Em Yakutsk, na Rússia, prédios são construídos sobre estacas profundas para não aquecer o solo; o permafrost nunca descongela e toda a engenharia urbana depende de fundações elevadas.
Em muitas cidades do mundo, o desafio da construção está no tipo de solo, na presença de água ou na atividade sísmica. Aqui, o problema é ainda mais básico: o chão não pode aquecer. Qualquer aumento de temperatura no solo pode causar deformações irreversíveis, comprometendo fundações inteiras.
Essa cidade foi erguida sobre permafrost permanente, um tipo de solo congelado de forma contínua há milhares de anos. Se esse solo descongela, ele perde resistência, se torna instável e pode causar o colapso de edifícios inteiros.
O local: Yakutsk, a maior cidade construída sobre permafrost contínuo
A cidade é Yakutsk, capital da República de Sakha (Yakútia), no extremo leste da Rússia. É considerada a maior cidade do mundo construída inteiramente sobre permafrost contínuo, com população superior a 300 mil habitantes.
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Durante o inverno, as temperaturas frequentemente caem abaixo de −40 °C, e o solo permanece congelado o ano inteiro, inclusive no verão, quando apenas uma camada superficial de poucos centímetros pode amolecer.
Por que fundações tradicionais não funcionam
Em solos convencionais, edifícios são apoiados em sapatas, blocos ou lajes de fundação. Em Yakutsk, isso seria um erro grave. O calor transmitido por um prédio diretamente ao solo faria o permafrost derreter localmente, criando afundamentos desiguais e falhas estruturais.
Além disso, o solo descongelado passa a se comportar como lama saturada, incapaz de suportar cargas elevadas de forma estável.
A solução: prédios suspensos sobre estacas profundas
A engenharia local adotou um sistema radical e obrigatório: todos os edifícios são construídos sobre estacas profundas, cravadas no solo congelado. Essas estacas atravessam a camada superficial mais instável e se fixam em camadas profundas de permafrost sólido.
O edifício não toca o solo. Entre a base da construção e o chão existe um vão livre, que permite a circulação de ar frio durante todo o ano, evitando o aquecimento do solo congelado.
Ventilação permanente como elemento estrutural
Esse espaço vazio sob os prédios não é estético nem opcional. Ele faz parte da estratégia estrutural. A ventilação natural mantém o permafrost frio e estável, impedindo a transferência de calor do edifício para o solo.
Se esse fluxo de ar for bloqueado — por acúmulo de neve, lixo ou intervenções indevidas — o risco estrutural aumenta significativamente.
Estacas, aço e concreto pensados para frio extremo
As estacas usadas em Yakutsk são projetadas para suportar não apenas grandes cargas, mas também variações térmicas extremas. O concreto precisa resistir a ciclos intensos de congelamento e descongelamento, enquanto o aço deve manter ductilidade mesmo em temperaturas muito baixas.
Além disso, a cravação das estacas exige planejamento específico, pois o solo congelado é extremamente duro, exigindo equipamentos e técnicas adaptadas.
Infraestrutura urbana elevada do chão
Não são apenas os prédios. Tubulações, redes de água, esgoto e aquecimento também não podem ser enterradas como em cidades comuns. Muitas dessas redes são instaladas acima do solo, em galerias elevadas ou estruturas protegidas termicamente.
Enterrar tubulações significaria aquecer o permafrost e causar instabilidade no solo ao redor.
Estradas e calçadas também enfrentam o permafrost
A pavimentação urbana é outro desafio. Estradas sofrem com deformações causadas por pequenos movimentos do solo congelado. Por isso, a manutenção viária é constante, e projetos de ruas levam em conta a dilatação térmica e o comportamento sazonal do permafrost.
Calçadas, rampas e acessos precisam ser flexíveis o suficiente para absorver variações sem trincar.
Quando a engenharia depende do frio
Diferente de outras cidades, onde o frio é um problema, em Yakutsk o frio é parte da solução. O congelamento do solo é essencial para a estabilidade urbana. Qualquer aquecimento excessivo representa risco.
Por isso, mudanças climáticas e elevação gradual das temperaturas médias são observadas com preocupação. O derretimento do permafrost pode comprometer décadas de engenharia urbana.
Uma cidade que só existe porque a engenharia respeitou o solo
Yakutsk não tenta dominar o ambiente — ela se adapta a ele. A cidade existe porque engenheiros aceitaram que o solo não podia ser tratado como terra comum e desenvolveram um modelo construtivo específico, repetido em milhares de edifícios. É um exemplo extremo de como a construção civil precisa se moldar às condições naturais, e não o contrário.
Yakutsk representa um dos limites mais claros da engenharia urbana no planeta. Cada prédio elevado, cada estaca cravada no permafrost, é um lembrete de que a cidade só permanece de pé porque o frio continua existindo. Ali, a construção civil não luta contra a natureza. Ela depende dela.


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