Assad Abdalla nasceu em Homs, na Síria, em 1870, cruzou o oceano, trabalhou como mascate nas ruas de São Paulo e fundou o que se tornaria a loja mais antiga ainda em atividade na rua mais comercial da América Latina
Na esquina da Rua 25 de Março com a Ladeira Porto Geral, número 595, existe um casarão amarelo que está ali desde antes da Primeira Guerra Mundial. Antes da gripe espanhola. Antes do rádio chegar ao Brasil. A Doural abriu as portas em 1905 e nunca mais fechou. São 120 anos no mesmo endereço, na mesma rua, com a mesma família.
Quem passa apressado pela 25 de Março atrás de preço baixo dificilmente imagina que aquela fachada esconde uma das histórias de imigração mais longevas do comércio brasileiro. A loja mais antiga ainda em funcionamento no maior centro comercial da América Latina foi fundada por um homem que chegou ao Brasil sem falar português e começou vendendo tecido na rua.
O mascate que virou patriarca

Assad Abdalla nasceu em 1870 em Homs, uma das cidades mais antigas da Síria. Aos 33 anos, em 1903, embarcou rumo ao Brasil com outro imigrante sírio, Nagib Salem. Os dois não tinham loja, não tinham ponto comercial, não tinham nada além da disposição pra trabalhar.
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Assad virou mascate. Andava pelas ruas de São Paulo carregando tecidos e armarinhos, batendo de porta em porta, vendendo pra quem quisesse comprar. Era o trabalho mais comum entre os imigrantes sírios e libaneses que chegavam ao Brasil na virada do século. Não exigia capital inicial. Exigia pernas, paciência e capacidade de convencer alguém a comprar algo que não tinha pedido.
Em dois anos, Assad juntou o suficiente pra alugar um ponto na Rua 25 de Março. Em 1905, a Doural abriu as portas. No início, vendia o que Assad conhecia: tecidos e armarinhos. O mesmo tipo de produto que ele carregava nas costas quando era mascate.
O que 120 anos fazem com uma loja

A Doural que existe hoje não vende mais tecido. Ao longo das décadas, a família Abdalla foi transformando o negócio conforme o mercado mudava. Saíram os armarinhos, entraram os utensílios domésticos. Hoje, o casarão amarelo abriga 60 mil itens diferentes pra casa: panelas, talheres, porcelanas finas, cortinas, tapetes, enfeites, louças populares e peças de luxo.
O catálogo vai do copo de R$ 5 ao tapete importado de milhares de reais. É o tipo de loja onde uma dona de casa do Capão Redondo e uma decoradora dos Jardins encontram o que procuram no mesmo corredor. Poucos estabelecimentos comerciais no Brasil conseguem atender espectros tão diferentes de público por tanto tempo.
A loja também entrou no e-commerce, vendendo pela internet sem abandonar o casarão físico. A mesma família que começou vendendo tecido na calçada agora despacha encomendas pelo país inteiro. De mascate a marketplace em quatro gerações.
A família que nunca saiu
O detalhe mais impressionante da Doural não é a idade. É a continuidade.
Assad Abdalla fez questão de ensinar o ofício aos filhos. Os filhos ensinaram aos netos. Os netos ensinaram aos bisnetos. A Doural está hoje na quarta geração da família Abdalla. 120 anos, mesma família, mesmo endereço, mesmo CNPJ comercial passando de mão em mão sem nunca sair do sangue.
Em 120 anos, o Brasil teve 16 presidentes, duas ditaduras, seis moedas diferentes, duas guerras mundiais, uma pandemia e pelo menos três crises econômicas que fecharam milhares de lojas. A Doural sobreviveu a todas. No mesmo lugar. Com o mesmo sobrenome na porta.
A esposa do fundador, Corgie Assad Abdalla, virou referência de filantropia em São Paulo. Seu trabalho social foi reconhecido com uma homenagem: uma rua no Morumbi leva o nome dela. O mascate sírio que chegou sem nada deixou o nome da família gravado no mapa da cidade.
Por que essa história importa
A Rua 25 de Março recebe estimativas de 400 mil pessoas por dia em datas de pico. É o maior centro de comércio popular da América Latina. E a loja mais antiga que ainda funciona ali foi fundada por um imigrante que começou carregando mercadoria nas costas.
A Doural não é só uma loja. É um documento vivo de como São Paulo foi construída. Por imigrantes que não falavam a língua, que não tinham capital, que não tinham rede de contatos. Tinham trabalho. E o trabalho virou esquina, a esquina virou loja, a loja virou instituição, e a instituição completou 120 anos sem sair do lugar onde tudo começou.
Se você já passou pela 25 de Março e não reparou no casarão amarelo da esquina com a Ladeira Porto Geral, agora sabe o que ele guarda. Quatro gerações, 60 mil itens e a história de um homem que saiu de Homs com nada e deixou o sobrenome dele numa rua do Morumbi e numa esquina da 25 de Março ao mesmo tempo.
Com informações do São Paulo Secreto e do livro “Família Assad Abdalla & Corgie Haddad — 1903-2003”.

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