Uma expedição científica no fundo do Pacífico revelou centenas de espécies desconhecidas e trouxe novos dados sobre um ecossistema pouco estudado, no momento em que cresce o interesse internacional pela mineração submarina em busca de metais estratégicos.
Uma expedição científica de grande escala no Oceano Pacífico identificou 788 espécies vivendo no fundo do mar na Zona Clarion-Clipperton, uma vasta área de planície abissal entre o Havaí e o México que concentra depósitos de nódulos polimetálicos de interesse econômico.
O levantamento envolveu 160 dias de trabalho no mar e anos de análises em laboratório, com coleta de animais a cerca de 4.000 metros de profundidade.
Centenas das espécies registradas ainda não haviam sido descritas pela ciência.
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O objetivo central da pesquisa foi produzir dados empíricos sobre os possíveis impactos da mineração em alto-mar nesse ambiente.
Os resultados foram publicados na revista Nature Ecology and Evolution, em um momento de aumento da demanda global por metais como níquel e cobalto, utilizados em baterias e tecnologias ligadas à transição energética.
Segundo os autores, a ausência de dados consolidados sobre biodiversidade no fundo do oceano dificultava avaliações ambientais mais precisas.
As novas informações ampliam a base científica disponível para esse debate.
Biodiversidade no fundo do oceano Pacífico
A área estudada está em uma região de escuridão permanente, sob alta pressão e com oferta limitada de alimento.
Nesses ambientes, partículas orgânicas descem lentamente da superfície, sustentando cadeias alimentares pouco produtivas.
Dados apresentados no estudo indicam que a taxa de deposição de sedimentos é extremamente baixa, da ordem de um milésimo de milímetro por ano, o que ajuda a explicar por que alterações físicas tendem a persistir por longos períodos.
Durante a expedição, os pesquisadores coletaram mais de 4.300 animais.
A análise desse material resultou na identificação de 788 espécies, incluindo poliquetas, crustáceos e moluscos.
O estudo também registra um coral solitário classificado como novo para a ciência.
A equipe destaca que parte dessas identificações só foi possível após análises detalhadas em laboratório.
Outro dado apresentado diz respeito à densidade populacional.
Em regiões como o Mar do Norte, uma amostra de sedimento pode conter dezenas de milhares de indivíduos.
Já no Pacífico profundo, volumes semelhantes costumam reunir um número comparável de espécies, mas apenas cerca de 200 indivíduos, segundo os autores.
Essa diferença indica populações menos abundantes, com potencial recuperação mais lenta após perturbações.
Uso de DNA para identificar espécies marinhas
Como muitas das espécies não haviam sido registradas anteriormente, os pesquisadores recorreram de forma intensiva a ferramentas de genética molecular.
A análise de DNA permitiu diferenciar organismos visualmente semelhantes, mas geneticamente distintos, que poderiam ser classificados como uma única espécie apenas pela morfologia.
De acordo com o estudo, essa distinção é relevante porque espécies diferentes podem desempenhar funções específicas no ecossistema.
Em ambientes abissais, onde a energia disponível é limitada, pequenas variações na composição das comunidades podem alterar relações ecológicas locais.
Por esse motivo, os autores argumentam que inventários baseados apenas em observação visual tendem a subestimar a biodiversidade real.
Impactos observados em testes de mineração submarina
O trabalho também analisou áreas submetidas a testes com equipamentos experimentais de coleta de nódulos no leito marinho.
Nas trilhas abertas pelas máquinas, os pesquisadores registraram redução de 37% no número de animais e queda de 32% na diversidade de espécies diretamente nas faixas impactadas.
Segundo os autores, o impacto observado foi localizado e medido dentro dos limites do experimento.
Ainda assim, os dados indicam alterações significativas na estrutura das comunidades nessas áreas específicas.

O estudo ressalta que, em ambientes de baixa taxa de reposição, a remoção física do substrato pode ter efeitos prolongados, embora a extensão temporal desses efeitos ainda dependa de monitoramento adicional.
Os pesquisadores observam que os resultados não permitem extrapolações automáticas para operações em larga escala, mas fornecem parâmetros iniciais para avaliar riscos ambientais associados à mineração submarina.
Mineração em alto-mar e demanda por metais estratégicos
O interesse econômico pela região está associado à presença de metais considerados estratégicos para a indústria de baterias.
No material de divulgação do estudo, o biólogo Thomas Dahlgren afirma que esses metais são considerados escassos e que, até recentemente, havia pouca evidência empírica sobre os impactos ambientais de sua extração em águas profundas.
Esses dados devem subsidiar discussões na Autoridade Internacional dos Fundos Marinhos, órgão responsável por regular atividades em áreas além das jurisdições nacionais.
A entidade utiliza estudos científicos para definir critérios ambientais, exigências de monitoramento e possíveis restrições à exploração.
Ainda assim, os próprios autores destacam que parte das incertezas permanece.
A Zona Clarion-Clipperton é extensa e apresenta variações ambientais que não foram completamente amostradas.
Isso limita conclusões sobre a distribuição real das espécies identificadas.
Áreas de proteção ambiental ainda pouco exploradas
A região conta com áreas designadas para proteção ambiental, criadas para permanecer fora de futuras atividades de mineração.
Segundo documentos de planejamento ambiental, essas zonas funcionariam como referência ecológica e abrigo para a biodiversidade local.
No entanto, o estudo aponta que muitas dessas áreas ainda são pouco exploradas cientificamente.
Com isso, não é possível afirmar com segurança se as espécies registradas nas áreas de interesse comercial também estão presentes nas zonas protegidas em proporções semelhantes.
Essa lacuna é considerada relevante pelos pesquisadores, pois a distribuição restrita de espécies poderia significar que impactos locais tenham consequências mais amplas.
Por outro lado, uma distribuição mais ampla poderia reduzir esse risco.
O estudo conclui que, no estágio atual do conhecimento, não há dados suficientes para responder definitivamente a essa questão.
À medida que novos levantamentos ampliam o inventário biológico e testes controlados fornecem dados sobre impactos diretos, a discussão sobre mineração em alto-mar passa a se apoiar mais fortemente em evidências empíricas.
Resta saber se esse conjunto de informações será suficiente para orientar decisões regulatórias antes da expansão de atividades comerciais no fundo do Pacífico.


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