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95% das pessoas carregam um vírus ligado ao câncer e à esclerose múltipla, e cientistas podem ter encontrado finalmente como bloqueá-lo usando anticorpos de camundongos com DNA humano

Escrito por Noel Budeguer
Publicado em 03/05/2026 às 12:03
Atualizado em 03/05/2026 às 12:20
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Faz menos de um mês que o EBV voltou ao centro das atenções: quase invisível no corpo, ele pode permanecer por anos sem sinais claros. Agora, uma nova estratégia com anticorpos criados em laboratório mira a entrada do vírus nas células e reacende o debate sobre prevenção de doenças graves.

O vírus EBV infecta cerca de 95% da população mundial e costuma permanecer escondido no organismo depois do primeiro contato. Em muitos casos, ele passa despercebido, mas também pode estar ligado a doenças graves quando encontra brechas no sistema de defesa.

A nova etapa da pesquisa chama atenção porque mira o vírus antes que ele consiga entrar nas células. Cientistas usaram camundongos com genes humanos ligados à produção de anticorpos para criar moléculas capazes de reconhecer pontos específicos do EBV.

O resultado ainda não representa cura nem tratamento disponível em hospitais. Mesmo assim, o avanço abre uma rota concreta para futuras terapias preventivas, especialmente em pessoas com maior risco de complicações.

Vírus EBV atinge 95% da população mundial e pode ficar silencioso por anos

O EBV pertence à família dos herpesvírus e pode permanecer no corpo por toda a vida. Depois da infecção inicial, ele costuma entrar em estado latente, uma espécie de modo silencioso em que não causa sintomas evidentes na maior parte das pessoas.

Em adolescentes e adultos jovens, o vírus pode causar mononucleose, doença conhecida por provocar febre, cansaço intenso e aumento dos gânglios. Na maioria dos casos, o corpo controla a infecção, mas o vírus não desaparece completamente.

A preocupação cresce porque o EBV está associado a linfomas, câncer de estômago e outros tumores. Também há forte relação entre a infecção pelo vírus e a esclerose múltipla, doença que afeta o sistema nervoso e pode causar perda de força, fadiga e alterações de movimento.

Camundongos com genes humanos ajudaram a criar anticorpos mais próximos dos usados em terapias

A estratégia envolveu camundongos modificados para carregar genes humanos ligados à produção de anticorpos. Isso não significa que os animais tenham DNA humano completo, mas que receberam partes específicas capazes de orientar a criação de anticorpos com características humanas.

Esse detalhe é importante porque anticorpos muito diferentes dos humanos podem gerar rejeição ou menor eficácia em tratamentos. Ao usar esse modelo, os pesquisadores buscaram moléculas com maior potencial para uso futuro em pessoas.

Os anticorpos criados miram proteínas da superfície do EBV. Essas proteínas funcionam como chaves usadas pelo vírus para se aproximar das células e iniciar a infecção. Bloquear essas chaves pode impedir que o vírus consiga avançar.

Segundo ScienceDaily, portal norte americano de notícias sobre descobertas científicas, o avanço publicado em 15 de abril de 2026 destacou anticorpos capazes de atingir duas proteínas do EBV, chamadas gp350 e gp42.

A proteína gp350 ajuda o vírus a se prender à célula. Já a gp42 participa de uma etapa decisiva para a entrada do EBV nas células B, que fazem parte do sistema imunológico e podem servir como esconderijo para o vírus.

Nos testes, o anticorpo voltado contra a gp42 impediu completamente a infecção em camundongos humanizados expostos ao EBV. Outro anticorpo, direcionado à gp350, apresentou proteção parcial, o que mostra que nem todos os alvos têm o mesmo peso na defesa contra o vírus.

Bloquear a entrada do vírus pode proteger pacientes transplantados e pessoas imunossuprimidas

O impacto mais imediato pode aparecer entre pacientes que receberam transplantes ou vivem com imunidade comprometida. Nesses casos, o corpo pode ter mais dificuldade para controlar o EBV, o que aumenta o risco de reativação viral e complicações graves.

Uma das ameaças é o crescimento descontrolado de células de defesa infectadas. Em linguagem simples, esse processo pode levar a doenças linfoproliferativas, que são alterações perigosas no aumento de células do sistema imune e podem evoluir para formas de linfoma.

A possibilidade de usar anticorpos prontos como proteção preventiva interessa justamente porque a ação seria rápida. Em vez de esperar o organismo produzir defesa, a pessoa receberia moléculas já preparadas para reconhecer e bloquear o vírus.

Pesquisa ainda está em fase anterior aos testes em humanos e exige cautela

Apesar do resultado promissor, o estudo ainda está em fase anterior aos testes em humanos. Isso significa que a proteção observada em camundongos humanizados precisa ser confirmada em pessoas, com avaliação rigorosa de segurança, dose e duração do efeito.

Também não há prova de que esses anticorpos já possam prevenir câncer ou esclerose múltipla em humanos. A ligação entre EBV e essas doenças é relevante, mas transformar bloqueio viral em prevenção clínica exige novos estudos.

A etapa seguinte deve envolver testes iniciais de segurança em voluntários e depois pesquisas com grupos de maior risco. Só depois será possível medir se a estratégia realmente reduz infecções, reativações ou complicações associadas ao vírus.

Anticorpos contra EBV não substituem vacinas, mas podem criar nova frente de proteção

A abordagem dos anticorpos funciona como proteção passiva. O corpo recebe a defesa pronta, o que pode ser útil em situações de risco imediato ou quando a pessoa não consegue responder bem a uma vacina.

Já as vacinas buscam treinar o sistema imune para produzir sua própria proteção. As duas estratégias podem ser complementares no futuro, principalmente se o EBV continuar sendo confirmado como peça importante em diferentes doenças.

O avanço reforça uma mudança de foco: sair apenas do tratamento das complicações e tentar impedir o vírus em uma etapa inicial. Essa lógica pode alterar a prevenção em pacientes vulneráveis e abrir espaço para novas terapias contra doenças ligadas ao EBV.

Ainda existe um caminho longo até qualquer aplicação médica ampla. Mesmo assim, o bloqueio da entrada do vírus nas células coloca a pesquisa em um ponto estratégico, com potencial para mudar a leitura sobre câncer, imunidade e esclerose múltipla.

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Noel Budeguer

Sou jornalista argentino baseado no Rio de Janeiro, com foco em energia e geopolítica, além de tecnologia e assuntos militares. Produzo análises e reportagens com linguagem acessível, dados, contexto e visão estratégica sobre os movimentos que impactam o Brasil e o mundo. 📩 Contato: noelbudeguer@gmail.com

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