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Uma tonelada de celulares velhos pode esconder até 800 vezes mais ouro do que uma tonelada de minério tirado de uma mina, segundo a ONU, e é essa riqueza escondida nas gavetas que move a chamada mineração urbana, capaz até de virar medalha olímpica

Escrito por Bruno Teles
Publicado em 25/05/2026 às 21:45
Atualizado em 25/05/2026 às 21:50
Assista o vídeoUma tonelada de celulares pode ter até 800 vezes mais ouro que o minério de mina, segundo a ONU. É a mineração urbana, que já virou medalha olímpica em Tóquio.
Uma tonelada de celulares pode ter até 800 vezes mais ouro que o minério de mina, segundo a ONU. É a mineração urbana, que já virou medalha olímpica em Tóquio.
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O número impressiona, mas é um teto, não uma média: depende de qual minério se compara. Ainda assim, a conta explica por que o Japão recolheu quase 79 mil toneladas de eletrônicos e 6,2 milhões de celulares para fundir todas as medalhas de Tóquio, num esforço que envolveu mais de 90% dos municípios do país e mostrou onde está o ouro esquecido.

Uma tonelada de celulares velhos pode esconder até 800 vezes mais ouro do que uma tonelada de minério tirado de uma mina convencional, segundo dados das Nações Unidas. É essa riqueza escondida nas gavetas de casas, escritórios e comércios que move a chamada mineração urbana, uma prática em expansão que transforma o lixo eletrônico em fonte estratégica de metais preciosos e que já chegou a render, literalmente, medalhas olímpicas.

Vale, desde já, um cuidado com esse número impressionante: as 800 vezes representam um teto, não uma média. O valor varia conforme o tipo de minério usado na comparação, e algumas fontes citam uma faixa de 40 a 800 vezes mais ouro em relação ao minério extraído nos Estados Unidos. De toda forma, a ideia central se mantém de pé: as placas de circuito dos eletrônicos são tão ricas em metais que funcionam como um minério concentrado de alta qualidade.

O que é a mineração urbana

Uma tonelada de celulares pode ter até 800 vezes mais ouro que o minério de mina, segundo a ONU. É a mineração urbana, que já virou medalha olímpica em Tóquio.
A mineração urbana consiste em recuperar metais valiosos de produtos já fabricados, como celulares, computadores, cabos e outros equipamentos eletrônicos descartados.

Em vez de escavar montanhas e abrir crateras a céu aberto, essa abordagem se volta para o lixo eletrônico gerado nas cidades, extraindo dele o ouro, a prata e o cobre que ficaram presos em aparelhos fora de uso, muitas vezes esquecidos em uma gaveta.

O foco recai sobre as placas de circuito impressas, onde estão as trilhas de cobre, as soldas com metais diversos e os microcomponentes revestidos por camadas finíssimas de ouro e prata. A prática é um dos pilares da chamada economia circular, modelo que busca manter os materiais em uso pelo maior tempo possível, reduzindo o desperdício e a dependência de recursos virgens retirados da natureza, num ciclo contínuo de reaproveitamento.

Como o ouro é retirado das placas de celular

Uma tonelada de celulares pode ter até 800 vezes mais ouro que o minério de mina, segundo a ONU. É a mineração urbana, que já virou medalha olímpica em Tóquio.
Ouro em placas de celulares

O processo de transformar placas de circuito em metais reutilizáveis combina etapas mecânicas e químicas. Primeiro, o aparelho é desmontado, removendo-se baterias e partes plásticas. Em seguida, as placas são trituradas em partículas menores, e técnicas como separação magnética, flotação e peneiramento ajudam a concentrar as frações metálicas, separando o que tem valor do que será descartado.

Depois dessa etapa física, a recuperação do ouro, da prata e do cobre acontece por meio de processos químicos de lixiviação e refino. Soluções específicas dissolvem os metais desejados, que são depois precipitados e purificados até atingirem alto grau de pureza, às vezes em fornos e reatores controlados que produzem lingotes certificados. O processo exige reagentes e infraestrutura complexa, mas se mostra viável desde que haja volume suficiente de material coletado e gestão adequada dos resíduos gerados no próprio refino.

Quando o lixo eletrônico virou medalha olímpica

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O exemplo mais marcante de mineração urbana aconteceu nos Jogos Olímpicos e Paralímpicos de Tóquio, em 2020. O comitê organizador japonês lançou uma campanha nacional para recolher celulares, notebooks e outros aparelhos em desuso, com o objetivo de extrair metais e fabricar todas as medalhas dos jogos. Pontos de coleta foram espalhados pelo país, e mais de 90% dos municípios japoneses participaram da iniciativa.

Entre abril de 2017 e março de 2019, o projeto recolheu cerca de 78.985 toneladas de eletrônicos, incluindo aproximadamente 6,21 milhões de celulares usados. Desse material, foram recuperados metais suficientes para confeccionar 100% das cerca de 5.000 medalhas distribuídas nos jogos, com metas de aproximadamente 30,3 quilos de ouro, 4.100 quilos de prata e 2.700 quilos de bronze. Foi a primeira vez que um país produziu todas as suas medalhas olímpicas a partir de lixo eletrônico.

