O nome da embarcação, Big C, é gíria inglesa para câncer, doença que matou o pai, a mãe e o amigo que projetou o casco. A primeira tentativa naufragou em 2023, dois dias depois de o pai morrer. Agora, num barco menor que a distância de um passo humano, ele tenta de novo a façanha que já tirou a vida de quem sonhou com ela antes.
Num barco de apenas 1,19 metro de comprimento, menor que muitos caiaques de lazer, o britânico Andrew Bedwell quer cruzar sozinho quase 3 mil quilômetros do Atlântico Norte e passar mais de dois meses no mar sem conseguir se deitar nem ficar de pé. A meta é dupla: bater o recorde mundial da menor embarcação a completar a travessia do oceano e, ao mesmo tempo, prestar uma homenagem comovente a vítimas do câncer, doença que marcou profundamente sua vida.
A partida está prevista para as próximas semanas, dependendo de uma janela climática segura, a partir de St. John’s, na província canadense de Terra Nova e Labrador, no leste do Canadá. O destino é o litoral sul da Inglaterra, após cerca de 1.900 milhas, o equivalente a aproximadamente 3 mil quilômetros, pelo imprevisível e perigoso Atlântico Norte. A travessia deve durar cerca de 60 dias, mas o barco foi abastecido para até 90 dias, caso seja necessário.
Um barco do tamanho de um passo

O Big C, como foi batizado o barco, é pouco maior do que uma banheira e mais curto do que muitos caiaques recreativos, sendo comparado por veículos britânicos a uma lixeira com rodas. Com cerca de 1,19 metro de comprimento, a embarcação é tão pequena que Bedwell, que tem aproximadamente 1,80 metro de altura, não consegue ficar de pé nem se deitar totalmente em seu interior, tendo que descansar sentado ou encolhido.
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Apesar do tamanho minúsculo, o barco é uma obra de engenharia pensada para a sobrevivência. Ele conta com cerca de uma dúzia de compartimentos estanques para garantir a flutuação e a segurança, além de mastro em formato de A, dois lemes em caso de quebra de um deles e flutuadores laterais para dar estabilidade. A quilha chega a armazenar água potável, e o navegador revisou os sistemas de estabilidade e de armazenamento após os problemas da primeira viagem.
A versão 2, reconstruída do zero

O barco atual é uma segunda versão, batizada de Big C V2, reconstruída após o fracasso da primeira tentativa. A mudança mais importante foi no material: a versão original era feita de fibra de vidro, enquanto a nova passou a ser de alumínio, com reforços internos e alterações no desenho do casco. Cerca de 70% do conceito original, porém, foi mantido na nova embarcação.
Vale um esclarecimento de precisão: embora Bedwell ainda não consiga se deitar por completo, a versão de alumínio ganhou cerca de 90 milímetros a mais de espaço interno em relação à primeira. Essa diferença, que parece pequena, é significativa em um barco tão apertado, pois agora permite que ele consiga ao menos esticar as pernas, algo impossível na versão anterior. Cada centímetro foi calculado para economizar espaço e peso.
A história por trás do nome Big C
O nome do barco esconde a parte mais emocionante e dolorosa dessa história. Big C é uma expressão usada em inglês para se referir ao câncer, e também funciona como um trocadilho sonoro com Big Sea, ou grande mar. A escolha não é coincidência: trata-se de uma homenagem ao velejador Tom McNally, de Liverpool, que projetou o barco original e foi quem inspirou todo o projeto.
McNally chegou a deter o recorde da menor embarcação a cruzar o Atlântico em 1993, mas o perdeu poucos meses depois. Ele planejava reconquistar o título com o Big C, mas morreu de câncer em 2017, sem realizar o sonho. Bedwell, que é construtor e reparador de barcos, obteve a permissão da família de McNally para retomar o projeto, transformando a travessia em uma forma de honrar a memória do amigo e de levar adiante um sonho interrompido pela doença.
O luto que atravessa a travessia
A ligação de Bedwell com o câncer, infelizmente, vai muito além do amigo. Tanto seu pai quanto sua mãe também morreram da doença, o que torna a expedição uma homenagem profundamente pessoal. O episódio mais doloroso aconteceu em 2023: o pai do navegador, Tony, morreu apenas dois dias antes da primeira tentativa de travessia, e ele admite que isso o deixou emocionalmente abalado e fora de foco no momento da partida.
Talvez por isso a primeira tentativa, em maio de 2023, tenha terminado de forma frustrante. Pouco depois de deixar o porto canadense, Bedwell percebeu que havia entrada de água no casco e foi obrigado a retornar à terra firme. Como se não bastasse, ao ser retirada do mar, a embarcação caiu de um guindaste no cais e ficou completamente destruída. O navegador chegou a achar que aquele era o fim do projeto, mas decidiu que sua história com o desafio ainda não havia acabado.
O recorde que ele quer quebrar
O recorde que Bedwell tenta superar pertence ao americano Hugo Vihlen, que em 1993 cruzou o Atlântico em uma embarcação de cerca de 1,62 metro, batizada de Father’s Day. A travessia de Vihlen, feita também a partir de Terra Nova rumo à Inglaterra, durou mais de cem dias e permanece, até hoje, como a marca oficial reconhecida da menor embarcação a completar o feito.
Desde então, várias tentativas de superar esse recorde fracassaram, vítimas de problemas estruturais, tempestades e das limitações físicas impostas pelo espaço reduzido. Cruzar o Atlântico Norte em um barco minúsculo é extremamente perigoso, já que o oceano é conhecido por seu clima imprevisível e por mares revoltos, o que exige preparo físico e psicológico fora do comum, além de uma dose enorme de coragem e, claro, de sorte com o tempo.
A vida dentro de um espaço mínimo
A rotina a bordo do Big C será de privação extrema. Sem banheiro convencional e sem uma área separada para mantimentos, cada detalhe foi pensado para economizar espaço. A alimentação, por exemplo, foi planejada para ocupar o mínimo possível, com parte da comida moldada em compartimentos improvisados dentro do casco e uma dieta baseada em alimentos altamente calóricos, capazes de resistir à umidade e às variações de temperatura do mar.
Para Bedwell, o conforto nunca foi o objetivo. Segundo ele, o barco existe apenas para sobreviver à travessia, e tudo a bordo foi pensado para poupar centímetros e quilos, ensinando-o a distinguir rapidamente o que é essencial do que é supérfluo. Velejador experiente, ele já circum-navegou a Grã-Bretanha sozinho e chegou a navegar até o Círculo Polar Ártico, o que mostra que, apesar da aparência quase suicida do desafio, há muita experiência por trás da ousadia.
A nova tentativa de Andrew Bedwell de cruzar o Atlântico no minúsculo barco Big C é muito mais do que uma aventura em busca de um recorde. É uma história de luto, superação e homenagem, em que cada metro navegado carrega a memória de um pai, de uma mãe e de um amigo levados pelo câncer. Enquanto aguarda a janela climática ideal para zarpar do Canadá, o navegador britânico se prepara para enfrentar o oceano em nome de quem já partiu e de quem ainda luta contra a doença.
Você teria coragem de encarar o Oceano Atlântico sozinho em um barco onde nem dá para deitar ou ficar de pé? O que mais te impressiona nessa história: a ousadia da façanha ou a homenagem às vítimas do câncer? Deixe seu comentário, conte o que achou da aventura de Andrew Bedwell e compartilhe a matéria com quem admira histórias de coragem, superação e grandes desafios.


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