Vaca Muerta entregou superávit energético histórico de US$ 7,8 bilhões em 2025 e virou peça central da economia de Javier Milei — superando até o recorde do Pré-Sal brasileiro em ritmo de reversão
Em apenas 12 anos, a Argentina saiu de um déficit energético de quase US$ 7 bilhões em 2013 para um superávit recorde de US$ 7,815 bilhões em 2025. O motor dessa virada de 180 graus chama-se Vaca Muerta, a maior formação de xisto de petróleo e gás da Argentina, localizada na província de Neuquén, na Patagônia argentina.
Os dados, divulgados pelo INDEC e compilados pela Shale24, mostram que a Vaca Muerta bombeou exportações de US$ 11,086 bilhões em 2025 — alta de 12,8% sobre 2024. Cerca de 70% de todo o superávit comercial argentino do ano veio do setor energético.
Para um país que viveu décadas dependendo de importações de gás boliviano e diesel caro, o número é uma reviravolta dramática. E está se tornando, de fato, o pilar mais sólido do programa econômico de Javier Milei, o presidente que assumiu em dezembro de 2023 com a missão impossível de equilibrar as contas públicas argentinas.
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O que é a Vaca Muerta e por que ela importa
A Vaca Muerta é uma formação geológica de aproximadamente 30 mil quilômetros quadrados — equivalente ao tamanho de um país inteiro como a Bélgica. Estima-se que abriga cerca de 308 trilhões de pés cúbicos de gás natural recuperáveis e bilhões de barris de petróleo aprisionados em rochas de baixa permeabilidade.
Diferentemente do petróleo convencional brasileiro do Pré-Sal, a extração na Vaca Muerta exige fraturamento hidráulico — o famoso “fracking” americano. Por isso, a região é frequentemente comparada à Permian Basin, no Texas, considerada a maior produtora de óleo dos Estados Unidos.
Como reportou o Click Petróleo e Gás recentemente, a Permian descobriu camadas adicionais escondidas que ampliam o potencial de extração — desafio semelhante enfrentado pelos engenheiros argentinos para destravar os reservatórios de Neuquén.

O motor do crescimento: shale dispara enquanto o convencional cai
Os dados mais recentes do INDEC, referentes a janeiro de 2026, mostram com clareza onde está o motor do milagre argentino. Apenas no primeiro mês do ano, a produção total de óleo e gás chegou a 882,2 mil barris de óleo equivalente por dia (boed), alta de 16,5% sobre dezembro.
Por outro lado, as bacias convencionais argentinas seguem em queda livre — recuaram 4,9% em 2025 inteiro. Em outras palavras, todo o crescimento da produção argentina hoje vem do xisto não convencional. A Vaca Muerta sozinha sustenta a curva ascendente.
Conforme afirmou o analista Fernando Bazán, da consultoria Abeceb, em entrevista citada pela GBM, “o motor do crescimento é a Vaca Muerta, dado que o resto das bacias está em declínio”. Segundo Bazán, exportações de petróleo respondem por 86% de todo o superávit energético argentino.
Em janeiro de 2026, o superávit energético foi de US$ 618 milhões, com exportações de US$ 781 milhões — equivalente a 11,1% de todas as exportações da Argentina no mês.

Os oleodutos que dobram tudo: VMOS e Punta Colorada
O verdadeiro salto, no entanto, está por vir. A Argentina está construindo dois megaprojetos de infraestrutura para escoar o petróleo da Vaca Muerta direto para navios-tanque que cruzam o Atlântico.
O primeiro é o oleoduto VMOS (Vaca Muerta Sur), com financiamento garantido de US$ 2 bilhões. Ele entrará em operação no final de 2026 com capacidade inicial de 180 mil barris por dia. Em seguida, em 2027, deve expandir para 550 mil barris diários, gerando receitas estimadas em US$ 14 bilhões anuais.
O segundo é o terminal de exportação em Punta Colorada, na província de Río Negro. As obras já estão com mais de 50% concluídas. Quando totalmente operacional, deve gerar até US$ 15 bilhões por ano em exportações marítimas, segundo as projeções oficiais.
Em outras palavras, o que parecia uma anomalia estatística do governo Milei pode virar tendência permanente. Horacio Marín, presidente executivo da YPF, afirmou em janeiro: “Hoje a obra supera os 50% de avanço e nos abre a porta para uma nova etapa exportadora”.
Milei e a “Vaca Viva”: a aposta política do presidente argentino
Para entender por que Vaca Muerta virou central na narrativa política de Milei, é preciso olhar a matemática do governo. O superávit energético de quase US$ 7,8 bilhões em 2025 representa praticamente todo o ajuste fiscal que o governo precisava para fechar contas externas no curto prazo.
Isso significa que, sem o xisto patagônico, o “milagre” que Milei tem vendido aos investidores internacionais — superávit fiscal, queda da inflação, retorno do crédito — provavelmente seria impossível. De fato, o presidente passou a chamar o projeto de “Vaca Viva”, em contraste com o nome geológico original.
Sob o ponto de vista da diversificação, os números também ajudam. As importações argentinas de diesel caíram 75,2% e as de gasolina recuaram 49,6% em janeiro de 2026, refletindo a substituição por produção doméstica.
Os números de janeiro de 2026: o início pode ter sido frio, mas estável
Para entender se a virada vai durar, vale olhar para janeiro com lupa. As exportações totais de energia caíram 14,1% no mês ante janeiro de 2025 — mas a queda veio quase toda dos preços internacionais, que recuaram 13,2%, e não de problemas operacionais.
De acordo com o INDEC, os volumes físicos exportados ficaram apenas 1% abaixo de janeiro do ano anterior. Em comparação, as importações energéticas argentinas despencaram 21% no mesmo período — sinal claro de autossuficiência crescente.
Essa combinação rendeu o 26º mês consecutivo de superávit comercial total à Argentina, no valor de US$ 1,987 bilhão. Por consequência, o país virou exportador líquido de energia de forma estrutural, algo que parecia impensável apenas cinco anos atrás.

