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Uma médica viu um bebê de 3 meses ficar roxo por falta de oxigênio num hospital sem equipamento e tomou uma decisão que mantinha a criança viva com uma embalagem de bolo até a ajuda chegar; ela segurou o quadro por quatro horas no interior do RN antes da transferência

Escrito por Bruno Teles
Publicado em 13/06/2026 às 18:54
Atualizado em 13/06/2026 às 18:56
Medica usou embalagem de bolo como capacete de oxigenio para salvar bebe de 3 meses em hospital sem equipamento no RN. Improviso segurou o quadro por 4 horas.
Medica usou embalagem de bolo como capacete de oxigenio para salvar bebe de 3 meses em hospital sem equipamento no RN. Improviso segurou o quadro por 4 horas.
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Diante de um bebê com a pele arroxeada e sem o aparelho certo à mão, a médica Ellenn Salviano improvisou um capacete de oxigênio com uma embalagem de bolo. O gesto, feito numa cidade do interior potiguar, ganhou repercussão e expôs a rotina de quem trabalha na ponta do SUS.

Era manhã de segunda-feira, 10 de junho de 2024, quando a médica Ellenn Salviano assumiu o plantão no hospital municipal de Santa Cruz, no Agreste do Rio Grande do Norte, e encontrou um bebê de 3 meses em estado grave. A criança já estava com cianose, a coloração arroxeada que denuncia a má oxigenação do sangue, e apresentava manchas roxas pelo corpo. Faltava o equipamento adequado para socorrê-la, e o tempo corria contra.

A solução veio de onde ninguém esperava. Salviano e sua equipe usaram uma tampa de embalagem de bolo como um capacete improvisado de oxigênio, mantendo o bebê estável até a chegada de materiais emprestados. O caso foi contado pelo g1 RN, em reportagem de Igor Jácome, e correu o país pela combinação improvável de um objeto doméstico com uma situação de vida ou morte. A criança passou cerca de quatro horas com o aparato antes de ser transferida.

O improviso que segurou o bebê por quatro horas

Medica usou embalagem de bolo como capacete de oxigenio para salvar bebe de 3 meses em hospital sem equipamento no RN. Improviso segurou o quadro por 4 horas.
A decisão precisou ser rápida porque o quadro piorava.

O próximo passo seria a intubação, procedimento que, nas palavras da própria médica, seria muito difícil para o paciente e reduziria as chances de sobrevivência.

Sem o capacete de oxigênio convencional na unidade, a embalagem de bolo virou a barreira entre a criança e uma possível parada cardíaca. A equipe apostou no improviso para ganhar tempo.

E o tempo veio. A criança ficou cerca de quatro horas com o equipamento adaptado, até o hospital receber materiais emprestados pelo Hospital Universitário Ana Bezerra, na própria Santa Cruz.

De acordo com Salviano, o intervalo foi suficiente para ajudar na recuperação, e o bebê retomou a oxigenação a níveis que ela descreveu como quase normais.

Depois disso, foi transferido para o Hospital Varela Santiago, em Natal.

Quem é Ellenn Salviano

A trajetória dela foge do roteiro comum. Aos 41 anos, natural de São Miguel, no Alto Oeste potiguar, Salviano se formou em medicina em 2015, numa universidade privada do estado, mas já era formada em direito antes disso. 

Foram três anos entre o diploma de advogada e a aprovação em medicina, uma virada que ela resume dizendo que mudou a própria vida. Hoje mora em Natal e está em transição de carreira, especializando-se em cardiologia clínica.

A rotina de trabalho impressiona pela quantidade de frentes.

Ela é plantonista do hospital municipal de Santa Cruz às segundas-feiras há quase oito anos, atua no Samu Metropolitano às terças, no Hospital de Pirangi, em Parnamirim, às sextas, e ainda faz plantões na sala vermelha de uma UPA de Parnamirim e num hospital privado de Natal, sem dia fixo.

Durante a pandemia da Covid-19, integrou a equipe da UTI do hospital municipal. Atende principalmente adultos, mas acaba recebendo crianças e bebês em situações graves.

