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Uma enorme cidade maia foi detectada sob a selva mexicana com ajuda do LiDAR, sistema que dispara pulsos de laser do alto para mapear o solo sob a vegetação, revelando 6.764 estruturas

Escrito por Noel Budeguer
Publicado em 04/04/2026 às 13:59
Atualizado em 04/04/2026 às 14:02
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A selva de Campeche voltou a surpreender a ciência após revelar uma cidade maia monumental com pirâmides, quadra de jogo de bola, reservatório, calçada processional e provável Grupo E, em um achado que indica que outras megacidades podem continuar escondidas sob a floresta.

Um anúncio vindo do estado de Campeche, no sudeste do México, recolocou a civilização maia no centro das grandes discussões arqueológicas do planeta. Pesquisadores identificaram uma enorme cidade antiga escondida sob a vegetação densa da selva, reforçando a ideia de que a Mesoamérica ainda guarda centros urbanos inteiros que escaparam ao mapeamento tradicional por séculos.

A descoberta ganhou repercussão internacional porque não se trata de uma pequena área cerimonial isolada, mas de um complexo urbano de grande escala, com sinais claros de planejamento, monumentalidade e ocupação intensa. Para arqueólogos, o caso mostra que o mapa do mundo maia ainda está longe de estar completo, mesmo em regiões já conhecidas da pesquisa acadêmica.

O achado que chamou atenção da UNESCO e da arqueologia mundial

A referência feita pelo UNESCO Courier em 2024 ajudou a ampliar o interesse global pelo caso ao destacar que uma grande cidade maia havia sido detectada na selva de Campeche. Embora essa menção tenha sido breve, ela funcionou como um selo de relevância internacional para um achado que, na prática, já era visto como um dos mais impressionantes do ano no campo da arqueologia.

A base mais robusta da descoberta, porém, está em duas frentes: um estudo científico publicado na revista Antiquity e a divulgação institucional do INAH, o Instituto Nacional de Antropologia e História do México. Essas fontes confirmam que a cidade detectada corresponde ao sítio chamado Valeriana, nome moderno dado ao conjunto arqueológico por causa de uma lagoa próxima.

Não se conhecem imagens das construções de Valeriana, que ainda permanece sob a vegetação; estima-se que seja a segunda maior cidade maia depois de Calakmul, que aparece na foto (INAH).

O que é Valeriana e por que esse sítio impressiona tanto

Valeriana não foi apresentada como um simples agrupamento de ruínas, mas como uma cidade maia de alta complexidade. O estudo descreve dois núcleos monumentais principais, separados por cerca de 2 quilômetros, mas conectados por uma ocupação densa contínua, algo que sugere um tecido urbano bem estruturado e não apenas construções espalhadas aleatoriamente pela floresta.

A área identificada dentro do bloco analisado alcança 16,6 km², um número expressivo quando se considera a dificuldade de reconhecimento de estruturas antigas em ambiente tropical. Dentro desse conjunto, os pesquisadores registraram 6.764 estruturas, entre residências, plataformas, templos, áreas elevadas e outros elementos arquitetônicos que revelam uma paisagem intensamente modificada pelos antigos maias.

A tecnologia que permitiu enxergar a cidade sob a vegetação

O ponto mais fascinante dessa descoberta é o método usado para localizá-la. Em vez de uma escavação inicial ampla em solo, o reconhecimento veio por meio de LiDAR, uma tecnologia de sensoriamento remoto baseada em pulsos de laser emitidos por via aérea, capazes de atravessar a cobertura vegetal e registrar o relevo com precisão extraordinária.

Na prática, o LiDAR permite “remover” digitalmente a floresta e expor padrões artificiais no terreno, como plataformas, calçadas, terraços e pirâmides. Em regiões como Campeche, onde a mata dificulta a observação direta, essa ferramenta se tornou revolucionária, porque revela cidades inteiras que permaneceram invisíveis a olho nu, mesmo em áreas relativamente próximas de comunidades modernas e estradas.

Valeriana foi encontrada a 20 km a sudoeste de Chactún-Tamchén, em Campeche, no México (Antiquity, Cambridge University Press).

Uma cidade que estava oculta, mas não exatamente perdida no vazio

Um dos aspectos mais curiosos de Valeriana é que parte do sítio se localiza perto de infraestrutura atual, inclusive áreas habitadas e vias modernas. Isso ajuda a explicar por que muitos especialistas descrevem o caso como uma cidade “oculta à vista de todos”: ela estava ali, mas sua verdadeira escala urbana permanecia mascarada pela vegetação e pela ausência de um levantamento arqueológico abrangente.