Por que só 30 quilos de ouro foram suficientes

Um detalhe importante ajuda a entender a escala do projeto: a quantidade de ouro recuperada, cerca de 30 quilos, pode parecer pequena, mas foi suficiente justamente porque as medalhas de ouro olímpicas não são feitas de ouro maciço. Na verdade, elas são compostas majoritariamente de prata, recebendo apenas uma fina camada de ouro na superfície, o que reduz bastante a quantidade necessária desse metal mais nobre.

Isso não diminui o feito, pelo contrário. O projeto teve um forte caráter simbólico e educativo, demonstrando que o lixo eletrônico contém reservas reais de metais preciosos e que a logística reversa pode ser integrada a grandes agendas públicas. Vale o registro histórico de que Tóquio não foi pioneira absoluta: os Jogos de Vancouver, em 2010, já haviam usado e-waste em escala menor, e o Rio de Janeiro, em 2016, empregou cerca de 30% de material reciclado nas medalhas de prata e bronze.

Joias sustentáveis e novos usos para os metais

Além das medalhas, cresce o interesse de marcas de design e ourivesarias pela produção de joias sustentáveis a partir de metais recuperados de eletrônicos. Nesses casos, o ouro e a prata extraídos das placas passam por refino até alcançarem pureza comparável à dos metais de mineração convencional, sendo então transformados em anéis, colares e outros acessórios, muitas vezes com certificações que indicam a origem urbana do material.

Esse movimento também dialoga com a indústria de tecnologia, que busca reduzir a pegada ambiental de seus produtos reutilizando metais em novos componentes, conectores e soldas. A rastreabilidade, apoiada em sistemas digitais e documentação técnica, permite que fabricantes e consumidores saibam se determinado lote de ouro, prata ou cobre teve origem no lixo eletrônico, reforçando práticas de responsabilidade socioambiental e agregando valor de marca.

Mineração urbana e mineração tradicional: o contraste

A comparação entre a mineração convencional e a urbana revela um contraste marcante em termos ambientais. A extração em minas a céu aberto costuma envolver a remoção de grandes volumes de terra, alto consumo de água, uso de substâncias perigosas em certos contextos, além de desmatamento e alteração de ecossistemas. Já a recuperação de metais nas cidades parte de materiais que já passaram pela cadeia produtiva, aliviando a pressão por novas frentes de exploração.

Isso não significa que a reciclagem eletrônica seja livre de impactos. O tratamento químico das placas exige controle rigoroso de efluentes e emissões, além de condições de trabalho seguras, especialmente em países onde parte desse serviço ainda é feita de forma informal e perigosa. A vantagem está na possibilidade de concentrar esses processos em instalações reguladas, com tecnologias de mitigação, em vez de espalhar atividades poluentes por áreas sensíveis.

O potencial escondido nas gavetas brasileiras

Estima-se que toneladas de lixo eletrônico fiquem paradas em residências e empresas, formando um verdadeiro depósito invisível de metais estratégicos. Globalmente, o mundo gerou mais de 60 milhões de toneladas de resíduos eletrônicos em um único ano recente, e menos de um quinto disso é reciclado de forma adequada, o que representa bilhões de dólares em ouro, prata e cobre simplesmente queimados, enterrados ou esquecidos.

Para o Brasil, que tem forte tradição mineradora e ao mesmo tempo um grande mercado de eletrônicos, a mineração urbana representa uma oportunidade dupla: reduzir o impacto ambiental e gerar valor a partir do que hoje é descartado. Ampliar pontos de coleta, fortalecer a logística reversa e investir em recicladoras certificadas são passos apontados por especialistas para que esse potencial saia das gavetas e volte à indústria de forma organizada.

A mineração urbana mostra que a riqueza mineral não está apenas em montanhas e jazidas remotas, mas também nos aparelhos esquecidos dentro de casa. Ao recuperar ouro, prata e cobre do lixo eletrônico, essa prática une inovação, sustentabilidade e economia circular, transformando tecnologia obsoleta em medalhas, joias e novos dispositivos. Mais do que uma curiosidade, é uma tendência que pode redefinir a forma como a sociedade encara seus resíduos e a própria ideia de mineração no futuro.

Você tem celulares ou eletrônicos antigos guardados em casa sem saber o que fazer com eles? Imaginava que essa sucata pudesse esconder ouro e outros metais valiosos? Deixe seu comentário, conte quantos aparelhos parados você tem na gaveta e compartilhe a matéria com quem se interessa por sustentabilidade, tecnologia e mineração.

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Bruno Teles

Falo sobre tecnologia, inovação, petróleo e gás. Atualizo diariamente sobre oportunidades no mercado brasileiro. Com mais de 7.000 artigos publicados nos sites CPG, Naval Porto Estaleiro, Mineração Brasil e Obras Construção Civil. Sugestão de pauta? Manda no brunotelesredator@gmail.com

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