A rotina dura de quem trabalha no SUS

Para Salviano, o maior desafio profissional tem nome: o serviço público. Ela conta que no atendimento particular tem tudo à mão, enquanto no SUS precisa sair de casa todo dia pensando em como se reinventar diante da falta de recursos.

A médica chama o grupo com quem trabalha de equipe cão, porque, segundo ela, o que chega não escolhe hora nem gravidade. A frase resume o clima de improviso constante na ponta do sistema.

Mesmo nesse cenário, ela diz que não é preciso escolher o paciente.

O problema chega e a equipe dá um jeito, com oxigênio ou sem oxigênio, para garantir a assistência possível, afirmou ao g1.

É uma fala que ajuda a entender o episódio da embalagem de bolo não como um caso isolado de genialidade, mas como reflexo de uma cultura de virar-se com o que há.

Entre os plantões e a família

Longe do hospital, Salviano equilibra a maratona de trabalho com a vida em casa.

Casada há 22 anos com um advogado, é mãe de três filhos, de 6, 7 e 18 anos, e o mais velho pretende seguir a carreira da mãe na medicina. 

Ela credita à família a possibilidade de dar o melhor de si no trabalho, descrevendo o marido como parceiro e grande pai. Como passa muitos dias fora, aponta as viagens em família como seu maior momento de lazer.

Foi pensando nessa responsabilidade que ela explicou a atitude tomada em Santa Cruz.

Ao sair de casa e deixar os próprios filhos, disse assumir o compromisso de cuidar do filho de outra pessoa, e por isso não conseguiria olhar para aquela mãe e dizer que nada poderia ser feito.

A médica lembrou como é fácil comunicar um desfecho ruim alegando que o hospital não é materno-infantil, que faltam recursos e que o SUS não tem vaga. Ela escolheu o caminho oposto.

O relato de quem acompanhou a transferência

Quem viu o resultado de perto confirmou a eficácia do improviso.

O médico Francisco Júnior, do Samu, atuou na transferência do bebê de Santa Cruz para Natal e avaliou que a adaptação com a embalagem de bolo melhorou as condições da criança. 

O profissional afirmou que o improviso foi fundamental para o bebê voltar a respirar bem e ter boa penetração de oxigênio no pulmão. A observação reforça o relato da equipe que fez o atendimento inicial.

O percurso do paciente havia começado dias antes.

A criança deu entrada no hospital municipal de Santa Cruz no sábado, 8 de junho de 2024, com quadro de desconforto respiratório grave, congestão nasal, febre, vômitos e diarreia.

Só na manhã da segunda-feira, ao assumir o plantão, Salviano percebeu o agravamento e decidiu agir.

A sequência de dias mostra como o estado da criança se deteriorou antes do improviso que ajudou a estabilizá-la.

O episódio do interior do Rio Grande do Norte virou símbolo de uma realidade que muitos profissionais de saúde conhecem de perto.

Uma embalagem de bolo não substitui um equipamento hospitalar, e nenhuma equipe deveria precisar recorrer a esse tipo de solução, mas foi o que estava ao alcance para manter um bebê vivo até a ajuda chegar.

O caso de Ellenn Salviano mistura competência, sangue-frio e a dura rotina de quem atende na ponta do SUS.

E você, o que pensa sobre situações como essa, em que falta estrutura e sobra improviso na saúde pública? Já viveu ou acompanhou de perto a realidade do SUS, seja como paciente, familiar ou profissional? Conta nos comentários a sua experiência. Este é um tema delicado, que toca dor, fé e opiniões diferentes, então pedimos respeito a quem pensa e sente de outra forma.

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Bruno Teles

Falo sobre tecnologia, inovação, petróleo e gás. Atualizo diariamente sobre oportunidades no mercado brasileiro. Com mais de 7.000 artigos publicados nos sites CPG, Naval Porto Estaleiro, Mineração Brasil e Obras Construção Civil. Sugestão de pauta? Manda no brunotelesredator@gmail.com

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