No cais do Porto de Tubarão, em Vitória (ES), um cargueiro do tamanho de quatro campos de futebol está engolindo 400 mil toneladas de minério de ferro e jogando no lixo um recorde mundial que durou 23 anos
O navio Vale Espírito Santo, da classe Valemax, fecha nesta quinta-feira, 15 de maio de 2026, o maior carregamento de granel sólido já realizado no planeta, conforme confirmou o Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram).
A operação acontece em águas capixabas e supera a marca de 335.088 toneladas que o petroleiro convertido Berge Stahl havia estabelecido em 2002, segundo o mesmo boletim.
O Porto de Tubarão é o coração logístico da Vale e o principal terminal mineralógico do Hemisfério Sul. Além disso, o feito chega num momento estratégico para a mineradora.
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A produção do primeiro trimestre de 2026 já havia colocado a companhia no maior patamar produtivo desde 2018, conforme o balanço oficial da Vale.
Vale Espírito Santo bate recorde de 23 anos no carregamento de minério
Os Valemaxes são considerados os maiores graneleiros do mundo. Cada unidade mede 362 metros de comprimento e 65 metros de largura.
Quando totalmente carregada, a embarcação afunda dezenas de metros e exige profundidade de canal compatível com superpetroleiros. Por isso, poucos portos no planeta conseguem recebê-la.
Segundo o Ibram, o navio está retirando carga em ritmo contínuo no cais norte de Tubarão. Para ter uma ideia, 400 mil toneladas equivalem a cerca de 8.000 carretas-trucadas.
Em outras palavras, formaria uma fila rodoviária de mais de 100 quilômetros se a carga fosse transportada por estrada.

O Berge Stahl, navio que detinha o recorde anterior, foi construído em 1986 na Coreia do Sul. Originalmente projetado como petroleiro, recebeu conversão para granel sólido.
Operou no eixo Brasil-Europa por décadas antes de ser sucateado em 2021. Portanto, encerra-se aqui um ciclo histórico iniciado nos anos 1980.
Conforme o balanço Vale Q1 2026, a mineradora produziu 69,7 milhões de toneladas de minério no trimestre. As vendas chegaram a 68,7 milhões, alta de 3,9% ao ano.
Porto de Tubarão recebe o navio recordista em escala sem paralelo
O complexo portuário de Tubarão ocupa cerca de 18 milhões de metros quadrados na orla de Vitória. Ali funcionam terminais de minério, pelotas, carvão e fertilizantes.
O cais também escoa pelotas das seis usinas instaladas no próprio complexo. Essas plantas produziram 5,02 milhões de toneladas no Q1, alta de 35,1%.
O fluxo funciona como uma esteira gigante. Trens da Estrada de Ferro Vitória a Minas chegam de Minas Gerais; trens da Estrada de Ferro Carajás trazem minério do Pará.
Por outro lado, a operação demanda dragagem constante para manter 23 metros de profundidade no canal de acesso.

No Q1 2026, Tubarão respondeu por parcela significativa das 68,7 milhões de toneladas comercializadas pela Vale. A China consome mais da metade do minério brasileiro exportado.
Em comparação, o Brasil exportou 426 milhões de toneladas em 2025, segundo a Antaq. Esse volume coloca o país como segundo maior exportador global, atrás apenas da Austrália.
Classe Valemax surgiu da disputa logística entre Brasil e Ásia
Os Valemaxes nasceram em 2008 como resposta da Vale ao custo do frete marítimo Brasil-China. A distância de mais de 20 mil quilômetros entre Tubarão e Qingdao penaliza o frete unitário.
Por isso, a mineradora encomendou navios capazes de levar até 400 mil toneladas por viagem. O Capesize padrão transporta entre 170 mil e 180 mil toneladas; o Valemax dobra essa capacidade.
Em primeiro lugar, a frota teve restrições em portos chineses. Por isso, a Vale construiu hubs de transbordo na Malásia (Teluk Rubiah) e nas Filipinas. Ainda assim, em 2015 a China liberou a chegada direta.

