Uma inteligência artificial vasculhou anos de dados acumulados pela NASA e desencavou mais de cem planetas fora do Sistema Solar que tinham passado despercebidos aos olhos humanos, incluindo mundos tão extremos que ninguém esperava encontrar ali.
Imagine uma montanha de dados tão grande que nenhuma equipe de cientistas conseguiria revisar tudo à mão. É mais ou menos esse o tamanho do que o telescópio espacial TESS, da NASA, vem produzindo ao observar o brilho de milhões de estrelas. Escondidos nessa avalanche de informação, podem estar planetas inteiros, e foi exatamente atrás deles que uma inteligência artificial chamada RAVEN entrou em campo.
O resultado impressiona. A ferramenta confirmou mais de cem exoplanetas, sendo dezenas deles totalmente novos, que estavam ali nos dados sem que ninguém tivesse percebido. É como se a máquina tivesse relido um livro que todo mundo achava conhecer e apontado capítulos inteiros que passaram batidos. O céu, mesmo o já fotografado, ainda guardava segredos esperando o olhar certo.
Como uma máquina enxerga o que o humano não vê
A técnica para encontrar planetas distantes é engenhosa. Quando um planeta passa na frente da sua estrela, ele bloqueia uma fração mínima da luz, causando uma queda de brilho quase imperceptível. Detectar esse pequeno escurecimento no meio do ruído de milhões de estrelas é um trabalho exaustivo e sujeito a erro humano. É justamente nesse tipo de tarefa, repetitiva e cheia de sutilezas, que uma inteligência artificial brilha.
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Confesso que acho fascinante essa parceria entre a máquina e o cientista. A IA não substitui o astrônomo, ela faz o trabalho braçal de peneirar quantidades absurdas de dados e separar os candidatos mais promissores, deixando para os humanos a parte de confirmar e interpretar. É a tecnologia funcionando como uma lupa gigante, capaz de varrer o céu inteiro atrás daquele detalhe minúsculo que escaparia de qualquer olho cansado.
Vale entender o tamanho do desafio que a máquina enfrentou. O TESS não olha para uma estrela de cada vez, ele monitora setores inteiros do céu ao mesmo tempo, registrando o brilho de centenas de milhares de estrelas durante semanas seguidas. O sinal de um planeta passando na frente da sua estrela é uma queda de luz tão pequena, às vezes menos de um por cento, que pode facilmente ser confundida com o piscar natural da estrela ou com falhas do próprio equipamento. Treinar uma inteligência artificial para distinguir um trânsito real desse mar de ruído é um feito notável, porque ela precisa aprender o que é planeta de verdade e o que é apenas barulho cósmico, e fazer isso milhões de vezes sem se cansar e sem deixar passar o que realmente importa, separando os poucos candidatos que merecem um segundo olhar humano dos incontáveis alarmes falsos que sempre aparecem.

Mundos extremos onde não deviam existir
Entre os planetas desencavados, alguns são de tirar o fôlego pela estranheza. Há mundos que giram tão perto da sua estrela que completam uma volta inteira em menos de um dia, com superfícies provavelmente escaldantes e derretidas. E há os que aparecem no chamado deserto netuniano, uma faixa onde os astrônomos quase não esperavam encontrar planetas, porque ali a radiação da estrela costuma arrancar a atmosfera de qualquer mundo do tipo.
Achar planetas justamente onde a teoria diz que eles deveriam ser raros é o tipo de surpresa que faz a ciência avançar. Cada um desses mundos esquisitos é uma peça que obriga os cientistas a repensar como sistemas planetários se formam e evoluem. O universo, mais uma vez, mostra que é mais criativo e bagunçado do que os nossos modelos gostariam que ele fosse.

A nova era da descoberta automatizada
Esse episódio é um retrato de para onde a ciência está caminhando. À medida que telescópios cada vez mais potentes despejam volumes gigantescos de dados, fica humanamente impossível analisar tudo no ritmo necessário. A inteligência artificial deixa de ser luxo e vira ferramenta indispensável, capaz de transformar arquivos esquecidos em descobertas concretas, reaproveitando informação que já estava paga e coletada.
O mais empolgante é pensar no que ainda dorme nesses bancos de dados. Se uma única ferramenta achou mais de cem planetas que estavam escondidos à vista de todos, quantos outros mundos, e talvez fenômenos que nem imaginamos, seguem esperando o algoritmo certo? Estamos diante de uma fronteira em que a próxima grande descoberta pode não exigir um telescópio novo, e sim uma máquina mais esperta vasculhando o que já temos.

O céu reanalisado por olhos de silício
Fico imaginando quantas descobertas estão, neste exato momento, paradas dentro de algum servidor, esperando apenas que alguém aponte a inteligência artificial certa para o lugar certo. A história desses cem planetas mostra que enxergar mais longe nem sempre depende de construir um instrumento maior, às vezes depende de olhar melhor para o que já está guardado.
É uma mudança silenciosa, mas profunda, na forma como a humanidade explora o universo. As máquinas estão se tornando companheiras dos astrônomos na caça aos mundos distantes, e cada planeta que elas revelam aproxima um pouco mais a velha pergunta de saber se, em algum desses pontos de luz, existe alguém olhando de volta para nós, movido pela mesma curiosidade ancestral que nos faz, há milênios, erguer os olhos para o céu noturno em busca de companhia no universo. Cada novo mundo encontrado torna essa busca um pouco menos solitária.
Será que, em algum desses cem planetas recém-descobertos, existe alguém olhando para o nosso céu também?

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