Tecnologia moderna revela romance proibido e disputa financeira que quase destruiu união no século xv
A história da carta de amor mais antiga do mundo acaba de ganhar um novo capítulo — e, surpreendentemente, graças à inteligência artificial. Escrita em fevereiro de 1477, essa relíquia histórica foi finalmente decifrada após 540 anos, revelando não apenas um romance intenso, mas também um verdadeiro drama envolvendo dinheiro, família e decisões difíceis na Inglaterra medieval.
A informação foi divulgada por “The Jerusalem Post”, com base em análises recentes e no uso da inovadora ferramenta Scribe AI, da MyHeritage, que tornou possível traduzir e interpretar o conteúdo original escrito em inglês médio — uma linguagem praticamente indecifrável para leitores modernos.
Além disso, o documento pertence à famosa coleção conhecida como Cartas Paston, um dos maiores acervos históricos da Inglaterra, composto por mais de mil documentos produzidos entre 1422 e 1509. Esse conjunto oferece uma visão detalhada da vida durante as Guerras das Rosas (1455-1487) e o início do período Tudor (1485-1603), sendo considerado uma fonte primária de valor incalculável.
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Romance intenso enfrenta pressão familiar e disputa por dote de £200 ameaça casamento

(crédito da imagem: Daisy Honeybunn / MyHeritage)
Ao mergulhar no conteúdo da carta, encontramos Margery Brews escrevendo para seu noivo, John Paston III, em um tom inicialmente romântico. Ela o chama de “meu muito amado Valentim”, marcando, assim, o primeiro uso conhecido da palavra “Valentine” em uma carta romântica em inglês.
No entanto, logo em seguida, o tom da mensagem muda drasticamente. Margery revela que sua mãe havia implorado ao pai para aumentar o valor de seu dote — porém, ele se recusou. O acordo envolvia £200, mas com pagamento parcelado ao longo de vários anos, condição que a família de John considerava inaceitável.
Consequentemente, o casamento ficou seriamente ameaçado. Ainda assim, Margery demonstrou uma devoção impressionante. Ela afirmou que, mesmo que John tivesse “metade do sustento” que possuía, não o abandonaria. Mais do que isso, declarou estar disposta a enfrentar “o maior trabalho que qualquer mulher poderia suportar na vida”.
Com o coração pesado, ela encerrou a carta pedindo sigilo absoluto. Esse detalhe, por sua vez, evidencia não apenas a pressão social da época, mas também o nível de consciência emocional e autonomia de Margery — algo que desafia muitas suposições modernas sobre casamentos arranjados na Idade Média.
Inteligência artificial decifra inglês medieval e transforma acesso à história antiga
Por outro lado, o grande diferencial dessa descoberta está na tecnologia utilizada. A ferramenta Scribe AI, lançada em março de 2026 pela MyHeritage, foi responsável por transcrever, traduzir e contextualizar o documento histórico.
O texto original apresentava inúmeros desafios: ortografia fonética, gramática desconhecida, caracteres arcaicos como a letra anglo-saxônica “thorn” e até trechos com tinta quase apagada. Dessa forma, a leitura humana era extremamente limitada.
Segundo especialistas, o inglês da época difere profundamente do atual em pronúncia, escrita e estrutura. Portanto, a atuação da inteligência artificial foi essencial para tornar o conteúdo compreensível e acessível a um público muito mais amplo.
Além da tradução, a ferramenta também forneceu contexto histórico, destacou pontos-chave e sugeriu novas linhas de pesquisa. Isso representa, sem dúvida, uma revolução na forma como lidamos com documentos antigos.
Cartas paston revelam ascensão social e bastidores da elite inglesa medieval
Vale destacar que a correspondência entre Margery Brews e John Paston faz parte de um contexto muito maior. A família Paston, originalmente formada por agricultores da vila de Paston, na costa de Norfolk, conseguiu ascender socialmente por meio da educação, do direito e de casamentos estratégicos.
Assim, as cartas documentam não apenas histórias pessoais, mas também negociações políticas, disputas econômicas e relações sociais da época. A mãe de Margery, Dame Elizabeth Brews, por exemplo, defendia o casamento com entusiasmo, chegando a afirmar que sua filha era “um tesouro maior do que qualquer dinheiro”.
Esse tipo de declaração reforça o valor atribuído à união, mesmo diante das dificuldades financeiras.
Final feliz surpreende e mostra que amor venceu barreiras há mais de cinco séculos
Apesar de todos os obstáculos, a história teve um desfecho positivo. Graças à intervenção da mãe de John, Margaret, foi possível chegar a um acordo sobre o dote, permitindo que o casal se casasse ainda em 1477.
Posteriormente, Margery e John tiveram vários filhos e continuaram trocando cartas que demonstram um relacionamento afetuoso e leve. Em dezembro do mesmo ano, por exemplo, Margery mencionou um anel enviado como lembrança, além de revelar que pensava no marido “dia e noite” — possivelmente uma referência à sua primeira gravidez.
Dessa maneira, mesmo após cinco séculos e meio, a história de Margery Brews continua tocando leitores, provando que sentimentos humanos como amor, dúvida e esperança são universais e atemporais.
