, vive de minas de ouro ilegais, pouco oxigênio e extrema sobrevivência em altura.
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Em La Rinconada, a 5.100 metros nos Andes peruanos, cerca de 50 mil moradores vivem entre lixo, esgoto a céu aberto, minas de ouro ilegais, ar com pouco oxigênio, violência constante, químicos tóxicos e uma rotina exaustiva que reduz expectativa de vida para apenas 35 anos em pleno século vinte.

La Rinconada parece cenário de filme apocalíptico, mas é real e está lotada. No assentamento mais alto do mundo, a 5.100 metros de altitude, as pessoas vivem com apenas cerca de 50% do oxigênio disponível ao nível do mar, cercadas por gelo, lixo e minas que podem matar a qualquer momento, enquanto caçam pequenas partículas de ouro para sobreviver.

Nessa cidade enfiada nos Andes peruanos, nem uma única árvore consegue crescer, o solo está congelado mesmo no verão e boa parte dos moradores vive em barracos de metal sem aquecimento, sem banheiro e sem cozinha. O que atrai tanta gente para esse lugar extremo é um único sonho: encontrar ouro suficiente para fugir dali, embora, para a maioria, a riqueza nunca chegue.

Vida acima das nuvens e no limite do corpo humano

La Rinconada, no Peru é descrita como o lugar habitado mais próximo do céu na Terra. A cidade fica tão alta que está literalmente acima das nuvens, cerca de 300 metros acima do Mont Blanc, o ponto mais elevado dos Alpes europeus.

Nesta altitude, a atmosfera é tão rarefeita que o corpo de quem nasce ou vive ali há anos se adapta de forma radical.

Os moradores locais, segundo os relatos, produzem aproximadamente o dobro de células sanguíneas em comparação com uma pessoa que vive ao nível do mar, numa tentativa de compensar o ar com pouco oxigênio. Já quem chega de fora sofre rápido.

Dor de cabeça, tontura, náusea, tosse, falta de ar e cansaço extremo surgem em poucas horas, e a saturação de oxigênio pode cair para níveis em torno de 65%, muito abaixo dos 95% a 100% considerados normais.

Lixo, esgoto e água contaminada por mercúrio e cianeto

Antes de aparecer o brilho do ouro, vem o cheiro do lixo. La Rinconada está cercada por toneladas de resíduos que se estendem por quilômetros, formando montes e mais montes ao redor da cidade. Diariamente, milhares de pessoas jogam o lixo nas ruas e em áreas que se tornaram lixões improvisados, já que não há serviço público de coleta.

O problema não para aí. Não existe sistema de esgoto estruturado, e os dejetos correm livremente pelas ruas, misturados ao gelo e à lama.

A água que desce das geleiras é captada por mangueiras que serpenteiam as casas, mas chega contaminada por mercúrio e cianeto usados no processamento do ouro. Mesmo assim, famílias plantam e criam animais perto desses cursos d’água, o que ajuda a explicar por que a expectativa média de vida em La Rinconada é de apenas 35 anos.

Frio extremo, casas precárias e uma cidade sempre exausta

Apesar de estar próxima dos trópicos, as temperaturas noturnas chegam a cerca de 10 graus Celsius negativos, e o solo permanece congelado.

As casas são, em grande parte, barracos de metal improvisados, sem isolamento térmico, sem cozinha, sem banheiro e, muitas vezes, sem eletricidade. Apenas algumas ruas têm energia, deixando boa parte da cidade mergulhada na escuridão todas as noites.

Para fazer suas necessidades básicas, milhares de pessoas dependem dos mesmos banheiros e chuveiros públicos, sempre lotados e em condições precárias. O ar seco provoca dor de garganta, lábios rachados e cansaço constante.

Mesmo assim, crianças continuam brincando nas ruas até tarde, como se o corpo tivesse aprendido a conviver com o desconforto permanente. Para aliviar o mal da altitude, muitos recorrem a folhas de coca e chás de ervas como o chamado emoliente, um costume tradicional que promete reduzir dor de cabeça e fadiga.

Ouro, minas ilegais e o sistema brutal do cachorreo

O motor de La Rinconada é o ouro. Todos os dias, trabalhadores caminham quilômetros morro acima para chegar às minas, entrando em túneis cheios de gases perigosos, risco de explosões, desabamentos e envenenamento.

A cidade ganhou o apelido de Paraíso do Diabo porque é dominada por empresas ilegais que controlam as minas com mão de ferro, avisos de tiro para invasores e quase nenhuma proteção real aos trabalhadores.

Dentro dos túneis, a lógica é outra. O conceito de salário fixo praticamente não existe. Muitos mineiros trabalham sob um sistema antigo e ilegal conhecido como cachorreo.

O esquema funciona assim: durante quase todo o mês, eles trabalham para a empresa sem receber nada. Em apenas um dia, podem explorar por conta própria, levando para casa o ouro que encontrarem. Se tiverem sorte, saem com uma boa quantia.

Se der azar, passam um mês inteiro trabalhando de graça. Para tentar driblar o sistema, alguns escondem pedras promissoras para usar no dia reservado ao cachorreo.

