Em 2018, a obra estava a poucas semanas de ficar pronta quando um túnel entupiu e a barragem quase rompeu. Os engenheiros tiveram que inundar de propósito a casa de máquinas para evitar o pior, e dezenas de milhares de pessoas foram retiradas às pressas rio abaixo. Hoje, a usina opera com metade da capacidade prevista.
Com uma caverna subterrânea do tamanho de um prédio de 17 andares e um reservatório de 78 quilômetros, a usina de Hidroituango se tornou a maior hidrelétrica da Colômbia, com capacidade de gerar cerca de 17% de toda a energia elétrica do país. O feito de engenharia, no entanto, só foi possível depois de a obra superar uma grave crise em 2018, que quase a transformou em uma catástrofe humanitária, com risco para mais de 120 mil pessoas.
Localizada no rio Cauca, no Cânion do Cauca, no norte do departamento de Antioquia, a cerca de 171 quilômetros de Medellín, a Central Hidroelétrica Ituango é operada pela EPM, a Empresas Públicas de Medellín. O projeto começou a ser construído em 2010 e, apesar de já gerar energia comercialmente desde 2022, ainda não está totalmente concluído, com previsão de finalização para 2027. É uma das maiores e mais ambiciosas obras de infraestrutura da América do Sul.
A escala impressionante da obra

Os números da usina ajudam a entender por que ela é tratada como uma obra monumental. A barragem tem cerca de 225 metros de altura, e o reservatório formado por ela se estende por 78 quilômetros, armazenando aproximadamente 2,8 bilhões de metros cúbicos de água do rio Cauca, o segundo maior da Colômbia. Tudo isso em um cânion estreito em formato de V, com encostas íngremes que tornaram a engenharia especialmente desafiadora.
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O coração da usina é uma caverna de máquinas subterrânea com 240 metros de comprimento, 23 metros de largura e 49 metros de altura, o equivalente a um prédio de cerca de 17 andares escavado dentro da montanha. O vertedouro, responsável por escoar o excesso de água com segurança, tem capacidade para evacuar até cerca de 25.300 metros cúbicos por segundo, número que dá a dimensão da força que a estrutura precisa conter.
2.400 megawatts e quase um quinto da energia do país

Na configuração final, a usina vai operar com oito turbinas Francis de 300 megawatts cada, totalizando 2.400 megawatts de capacidade instalada, o equivalente a cerca de 17% da demanda elétrica de toda a Colômbia. Por enquanto, no entanto, apenas quatro dessas turbinas estão em funcionamento, o que significa que a usina opera hoje com cerca de metade da sua capacidade total, ou aproximadamente 1.200 megawatts.
As quatro turbinas restantes ainda estão em fase de instalação, em um contrato que, desde 2023, ficou a cargo de um consórcio que inclui a empresa chinesa Yellow River. A conclusão integral está prevista para 2027, quando a usina deverá atingir seu potencial máximo. Entre janeiro e abril de 2026, mesmo operando parcialmente, a planta gerou mais de 3.160 gigawatts-hora e respondeu por cerca de 11% da demanda nacional, segundo a operadora.
A crise de 2018 que quase virou tragédia
Aqui está o capítulo que não pode ser esquecido ao contar a história dessa usina. Em abril e maio de 2018, quando a obra estava a poucas semanas de ser concluída, um dos túneis de desvio do rio foi obstruído, fazendo o nível da água subir perigosamente dentro da estrutura ainda inacabada. O risco de um colapso total da barragem, que ameaçaria mais de 120 mil pessoas rio abaixo, tornou-se real e iminente.
Em uma decisão desesperada, os engenheiros optaram por inundar deliberadamente a casa de força quase pronta, sacrificando equipamentos para aliviar a pressão e evitar o rompimento. Em 12 de maio de 2018, o túnel principal se desobstruiu de forma abrupta, liberando uma enorme massa de água que inundou áreas rio abaixo e devastou o povoado de Puerto Valdivia. Dezenas de milhares de pessoas foram evacuadas às pressas nos municípios da região, e muitas só puderam voltar para casa mais de um ano depois.
Os danos que a propaganda costuma esconder
A crise teve desdobramentos que vão muito além do atraso na obra. A EPM passou a ser alvo de investigações por suposta corrupção e por danos ambientais relacionados ao projeto, e o episódio gerou prejuízos estimados em centenas de milhões de dólares, além de anos de adiamento. Para muitos críticos, a pressa política e financeira teria atropelado cuidados geológicos e de segurança que uma obra desse porte exigia.
Houve também impacto ambiental severo. Em 2019, o fechamento de comportas chegou a reduzir drasticamente a vazão do rio Cauca, matando grande quantidade de peixes e gerando o que autoridades classificaram como emergência ambiental, com efeitos sobre comunidades que dependem do rio para subsistência. Por isso, apresentar Hidroituango apenas como triunfo de engenharia, sem mencionar esses custos humanos e ambientais, seria contar só metade da história.
Energia, El Niño e segurança hídrica
Apesar de toda a polêmica, a usina cumpre hoje um papel relevante no sistema elétrico colombiano. Por operar em um regime de cheias e secas alternadas, Hidroituango funciona como um ativo estratégico nos períodos de estiagem intensa provocados pelo fenômeno El Niño, ajudando a estabilizar o fornecimento e a conter variações bruscas nas tarifas de energia durante os meses mais secos.
A legislação colombiana ainda obriga a destinação de recursos do setor elétrico para obras de abastecimento de água e saneamento nos municípios afetados, e a empresa gestora afirma ter investido centenas de bilhões de pesos em infraestrutura local, beneficiando mais de 300 mil habitantes em doze municípios de Antioquia. São tentativas de compensar, ao menos em parte, os impactos sofridos pela população durante a crise.
O paralelo com o Brasil
Para o leitor brasileiro que acompanha energia, a história de Hidroituango traz lições familiares. O Brasil, que tem na hidreletricidade a base da sua matriz, conhece bem tanto a grandiosidade dessas obras, como Itaipu e Belo Monte, quanto os riscos associados a grandes barragens, ainda mais após tragédias como as de Mariana e Brumadinho, ligadas à mineração, mas que acenderam o debate nacional sobre segurança de estruturas de contenção.
O caso colombiano reforça que megaobras de energia exigem não apenas capacidade técnica e investimento, mas também rigor geológico, transparência e planos sólidos de gestão de risco e de proteção às comunidades. Em um momento em que o mundo busca fontes de energia mais limpas, as hidrelétricas seguem estratégicas, mas o custo humano e ambiental precisa entrar na conta desde o primeiro projeto, e não apenas depois que a crise acontece.
A usina de Hidroituango é, ao mesmo tempo, um símbolo da capacidade de engenharia da Colômbia e um alerta sobre os riscos de grandes obras de infraestrutura. Depois de quase virar uma catástrofe em 2018, ela se reergueu e hoje fornece uma fatia importante da energia do país, ainda que opere com metade da capacidade e sob a sombra de investigações e de impactos ambientais. É uma história de resiliência, mas também de lições duras sobre o preço de subestimar os perigos de domar um grande rio. O desfecho final só será conhecido quando a obra for concluída e seus efeitos, plenamente avaliados.
E você, o que acha de megaobras como a usina de Hidroituango, que entregam muita energia mas carregam riscos enormes para as populações próximas? Acredita que vale a pena, ou os perigos são grandes demais? Deixe seu comentário, conte sua opinião sobre o futuro das grandes hidrelétricas e compartilhe a matéria com quem se interessa por energia, engenharia e meio ambiente.


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