Impacto de programas sociais ganha novo destaque com dados do IBGE e simulações que revelam salto expressivo da pobreza sem transferências de renda.
Em meio ao debate sobre a necessidade de programas como o Bolsa Família e outros benefícios sociais, novos dados do IBGE mostram que o impacto dessas políticas sobre a pobreza é amplo e mensurável.
Cálculos da publicação Síntese de Indicadores Sociais 2025, com base em dados de 2024, indicam que, sem as transferências de renda e benefícios previdenciários, a pobreza e a extrema pobreza no país – especialmente entre os idosos – seriam muito mais altas.
Segundo o estudo, na ausência de programas de transferência de renda, a proporção de pessoas em extrema pobreza no Brasil teria crescido de 3,5% para 10,0% da população em 2024.
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A taxa de pobreza passaria de 23,1% para 28,7% no mesmo período.
Esses números resultam de simulações feitas pelo instituto para estimar o que ocorreria se benefícios como o Bolsa Família e o Benefício de Prestação Continuada (BPC) fossem retirados da estrutura de proteção social.
Programas sociais e redução da extrema pobreza
O IBGE analisou o peso das políticas de transferência de renda sobre o orçamento das famílias e sobre os indicadores de bem-estar.
De acordo com a Síntese de Indicadores Sociais, a existência de programas como o Bolsa Família impede que a extrema pobreza atinja um patamar três vezes maior do que o observado.
Na prática, a pesquisa calcula dois cenários: o que de fato ocorreu em 2024 e um cenário hipotético em que essas políticas não existiriam.
Nesse exercício, o instituto considera como extrema pobreza a condição das pessoas que vivem com renda diária abaixo da linha usada em suas estatísticas oficiais.

A pobreza abrange um grupo mais amplo, com renda um pouco superior, mas ainda insuficiente para garantir um padrão de vida adequado.
Em ambos os casos, o efeito das transferências de renda é descrito como decisivo para reduzir o contingente de pessoas em situação de vulnerabilidade.
Além dos programas estritamente assistenciais, as aposentadorias, pensões e outros benefícios da seguridade social também entram nessa conta.
O conjunto dessas políticas compõe a rede de proteção de renda que o IBGE incorpora às simulações, permitindo estimar como seria o quadro caso esses mecanismos não existissem ou fossem significativamente reduzidos.
Desigualdade de renda e o menor Gini da série
A Síntese de Indicadores Sociais também atualizou o Índice de Gini, indicador que mede a desigualdade de renda.
O índice ficou em 0,504, o menor da série histórica iniciada em 2012.
No ano anterior, 2023, o Gini era de 0,517.
O estudo mostra ainda como ficaria esse indicador se não houvesse programas de transferência de renda.
Nesse cenário simulado, o Índice de Gini subiria para 0,542, sinalizando maior concentração de renda e aumento da desigualdade.
A diferença entre o Gini observado e o Gini simulado sem programas sociais é utilizada pelo instituto como evidência estatística do papel redistributivo dessas políticas.
Embora o desempenho recente reflita fatores como o aquecimento do mercado de trabalho e a recuperação da renda do trabalho, o IBGE aponta que a manutenção das políticas de transferência ajudou a consolidar a queda da desigualdade em 2024.
Renda dos idosos e dependência de benefícios
Entre todos os grupos analisados, a população idosa aparece como uma das mais dependentes da rede de proteção social.
A pesquisa destaca a importância de benefícios previdenciários e assistenciais, como aposentadorias, pensões e o BPC, para evitar um aumento expressivo da pobreza em faixas etárias mais avançadas.
Nas simulações do IBGE, se as pessoas com 60 anos ou mais não tivessem acesso a essas fontes de renda, a extrema pobreza entre os idosos passaria de 1,9% para 35,4%.
A proporção de idosos em situação de pobreza subiria de 8,3% para 52,3%.
Essa diferença entre o cenário real e o cenário simulado está diretamente ligada à ampla cobertura de aposentadorias, pensões e do próprio BPC entre os idosos.
Na prática, esses recursos funcionam como a principal fonte de renda em milhões de lares, sobretudo naqueles em que parte da família está desempregada, trabalha na informalidade ou tem remuneração muito baixa.
Papel do Bolsa Família e do BPC na proteção de renda

O Bolsa Família é o principal programa federal de transferência direta de renda para famílias de baixa renda.
Desde 2023, o programa retomou o nome original após substituir o Auxílio Brasil.
Manteve o valor básico de referência e incorporou complementos para crianças, gestantes e adolescentes.
O Benefício de Prestação Continuada (BPC) garante um salário mínimo mensal a idosos com 65 anos ou mais e a pessoas com deficiência em situação de baixa renda, conforme a Lei Orgânica da Assistência Social (LOAS).
A combinação desses programas com a renda do trabalho é apontada pelos pesquisadores como um dos fatores que explicam o recuo recente da pobreza e da extrema pobreza.
Ao mesmo tempo, o estudo ressalta que os avanços não são homogêneos em todo o território nacional.
Norte e Nordeste seguem com proporções maiores de pessoas em situação de vulnerabilidade, mesmo com a atuação da rede de proteção social.
Ainda que os dados indiquem melhora geral, o IBGE observa que o país permanece com um contingente relevante de pessoas abaixo da linha de pobreza.
A manutenção dos resultados depende tanto da dinâmica do mercado de trabalho quanto da continuidade das políticas sociais.
Debate sobre o futuro dos programas sociais
Os números divulgados reacendem o debate sobre o desenho, o alcance e o custo das políticas de proteção de renda.
O estudo oferece evidências de que programas como o Bolsa Família, o BPC e os benefícios previdenciários reduzem a pobreza, a extrema pobreza e a desigualdade.
O tema segue no centro das discussões sobre sustentabilidade fiscal, foco dos benefícios e aprimoramento dos critérios de elegibilidade.
À luz desses dados, como a sociedade brasileira deve conduzir o debate sobre o tamanho, o foco e a forma dos programas sociais voltados à redução da pobreza e da desigualdade de renda?
