Expedição de 38 dias da Conservation International registrou mais de 2.000 espécies em Alto Mayo, no noroeste do Peru, e confirmou 27 completamente novas para a ciência, com até 48 outras pendentes de análise genética
Ninguém esperava encontrar tanta vida escondida num lugar onde vivem 280 mil pessoas. Uma expedição científica de 38 dias, liderada pela Conservation International, percorreu a paisagem de Alto Mayo, no noroeste do Peru — uma região de transição entre os Andes e a Amazônia — e registrou mais de 2.000 espécies de plantas e animais. Dessas, 27 novas espécies nunca haviam sido documentadas pela ciência, incluindo um peixe com a cabeça inteiramente transparente em formato de bolha e um rato semi-aquático com patas palmadas que nada como se fosse anfíbio.
Conforme relatou a CNN Brasil, a expedição ocorreu entre junho e julho de 2022, mas os resultados só foram publicados oficialmente em dezembro de 2024, num relatório de 474 páginas. A divulgação ampla em 2026 chamou atenção de veículos como The Guardian, BBC News e Smithsonian Magazine.

O peixe com cabeça de bolha e as criaturas mais bizarras da lista
Entre as 27 novas espécies confirmadas, a composição surpreende pela variedade:
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- 8 a 10 peixes — incluindo o bagre com cabeça globular transparente e olhos proeminentes
- 10 borboletas — com padrões de asas nunca registrados
- 4 mamíferos — entre eles o rato anfíbio semi-aquático com patas palmadas
- 3 anfíbios — em habitats de floresta nublada
O rato anfíbio foi classificado como um dos roedores mais raros do mundo. Alimenta-se de insetos aquáticos e apresenta adaptações que nenhum outro mamífero da região possui. Além disso, a expedição identificou primatas criticamente ameaçados, como o macaco de rabo amarelo peruano e o titi de San Martin, ambos endêmicos da região.
“Ficamos muito surpresos ao encontrar uma biodiversidade tão alta em uma paisagem com tanta influência humana”, disse Trond Larsen, diretor do Programa de Avaliação Rápida (RAP) da Conservation International e líder da expedição.

Armadilhas fotográficas e DNA de rio: como a ciência encontrou o invisível
A equipe utilizou tecnologias que transformaram a forma de estudar biodiversidade em campo. Sensores bioacústicos gravaram sons de animais noturnos. Armadilhas fotográficas registraram espécies que jamais se deixariam observar de dia. E amostras de DNA ambiental (eDNA) coletadas diretamente dos rios revelaram a presença de peixes que a coleta tradicional nunca teria encontrado.
Dessa forma, a expedição conseguiu catalogar mais de 2.000 espécies em apenas 38 dias — um número que normalmente levaria anos de pesquisa convencional. O relatório final, com 474 páginas, foi publicado pela Conservation International como documento oficial da descoberta.
Expedições semelhantes em outras partes do mundo também revelaram surpresas extraordinárias. No Pacífico, uma expedição de 28 dias encontrou uma montanha submarina de 3.109 metros com mais de 100 espécies nunca registradas. No Japão, pesquisadores descobriram um raro “castelo de vidro” habitado por espécies desconhecidas a quase 5.000 metros de profundidade.

Biodiversidade cercada: o que ameaça as novas espécies do Peru
Alto Mayo reúne 1,9 milhão de hectares de florestas e áreas agrícolas. A região abriga 280 mil pessoas em cidades, vilas e comunidades indígenas — e enfrenta desmatamento intenso, expansão agrícola e conversão de terras. Ao menos 49 espécies encontradas pela expedição constam na Lista Vermelha da IUCN, indicando risco real de extinção.
“Há muita agricultura e conversão de terras na área. Apesar disso, essa equipe ainda conseguiu documentar novas espécies, o que é empolgante”, destacou Reynaldo Linares-Palomino, biólogo tropical do Smithsonian’s National Zoo and Conservation Biology Institute, conforme publicou a Smithsonian Magazine.
Contudo, os pesquisadores alertam que pelo menos 34 espécies parecem ser endêmicas — ou seja, existem somente em Alto Mayo e na região de San Martin. Se o habitat continuar encolhendo, essas espécies podem desaparecer antes mesmo de serem estudadas. Além disso, até 48 espécies adicionais aguardam confirmação por estudos genéticos, o que significa que o número real de descobertas pode quase dobrar.
Algumas das espécies listadas como “novas para a ciência” já eram conhecidas por comunidades indígenas locais, que as identificavam por nomes próprios há gerações — embora nunca tivessem recebido classificação científica formal. Por isso, a colaboração com essas comunidades foi essencial para o sucesso da expedição e continuará sendo fundamental para qualquer esforço de conservação na região.