De fato, a economia logística é o calcanhar de Aquiles brasileiro frente à Austrália. A Austrália despacha minério em 12 dias para a China; o Brasil leva mais de 35 dias.
Na prática, um único Valemax substitui mais de dois Capesizes. Isso reduz o frete por tonelada em até 35% em rotas longas, conforme estimativas da mineradora.
Contudo, a operação exige cuidados especiais. A massa concentrada de minério estende o calado e gera estresse estrutural no casco.
Vale Espírito Santo opera com tecnologia embarcada de ponta
O cargueiro recordista dispõe de monitoramento eletrônico do calado em tempo real. Sensores acoplados ao casco enviam dados de tensão estrutural para o passadiço.
Além do mais, software dedicado calcula o sequenciamento dos porões. Erro de balanço pode comprometer a estabilidade da embarcação.
Como reportou o Ibram, a operação segue protocolos estabelecidos após o incidente de 2011 com o Vale Beijing, que apresentou trincas no casco logo na primeira viagem.
Desde então, todos os Valemaxes recebem reforços estruturais e inspeções intensificadas. Em seguida, classificadoras como ABS e DNV liberam a saída do cais.
Para entender a complexidade, vale notar que o navio carrega o equivalente em peso a cerca de 1.000 Boeings 747 totalmente abastecidos.

Mineração brasileira ganha fôlego com Q1 forte da Vale
Os dados consolidados pela Vale mostram que o setor mineral voltou a acelerar em 2026. Esse aumento de 35,1% no segmento de pelotas tem efeito direto sobre o emprego industrial no Espírito Santo.
Confira os principais marcos da operação relatada pelo Ibram:
- Navio: Vale Espírito Santo, classe Valemax, 362 metros de comprimento
- Carga: 400 mil toneladas de minério de ferro
- Recorde anterior: 335.088 toneladas (Berge Stahl, 2002)
- Local: Porto de Tubarão, Vitória (ES)
- Produção Vale Q1 2026: 69,7 milhões de toneladas (alta versus 2025)
- Pelotas Tubarão Q1 2026: 5,02 milhões de toneladas (+35,1%)
Por sua vez, o crescimento da Vale impacta a balança comercial brasileira. A mineração responde por cerca de 17% das exportações totais do país.
Outros megaprojetos logísticos brasileiros ajudam a sustentar esse fluxo. Por exemplo, o salto recente dos portos do Nordeste mostra como a infraestrutura portuária do país segue como gargalo e oportunidade.
Da mesma forma, o aço produzido a partir do minério capixaba abastece cadeias industriais inteiras. A Usiminas, que fornece chapas para a Marinha, depende diretamente da regularidade desse abastecimento.
Quem ganha e quem perde com o novo recorde mundial
A operação reforça a posição brasileira no comércio global. No entanto, gera questionamentos ambientais legítimos no entorno do porto.
Em primeiro lugar, comunidades vizinhas a Tubarão convivem há décadas com poeira mineral suspensa. Como resultado, o licenciamento ambiental exige monitoramento permanente da qualidade do ar, sob auditoria anual do Iema capixaba.
Por outro lado, a operação injeta royalties relevantes no caixa estadual via Compensação Financeira pela Exploração Mineral (CFEM). Segundo a Agência Nacional de Mineração, esse fundo movimentou cerca de R$ 11 bilhões em 2025.
Contudo, ainda existem ressalvas. A dependência do minério-bruto cria fragilidade na pauta exportadora brasileira. Países como a Austrália avançam em projetos de redução verde.
Ao mesmo tempo, o ciclo global de preços oscila conforme a demanda chinesa. Quando Pequim trava obras, o Atlântico Sul sente o repique no frete e na receita.
Na prática, a pergunta que fica é simples. Será que o Brasil aproveitará esse recorde para destravar investimentos em siderurgia integrada, ou seguirá apenas como fornecedor da matéria-prima bruta?