Comparação internacional: Permian, Pré-Sal e o caso argentino
Para entender o tamanho da façanha, vale o paralelo internacional. Como reportou recentemente o Click Petróleo e Gás, o Brasil bateu seu próprio recorde histórico de produção em fevereiro de 2026, impulsionado pelo Pré-Sal, com cerca de 4,5 milhões de boed.
Ainda assim, em proporção da economia, o impacto fiscal da Vaca Muerta sobre a Argentina é maior do que o do Pré-Sal sobre o Brasil. Isso porque a balança argentina partiu de um déficit energético, enquanto o Brasil já era exportador de petróleo desde 2022.
Além disso, a Vaca Muerta compete diretamente com a Permian Basin texana em estrutura geológica e em custo de extração. Naquele momento, a curva de aprendizado argentina avança rápido — o break-even na bacia caiu de US$ 60 por barril em 2018 para perto de US$ 35 em 2025, segundo dados setoriais.
- US$ 7,815 bilhões — superávit energético recorde da Argentina em 2025
- US$ 11,086 bilhões — exportações totais de energia em 2025 (+12,8% YoY)
- 882,2 mil boed — produção argentina em janeiro de 2026 (+16,5% MoM)
- 180 mil bpd — capacidade inicial do VMOS em final de 2026
- 550 mil bpd — meta de capacidade do VMOS em 2027
- 1 milhão bpd — projeção de produção argentina em 2030
As exportações de GNL começam em 2027 — e podem mudar o jogo
O próximo capítulo já tem data marcada. As exportações de gás natural liquefeito (GNL) da Vaca Muerta devem começar em 2027, segundo a Megawhat, com investimentos somados que ultrapassam US$ 16 bilhões.
Para isso, a Argentina já reorganizou seus gasodutos. Em particular, a reversão histórica do Gasoducto del Norte foi um marco — durante décadas, o duto trazia gás boliviano para o sul argentino.
A partir de agora, ele opera no sentido inverso, exportando gás da Vaca Muerta para o Brasil e substituindo importações da Bolívia que pareciam permanentes.
Conforme o senador e economista Agustín Monteverde, a projeção mais conservadora é que o superávit energético argentino chegue a US$ 8,8 bilhões em 2026. As estimativas mais otimistas falam em até US$ 10 bilhões — o que faria de 2026 outro ano recorde absoluto.
Ressalvas: o céu não está totalmente claro
Mesmo com os números brilhantes, nem tudo é bonança. A queda de 13,2% nos preços internacionais em janeiro de 2026 mostra como a economia da Vaca Muerta ainda depende fortemente de fatores externos. Se o Brent recuar mais, o superávit pode encolher rápido.
Além disso, a concentração em poucas operadoras — YPF, Tecpetrol, Pampa Energía, Shell, Chevron, Pan American Energy e Pluspetrol — cria riscos sistêmicos. Qualquer problema regulatório ou ambiental em uma única empresa pode afetar a curva inteira de produção.
Por fim, vale a pergunta incômoda. Se a economia argentina depende cada vez mais de uma única bacia de hidrocarbonetos, o que acontece quando o mundo, pressionado pela transição energética, começar a comprar menos petróleo? Será que Milei terá tempo de transformar a “Vaca Viva” em algo mais sustentável antes que a curva global de demanda mude para sempre?

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