Esse detalhe também corrige uma visão sensacionalista bastante comum. Não se trata de uma cidade completamente desconhecida em um vazio absoluto, como se ninguém jamais tivesse passado por ali. O que estava oculto era a sua extensão real, a densidade de suas construções e a dimensão política e urbana que o sítio teve durante o auge da civilização maia.

Os elementos arquitetônicos que revelam uma capital maia

O estudo destaca que o núcleo principal de Valeriana apresenta características típicas de uma capital política maia do período Clássico. Entre os elementos identificados estão praças fechadas, uma grande calçada processional, pirâmides templárias, quadra de jogo de bola, reservatório de água e um possível Grupo E, conjunto arquitetônico associado em muitos casos a observações rituais e astronômicas.

Esses componentes não aparecem por acaso em centros secundários sem importância regional. Sua combinação sugere um assentamento com forte poder político, capacidade de mobilizar mão de obra e domínio sobre o entorno. Em outras palavras, Valeriana não parece ter sido uma periferia de grandes cidades vizinhas, mas sim um centro de peso próprio dentro da rede urbana maia.

Comparação da densidade de assentamento entre seis áreas do centro de Campeche (Antiquity, Cambridge University Press).

Qual era a idade dessa cidade escondida

As evidências publicadas apontam para uma ocupação intensa durante o Período Clássico Maia, aproximadamente entre 250 e 900 d.C.. No entanto, a possível presença de um Grupo E sugere que a fundação do assentamento pode ser ainda mais antiga, talvez anterior a 150 d.C., o que ampliaria sua relevância histórica e sua profundidade cronológica.

Isso significa que Valeriana pode ter atravessado diferentes fases da história maia, desde momentos formativos até o auge político da região. Ainda faltam escavações mais amplas para fechar essa cronologia com precisão, mas o cenário atual indica uma trajetória urbana longa, complexa e intimamente ligada ao desenvolvimento das terras baixas maias centrais.

Por que essa descoberta muda a visão sobre a Mesoamérica

O impacto de Valeriana vai muito além de um novo ponto no mapa arqueológico. O achado reforça uma transformação conceitual que já vinha crescendo nos últimos anos: a de que muitas áreas maias não eram compostas apenas por centros cerimoniais isolados, e sim por paisagens urbanas extensas, com infraestrutura, densidade populacional e engenharia territorial em níveis muito maiores do que se imaginava décadas atrás.

A descoberta também mostra que Campeche ainda pode esconder outros grandes centros sob a floresta. Os próprios autores do estudo argumentam que a região continua cheia de lacunas cartográficas e que o caso de Valeriana prova como áreas pouco analisadas podem revelar cidades de primeira grandeza. Isso recoloca a arqueologia mesoamericana em um momento de enorme expectativa científica.

O Bloco 1 de reconhecimento, com vestígios de edifícios em preto e vestígios de plataformas em violeta, mostra o tipo de distribuição urbana dos maias (figura dos autores).

O que ainda não se sabe sobre Valeriana

Apesar do entusiasmo, há limites importantes no que já foi confirmado. O tamanho real da cidade pode ser ainda maior do que o medido até agora, porque o levantamento LiDAR analisado não cobre necessariamente toda a extensão do assentamento. Também não se conhece com certeza seu nome original, sua sequência completa de ocupação ou sua relação política exata com potências maias como Calakmul e outros grandes centros de Campeche.

Outro ponto em aberto é o quanto da interpretação atual resistirá às futuras verificações de campo. O LiDAR é excelente para detectar formas e padrões, mas a arqueologia em superfície e a escavação continuam indispensáveis para confirmar datas, funções específicas dos edifícios, materiais usados, fases construtivas e evidências diretas da vida cotidiana da população.

A selva de Campeche ainda pode esconder outras megacidades

Valeriana se tornou um símbolo poderoso de uma nova fase da arqueologia: aquela em que tecnologia de ponta, análise do relevo e leitura histórica se unem para revelar mundos inteiros sob a floresta. O que parecia apenas mata contínua revelou pirâmides, praças, sistemas de circulação e uma ocupação urbana densa que muda o peso arqueológico da região.

Mais do que resolver um mistério, a descoberta abre muitos outros. Se uma cidade dessa escala permaneceu sem reconhecimento integral até 2024, a grande pergunta agora é inevitável: quantas outras metrópoles maias ainda permanecem escondidas sob a vegetação da Mesoamérica, esperando o momento em que a tecnologia finalmente consiga trazê-las de volta à história?

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Noel Budeguer

Sou jornalista argentino baseado no Rio de Janeiro, com foco em energia e geopolítica, além de tecnologia e assuntos militares. Produzo análises e reportagens com linguagem acessível, dados, contexto e visão estratégica sobre os movimentos que impactam o Brasil e o mundo. 📩 Contato: noelbudeguer@gmail.com

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