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Do lixo da lavoura a 50 mil toneladas de biochar por ano, cientistas chineses criam tecnologia verde que vira adubo, armazena energia e agora aponta para o querosene de avião

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Escrito por Maria Heloisa Barbosa Borges Publicado em 08/07/2026 às 19:33
Tecnologia verde da China transforma resíduos agrícolas em biochar: vira adubo, turbina o armazenamento de energia e aponta para o querosene de avião.
Tecnologia verde da China transforma resíduos agrícolas em biochar: vira adubo, turbina o armazenamento de energia e aponta para o querosene de avião.
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Levou mais de uma década de trabalho para transformar o que sobra da lavoura em uma das apostas mais ambiciosas da tecnologia verde da China. No Institute of Environment do Hefei Comprehensive National Science Center, na cidade de Hefei, província de Anhui, no leste do país, a equipe liderada por Xing Xianjun, professor da Hefei University of Technology, desenvolveu um processo que converte palha, cavacos de madeira e lodo em biochar de alto valor, capaz de virar adubo, alimentar o armazenamento de energia e agora mirar o querosene de avião.

Segundo o China Daily, noticiou-se em 8 de julho de 2026 (08/07/2026) que o braço voltado ao combustível verde de aviação avança rapidamente na cidade de Bozhou, também na província de Anhui. Segundo o Science and Technology Daily, o coração da invenção é um processo catalítico seco de uma única etapa que resolve de uma vez os quatro problemas que sempre travaram a produção de biochar: baixo rendimento, baixa qualidade, alto consumo de energia e poluição.

A tecnologia elevou a taxa de conversão de carbono para cerca de 60%, ante os aproximadamente 35% do método tradicional, faz a carbonização de resíduos agrícolas e florestais em apenas 30 minutos e opera com emissões que a equipe descreve como quase zero. Uma única unidade de carbonização chega a uma capacidade de mais de 50 mil toneladas por ano, um número que se refere ao que um equipamento consegue processar, e não à produção do país inteiro.

Uma década de tentativas até o primeiro pó preto sair do forno

A história dessa tecnologia verde começou muito antes de qualquer forno industrial. Em 2011, depois de repetidas tentativas, a equipe de Xing Xianjun conseguiu produzir os primeiros 500 gramas de biochar em laboratório, uma quantia minúscula que provou uma coisa grande: a ideia funcionava. Era o sinal que faltava para insistir no caminho.

Dois anos depois, em 2013, o grupo chegou à produção em pequena escala. O salto decisivo veio em 2019, quando entrou em operação um forno capaz de processar 100 toneladas de resíduos agrícolas por dia. Cada etapa exigiu vencer os gargalos que faziam o método antigo desperdiçar matéria-prima e gastar energia demais.

A palavra que resume a virada é “seco”. O processo catalítico seco de uma única etapa dispensa a água e as várias fases caras e poluentes dos métodos convencionais. Em vez de um vaivém de reações, uma só transformação converte palha, cavacos de madeira e lodo em biochar. Foi assim que a equipe atacou, de uma vez, o rendimento baixo e o consumo alto de energia que sempre atrapalharam esse tipo de produção.

Afinal, o que é biochar e por que esse pó preto vale tanto?

Pedaços e grânulos de biochar (carvão feito de biomassa). (Imagem ilustrativa)
Pedaços e grânulos de biochar (carvão feito de biomassa). (Imagem ilustrativa)

Quem nunca ouviu o termo pode imaginar apenas carvão de churrasco, mas o biochar é outra coisa. Trata-se de um carvão vegetal produzido pela decomposição térmica de biomassa em um ambiente com pouco ou nenhum oxigênio, um processo que concentra o carbono numa estrutura porosa e muito estável. Esse pó preto tem uma superfície interna enorme, que segura água, nutrientes e micro-organismos.

É essa versatilidade que faz esse pó preto valer tanto. O mesmo material serve para melhorar o solo, para guardar energia e, na fronteira mais nova da pesquisa, para virar insumo de combustível de aviação. Transformar resíduos agrícolas baratos e abundantes em um produto com tantos usos é o que coloca a tecnologia verde da China à frente nessa disputa. Não é lixo virando lixo tratado, é lixo virando matéria-prima cobiçada.

