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A 3.600 metros sob o gelo, pesquisadores encontram colônias gigantes de esponjas carnívoras “bola da morte” que se alimentam de ossos e sobrevivem abaixo de 0 °C

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Escrito por Valdemar Medeiros Publicado em 16/01/2026 às 18:25
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Esponjas carnívoras do Mar de Weddell se alimentam de ossos, formam colônias profundas e resistem a temperaturas abaixo de 0 °C sob o gelo antártico. Esponja “bola da morte”: Descoberta no Oceano Antártico, em uma fossa oceânica a cerca de 3.600 metros de profundidade.

O fundo do Oceano Antártico sempre foi retratado como um deserto submarino: frio, escuro, pobre em nutrientes e hostil à vida como a conhecemos. No entanto, expedições recentes com veículos operados remotamente revelaram que esse ambiente é muito mais complexo. Em pleno Mar de Weddell, sob kilômetros de gelo e a temperaturas que podem atingir −1,8 °C, cientistas registraram colônias gigantes de esponjas carnívoras e outros invertebrados especializados, capazes de digerir ossos e sobreviver sem recursos comuns como luz solar e alimento abundante.

Esse achado surpreende a comunidade científica não apenas pela singularidade das espécies, mas também pelo que sugere sobre a resiliência da vida em ambientes extremos, um tema que se estende da biologia marinha até a astrobiologia.

Mar de Weddell: o laboratório natural da Antártida

Localizado no setor oeste do continente antártico, o Mar de Weddell é conhecido por abrigar algumas das águas mais frias e claras do planeta. Trata-se de uma região coberta por gelo marinho durante boa parte do ano e marcada pela presença da Plataforma de Gelo Filchner-Ronne, uma estrutura flutuante de gelo que se estende por centenas de quilômetros.

Nessas águas profundas, a luz solar desaparece a poucos metros da superfície. A partir de 200 metros, inicia-se a zona afótica, onde não há fotossíntese. Abaixo de 3.000 metros, o ambiente é dominado por escuridão, pressão extrema, correntes lentas e temperatura próxima ao ponto de congelamento da água salgada.

Durante décadas, acreditou-se que esse tipo de cenário funcionava como um deserto biológico. Mas expedições científicas realizadas por Alemanha, Reino Unido e outras nações nas últimas duas décadas mostraram que o Mar de Weddell abriga uma biodiversidade especializada, incluindo:

  • cnidários
  • equinodermos
  • crustáceos
  • peixes adaptados ao frio
  • esponjas carnívoras
  • colônias filtradoras

A descoberta das esponjas carnívoras adicionou uma camada completamente nova a esse quadro.

Esponjas carnívoras: quem são e como vivem

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Ao contrário da imagem comum de esponjas como organismos filtradores simples, algumas espécies desenvolveram estratégias predatórias e carnívoras. Esses organismos pertencem principalmente à família Cladorhizidae, e foram descritos pela primeira vez no século XIX, mas compreendidos de fato apenas com a chegada de tecnologias de exploração profunda.

As esponjas carnívoras:

  • não possuem sistema digestivo tradicional
  • não filtram fitoplâncton
  • não dependem de fotossíntese
  • usam espículas silicosas como ganchos
  • capturam microcrustáceos e pequenos invertebrados
  • digerem presas por endocitose

O aspecto mais inusitado é sua capacidade de digerir tecido animal, incluindo ossos em alguns cenários específicos, quando colonizam carcaças de animais marinhos que chegam ao fundo, como baleias.

No caso do Mar de Weddell, câmeras instaladas em ROVs registraram esponjas aderidas a estruturas orgânicas e inorgânicas, muitas vezes associadas a fontes discretas de matéria orgânica que descem da superfície.

Como se alimentam de ossos em um ambiente sem luz

A expressão “se alimentam de ossos” pode soar exagerada, mas o fenômeno é documentado. Quando carcaças de grandes animais marinhos afundam, criam um “oasis biológico” no fundo, um processo chamado whale fall em literatura científica.

Nesse contexto, esponjas carnívoras podem se fixar e consumir:

  • restos musculares
  • tecido conjuntivo
  • composições orgânicas presentes nos ossos
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Elas não “roem” ossos no sentido vertebrado, mas extraem nutrientes com auxílio de comunidades microbianas e enzimas. Em ambientes como o Weddell, onde a produtividade superficial é baixa, qualquer fonte de nitrogênio e carbono é valiosa.