Mulheres proibidas na mina e crianças marcadas pelo frio

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A vida em La Rinconada também é atravessada por crenças e desigualdades profundas. Mulheres são proibidas de trabalhar dentro das minas, porque parte da população acredita que a montanha, associada à figura da Bela Adormecida, ficaria com ciúmes e provocaria desastres como terremotos se uma mulher tocasse o ouro.

Assim, muitas delas acabam procurando restos de minério em pedras descartadas, tentando encontrar pequenas partículas que escapam do processo oficial.

As crianças, por sua vez, são facilmente identificadas pelas marcas de congelamento nas bochechas, resultado da exposição diária ao frio intenso. Existe escola, mas pequena e limitada.

Há ensino fundamental e alguma estrutura de ensino médio, porém para cursar níveis mais altos é preciso se mudar para cidades como Puno ou Juliaca. Quem não consegue sair acaba indo cedo para o trabalho nas minas, repetindo o ciclo da família.

Segurança frágil, pouca presença do Estado e violência constante

La Rinconada funciona quase como um território abandonado. A cidade tem apenas uma pequena delegacia, descrita como um calabouço com poucas salas, e quase nenhum esforço consistente do governo peruano para enfrentar o crime e as operações ilegais de mineração.

Não há hospital estruturado, apenas uma clínica muito pequena, com duas a quatro salas. Atendimentos mais complexos exigem deslocamentos longos, o que nem sempre é possível.

Crimes como roubos e esfaqueamentos são relatados como comuns, sobretudo porque muitos moradores carregam o dinheiro e o ouro consigo, já que não existem bancos.

Casas de câmbio têm barras de ferro no balcão para afastar ladrões, e a sensação de insegurança acompanha tanto moradores quanto visitantes.

Em muitos casos, o transporte do minério é apontado como uma das etapas mais perigosas do trabalho, justamente pelo risco de assaltos.

Poluição, lago ácido e o verdadeiro custo do ouro

Por trás de cada joia, há uma conta ambiental pesada. Relatos indicam que um único anel com cerca de 8 gramas de ouro pode gerar aproximadamente 20 toneladas de resíduos na produção.

No topo da montanha, formou-se um lago ácido resultado da mineração, com água avermelhada por causa de rochas ricas em sulfato de ferro que oxidam em contato com o ar e a água.

Para separar o ouro, é usada uma amálgama com mercúrio que, ao ser aquecida com maçarico, libera vapores tóxicos para a atmosfera. Estimativas locais falam em cerca de 2 gramas de mercúrio evaporados para cada grama de ouro obtido, se espalhando pelo ar que os moradores respiram diariamente.

Some isso ao ar rarefeito e à água contaminada, e o resultado é um ambiente que corrói a saúde em silêncio, enquanto o ouro segue viagem para o mercado global.

Corpos adaptados, coração sobrecarregado e uma luta diária por fôlego

Viver em La Rinconada significa, literalmente, respirar menos a cada minuto. Em altitudes acima de 5.000 metros, cada respiração carrega cerca de metade do oxigênio disponível ao nível do mar, o que obriga o corpo a trabalhar em ritmo acelerado para manter órgãos vitais funcionando.

O sangue dos moradores é descrito como duas vezes mais denso que o de uma pessoa comum, o que aumenta o risco de bloqueios nos vasos sanguíneos e problemas cardíacos.

Relatos de saturação em torno de 80% entre moradores adaptados contrastam com níveis próximos de 70% em visitantes, que precisam recorrer constantemente a cilindros de oxigênio para seguir em pé. Mesmo quem vem de cidades altas, como Puno, a 3.800 metros de altitude, sente impacto ao subir para La Rinconada.

Problemas digestivos, dias seguidos de mal estar e cansaço extremo fazem parte do pacote. Ainda assim, milhares insistem em ficar, apostando que o próximo dia de trabalho pode finalmente trazer o ouro que mudará tudo.

Entre sonho de riqueza e realidade brutal nas montanhas de La Rinconada

Os relatos de mineiros experientes mostram que alguns poucos conseguem ganhos acima da média nacional, às vezes arrecadando até 2.000 soles ou mais quando encontram boas pedras de minério. Mas a regra geral é outra.

A renda é irregular, os acidentes nas minas ocorrem muitas vezes mais do que em países desenvolvidos, e a indenização por morte gira em torno de 600 dólares, valor pequeno diante do risco diário de desabamento, explosões e envenenamento por gases.

Enquanto o governo peruano segue discreto diante das atividades ilegais e do abuso de trabalhadores, La Rinconada continua crescendo em meio ao gelo, ao lixo e ao brilho enganoso do ouro.

O resultado é um lugar onde a vida é curta, dura e instável, mas onde a esperança insiste em sobreviver.

Diante de tudo isso, você arriscaria viver em La Rinconada em troca da chance de ficar rico ou acha que nenhum ouro do mundo paga esse tipo de vida?

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Maria Heloisa Barbosa Borges

Falo sobre construção, mineração, minas brasileiras, petróleo e grandes projetos ferroviários e de engenharia civil. Diariamente escrevo sobre curiosidades do mercado brasileiro.

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