Um forno, mais de 50 mil toneladas por ano e emissões quase zero

O número que mais impressiona é a capacidade. Uma única unidade de carbonização consegue processar mais de 50 mil toneladas por ano, e vale insistir num ponto para não haver confusão: essa marca é a capacidade de um equipamento, não a produção de toda a China. Ainda assim, para um processo que começou com 500 gramas em laboratório, chegar a esse porte é um salto notável.

O ganho de eficiência aparece na taxa de conversão de carbono, que subiu para cerca de 60%, contra os aproximadamente 35% do método tradicional. Na prática, quase o dobro do carbono presente nos resíduos agrícolas termina preso no material, em vez de escapar como fumaça e calor perdido. Menos desperdício significa mais produto útil a cada tonelada de palha que entra no forno.

Há ainda a variável do tempo e do ar. A carbonização leva apenas 30 minutos, um ritmo industrial, e acontece com emissões quase zero. Para uma tecnologia que nasce justamente da promessa de limpar a bagunça ambiental, poluir pouco durante o próprio processo não é um detalhe, é parte central do argumento.

Do resíduo agrícola ao querosene de avião sustentável (SAF)

Palha e resíduo agrícola espalhados em uma lavoura já colhida. (Imagem ilustrativa)
Palha e resíduo agrícola espalhados em uma lavoura já colhida. (Imagem ilustrativa)

O braço mais novo e mais comentado dessa pesquisa mira o céu. A partir do mesmo biochar e da mesma linha de pesquisa, a equipe trabalha para chegar ao querosene de avião sustentável, o chamado SAF, um combustível verde de aviação que promete reduzir a pegada de carbono dos voos. Esse projeto avança rapidamente na cidade de Bozhou, também na província de Anhui.

Aqui é preciso ler com cuidado, sem atropelar os fatos. O combustível ligado a esse trabalho ainda está em fase de desenvolvimento, e não em produção comercial em larga escala. O título aponta para esse destino porque é para lá que a tecnologia caminha, não porque as aeronaves já estejam decolando com o combustível no tanque.

Mesmo assim, o simples fato de conectar resíduos agrícolas ao querosene de avião sustentável explica o tamanho do entusiasmo. A aviação é um dos setores mais difíceis de descarbonizar, e cada rota nova de SAF conta. Se a promessa de Bozhou vingar, palha e sobra de madeira poderão terminar como combustível de aeronaves, algo que soaria improvável poucos anos atrás.

Biochar no solo: mais colheita, água retida e carbono preso na terra

O uso mais antigo e mais consolidado do biochar está no campo. Misturado à terra, ele age como um condicionador de solo que aumenta o rendimento das lavouras, melhora a retenção de nutrientes e de água e ajuda as plantas a atravessar períodos de estiagem. Em solos pobres ou já degradados, o efeito costuma ser ainda mais evidente.

A porosidade explica boa parte da mágica. Aqueles milhões de poros microscópicos funcionam como esponja e como abrigo: seguram a umidade perto das raízes e criam casa para os micro-organismos que deixam o solo vivo. O resultado é menos adubo desperdiçado e menos água jogada fora.

Existe um bônus climático nessa aplicação. Como o carbono capturado da biomassa fica estável dentro do biochar, enterrá-lo na lavoura é uma forma de captura de carbono de longa duração, tirando gás carbônico da atmosfera por décadas ou até séculos. Assim, o mesmo pó preto que nasce de resíduos agrícolas devolve fertilidade à terra e ainda presta um serviço ao clima. É um dos motivos pelos quais essa tecnologia verde ganhou tração tão rápido.

Biochar nas baterias: o elo inesperado com o armazenamento de energia

Poucos imaginam que o mesmo material do adubo possa terminar dentro de uma bateria, mas é aí que entra o segundo destino. O biochar de alta qualidade serve de base para materiais de grafite e para o ânodo, o eletrodo negativo das baterias de lítio. Ou seja, ele vai parar no coração do armazenamento de energia que move celulares, notebooks e carros elétricos.

