Para reconstruir esse passado, os pesquisadores recorreram a cacos de cerâmica antiga enterrados na Argentina. Ao serem queimados há séculos, esses objetos guardaram a memória do campo magnético da época, como pequenos gravadores naturais. As 41 leituras revelaram que o fenômeno não é novo nem único, mas se repete a cada milênio.
Um “buraco” no escudo magnético da Terra que passa justamente sobre o Brasil vem intrigando cientistas há décadas, e um novo estudo trouxe pistas importantes sobre a sua origem. A pesquisa mostra que essa fragilidade surgiu sob o Oceano Índico por volta do ano 1000, migrou lentamente para oeste, cruzou a África e chegou à América, repetindo um caminho que outra anomalia parecida já havia percorrido cerca de mil anos antes.
O fenômeno é chamado de Anomalia Magnética do Atlântico Sul, a Amas, e corresponde à região mais fraca e extensa de todo o campo magnético do planeta. O estudo foi publicado no início de maio na revista científica PNAS, dos Estados Unidos, por uma equipe internacional liderada por cientistas espanhóis, e ajuda a entender se o crescimento recente dessa anomalia é algo excepcional ou apenas mais um capítulo de um processo natural e repetitivo da Terra.
O que é a Anomalia Magnética do Atlântico Sul

A Anomalia Magnética do Atlântico Sul é uma espécie de amassado nesse escudo, uma região onde o campo é mais fraco, localizada entre a África e a América do Sul, e que passa por cima do território brasileiro.
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Nessa área, as partículas ionizantes do espaço conseguem penetrar mais fundo na atmosfera, chegando mais perto da superfície. Isso não representa perigo imediato para as pessoas no chão, mas expõe satélites, naves e missões espaciais a níveis mais altos de radiação, podendo causar falhas em equipamentos eletrônicos. Por isso, entender o comportamento dessa anomalia é estratégico para a tecnologia espacial moderna.
Cerâmicas antigas como gravadores do tempo
Para reconstruir a história da anomalia, os pesquisadores usaram uma técnica engenhosa chamada arqueomagnetismo. Eles analisaram materiais arqueológicos de argila encontrados no noroeste da Argentina, perto do centro atual da anomalia, extraindo 41 medições do campo magnético registrado nesses objetos.
O princípio é fascinante. Quando uma peça de cerâmica é queimada a altas temperaturas e depois esfria, os minerais magnéticos em seu interior se alinham com o campo magnético da Terra naquele exato momento, guardando uma espécie de fotografia magnética da época. Séculos depois, ao medir essa assinatura em laboratório, os cientistas conseguem reconstruir como o campo se comportava no passado, com precisão notável.
Um fenômeno que se repete a cada milênio
Os resultados traçaram a trajetória da anomalia atual e revelaram um padrão surpreendente. Segundo o estudo, a Amas teria surgido sob o Oceano Índico por volta do ano 1000, deslocando-se gradualmente para oeste até alcançar sua configuração atual sobre o Atlântico Sul e a América. Mas o dado mais impressionante é que ela não foi a primeira a fazer isso.
De acordo com os pesquisadores, outra anomalia magnética muito parecida percorreu praticamente o mesmo caminho, do Índico rumo ao oeste, entre os anos 1 e 850 da nossa era, durante o primeiro milênio. Para a principal autora do estudo, a pesquisadora Miriam Gómez-Paccard, do CSIC, da Espanha, isso indica que a Amas é provavelmente a expressão mais recente de um processo geomagnético recorrente, que opera em escalas de milhares de anos.
O que causa essas anomalias
O campo magnético da Terra é gerado pelo movimento de metais líquidos no núcleo externo do planeta, uma espécie de dínamo gigante em constante agitação. As variações nesse campo, incluindo o surgimento de anomalias como a Amas, estão ligadas a essa dinâmica profunda, ainda cheia de mistérios para a ciência.
Uma das hipóteses levantadas pelo estudo conecta o fenômeno às chamadas Grandes Províncias de Baixa Velocidade de Cisalhamento, em inglês LLSVPs, que são duas massas rochosas colossais situadas no manto inferior da Terra, uma sob a África e outra sob o Oceano Pacífico. Essas estruturas seriam grandes o suficiente para perturbar o campo magnético e ajudar a explicar por que as anomalias parecem se repetir sempre na mesma região do planeta. Ainda assim, os próprios cientistas reconhecem que mais estudos são necessários para confirmar a causa.
A contribuição brasileira e a Ilha da Trindade
O Brasil tem papel de destaque nessa investigação, e não apenas por abrigar a anomalia sobre seu território. Em 2024, um estudo publicado na revista Nature por cientistas da Unicamp analisou rochas da Ilha da Trindade, a cerca de mil quilômetros da costa do Espírito Santo, e mostrou que anomalias magnéticas como a Amas acontecem na Terra há pelo menos 10 milhões de anos.
A diferença entre os dois trabalhos está na escala de tempo. O novo estudo espanhol, baseado em cerâmicas, tem altíssima resolução temporal, mas cobre apenas os últimos milhares de anos. Já o estudo brasileiro, baseado em rochas vulcânicas, alcança intervalos de tempo muito mais antigos, embora com menor detalhamento. Segundo o pesquisador Gelvam Hartmann, que participou do trabalho da Unicamp, as duas abordagens se complementam, juntando peças diferentes do mesmo quebra-cabeça magnético.
Por que isso importa para o futuro
Entender se a Amas é um fenômeno passageiro ou recorrente tem implicações práticas. Como a anomalia afeta satélites, sistemas de navegação e missões espaciais, prever sua evolução ajuda agências espaciais e empresas de tecnologia a proteger seus equipamentos da radiação. O Brasil, que tem a anomalia bem acima de seu território e investe em programa espacial, tem interesse direto nessa pesquisa.
Os estudos também ajudam a desfazer alarmes exagerados. Vez ou outra surgem boatos de que a Amas seria sinal de uma iminente inversão dos polos magnéticos da Terra, algo que causaria caos. As pesquisas mais recentes, porém, sugerem que o enfraquecimento atual faz parte de um ciclo natural que já se repetiu antes, sem catástrofe associada, o que ajuda a colocar o fenômeno em uma perspectiva mais serena e científica.
A história da Anomalia Magnética do Atlântico Sul é um lembrete de como o planeta que habitamos é dinâmico e cheio de mistérios, mesmo em camadas que jamais veremos diretamente. Graças a cacos de cerâmica enterrados na Argentina e a rochas vulcânicas de uma ilha brasileira isolada, os cientistas vêm montando, peça por peça, a longa história desse “buraco” no escudo magnético da Terra. Mais do que um motivo de alarme, a anomalia se revela uma janela rara para entender o coração profundo do nosso planeta.
E você, já tinha ouvido falar que existe um ponto fraco no escudo magnético da Terra bem acima do Brasil? O que achou de saber que cerâmicas e rochas antigas ajudam a desvendar esse mistério? Deixe seu comentário, conte o que mais te impressionou sobre a Anomalia do Atlântico Sul e compartilhe a matéria com quem ama ciência, espaço e os enigmas do nosso planeta.

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