A capacidade de processar material orgânico complexo é uma das razões pelas quais essas esponjas conseguem persistir por longos períodos sem alimento, reduzindo metabolismos e crescendo lentamente.

Temperaturas negativas e metabolismo reduzido: a biologia do limite

Uma das perguntas centrais da descoberta foi: como esses organismos sobrevivem a temperaturas tão baixas?

A água marinha pode atingir −1,8 °C sem congelar graças à salinidade. Nesses valores, proteínas e membranas celulares enfrentam desafios sérios. Porém, esponjas carnívoras exibem adaptações como:

  • membranas estabilizadas por lipídios especiais
  • proteínas com resistência ao frio
  • metabolismo extremamente lento
  • formas modulares de crescimento

O metabolismo lento, em especial, é uma vantagem. Ao contrário de peixes e mamíferos, que precisam de oxigênio e alimento constantes, esponjas carnívoras gastam pouca energia, podendo sobreviver com capturas esporádicas.

Esse tipo de estratégia evolutiva é recorrente em ambientes antárticos, sendo observada também em:

  • equinodermos de águas profundas
  • bactérias de fontes frias
  • anelídeos adaptados ao gelo

ROVs e submersíveis: a tecnologia que tornou o invisível visível

Nenhuma dessas descobertas teria sido possível sem robôs submarinos e submersíveis tripulados. Como o Mar de Weddell é coberto por gelo e sujeito a condições climáticas extremas, o uso de ROVs (Remotely Operated Vehicles) é essencial.

Esses veículos:

  • descem até 5.000 metros
  • usam braços manipuladores
  • iluminam o ambiente com LEDs de alta intensidade
  • registram vídeos em 4K
  • coletam amostras biológicas
  • mapeiam o fundo com sonares

Foi graças a expedições desse tipo que cientistas observaram colônias inteiras, e não apenas indivíduos isolados. Isso mudou o paradigma: onde se esperava escassez, encontrou-se estrutura ecológica organizada.

Alguns registros mostraram esponjas crescendo sobre estruturas geológicas e orgânicas, acompanhadas de:

  • anfípodes
  • poliquetas
  • equinodermos
  • microorganismos simbióticos

Ou seja: existe uma cadeia alimentar funcional, mesmo em ambientes extremos.

Por que essa descoberta importa para além da Antártida

O interesse científico vai muito além da biologia das esponjas. Ele abrange:

Ecologia dos extremos:
Esses organismos demonstram que a vida não depende de luz solar, reforçando o papel de cadeias alimentares baseadas em quimiossíntese.

Criobiologia:
Temperaturas negativas forçam adaptações moleculares que podem inspirar estudos em criogênica, biomateriais e preservação celular.

Astrobiologia:
Ambientes como o Weddell são frequentemente comparados a possíveis habitats em Europa (lua de Júpiter) e Encélado (lua de Saturno), onde oceanos subterrâneos podem existir sob camadas de gelo.

Mudanças climáticas:
O Mar de Weddell é um dos locais mais sensíveis ao derretimento de plataformas de gelo, o que pode alterar toda a estrutura desses ecossistemas.

As colônias gigantes de esponjas carnívoras do Mar de Weddell lembram que a vida não precisa de conforto para florescer, apenas de possibilidades. Em um fundo escuro, silencioso e gelado, onde a maioria imaginaria ausência, surgem comunidades complexas que digerem ossos, resistem ao frio e constroem nichos ecológicos completos sob quilômetros de gelo.

Se ambientes tão extremos abrigam tanta diversidade, é legítimo perguntar: o que mais existe nos 80% do oceano que ainda não exploramos?

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brian
brian
23/01/2026 23:17

3.600 m is about 12ft. you mean 3600 m

Valdemar Medeiros

Formado em Jornalismo e Marketing, é autor de mais de 20 mil artigos que já alcançaram milhões de leitores no Brasil e no exterior. Já escreveu para marcas e veículos como 99, Natura, O Boticário, CPG – Click Petróleo e Gás, Agência Raccon e outros. Especialista em Indústria Automotiva, Tecnologia, Carreiras (empregabilidade e cursos), Economia e outros temas. Contato e sugestões de pauta: valdemarmedeiros4@gmail.com. Não aceitamos currículos!

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