Produzir esses componentes a partir de resíduos agrícolas, e não apenas de grafite mineral extraído a alto custo ambiental, muda a lógica da cadeia. O armazenamento de energia é hoje um dos maiores gargalos da transição energética, e qualquer caminho mais barato e mais limpo para fabricar eletrodos tem peso estratégico.

Ao colocar esse material nessa cadeia, a tecnologia verde da China amarra a lavoura ao futuro do armazenamento de energia de um jeito que quase ninguém tinha previsto. A palha que ontem virava fumaça no canto do terreno pode, amanhã, guardar a eletricidade que acende as cidades. É esse tipo de conexão que faz o setor entrar de vez na conversa sobre o destino dos resíduos do campo.

Por que o “primeiro dispositivo do mundo” ainda pede cautela?

O entusiasmo vem acompanhado de uma afirmação e tanto. Segundo Xing, este é o primeiro dispositivo do mundo a produzir biochar por conversão catalítica de biomassa, um pioneirismo que, se confirmado, coloca a China na dianteira dessa corrida. Convém tratar a frase pelo que ela é: a avaliação do próprio pesquisador que liderou o projeto, e não um veredito verificado de forma independente.

A mesma calma vale para os números. A capacidade de 50 mil toneladas por ano é de uma unidade, o combustível de aviação está em desenvolvimento e o título de pioneiro é uma declaração de quem construiu o equipamento. Nada disso apaga o feito, mas ajuda a ler tudo com os pés no chão.

Vale lembrar que boa parte das promessas de tecnologia verde tropeça justamente na distância entre o laboratório e a escala industrial. O que já está comprovado e rodando, como o uso no solo e no armazenamento de energia, sustenta o otimismo. O que ainda é projeto, como o combustível de aviação, merece acompanhamento e um pouco de paciência antes de virar manchete de produção comercial.

O que o biochar chinês tem a ver com o Brasil?

Para o Brasil, essa história soa muito familiar. O país é um gigante em resíduos agrícolas, com montanhas de bagaço e palha de cana que sobram todos os anos das usinas de açúcar e etanol, exatamente o tipo de matéria-prima que a tecnologia chinesa transforma em biochar. Sobra biomassa de qualidade, e sobram lavouras que poderiam receber esse condicionador de solo de volta.

O elo com o querosene de avião sustentável é ainda mais direto. O Brasil tem a Lei do Combustível do Futuro, que criou o ProBioQAV e prevê uma mistura de SAF crescente na aviação, saindo de 1% em 2027 e chegando a 10% em 2037. Já existe SAF sendo produzido em solo brasileiro, como em Salvador, num projeto ligado à Petrobras, e há um acordo entre Brasil e China voltado justamente ao combustível verde de aviação.

Juntando as pontas, o Brasil tem o resíduo, tem a lei e tem a demanda. Uma tecnologia verde capaz de converter resíduos agrícolas em biochar, adubar o solo, abastecer o armazenamento de energia e ainda apontar para o querosene de avião sustentável cai como uma luva num país que planta cana em escala continental. Nada disso significa que a solução chinesa vai desembarcar amanhã por aqui. É contexto, não anúncio, mas o encaixe é grande demais para ser ignorado.

E o próximo capítulo dessa corrida verde?

E você, já tinha parado para pensar que a palha jogada fora na lavoura pode terminar como adubo, como bateria ou dentro do tanque de um avião? É essa a promessa que tira o biochar do nicho técnico e o joga no centro da conversa sobre o futuro da energia. A tecnologia verde da China mostra que resíduos agrícolas valem muito mais do que aparentam, desde que exista o processo certo para extrair esse valor.

O caminho até o querosene de avião sustentável ainda é longo, e vale acompanhar cada passo com curiosidade e ceticismo na mesma dose.

Mas a direção está dada, e tanto o solo quanto o armazenamento de energia já colhem resultados concretos hoje. Agora fica a pergunta que a gente quer levar para os comentários: você confiaria mais no biochar como adubo, como peça do armazenamento de energia ou como matéria-prima do combustível dos aviões?

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Maria Heloisa Barbosa Borges

Falo sobre construção, mineração, minas brasileiras, petróleo e grandes projetos ferroviários e de engenharia civil. Diariamente escrevo sobre curiosidades do mercado brasileiro.

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