Estudo realizado pela Revista nature, com tomografia de alta resolução revelou perda óssea significativa na tíbia dos tripulantes das missões Polaris Dawn e Fram2 da SpaceX após apenas 3 a 5 dias em microgravidade, com deterioração trabecular mensurável e diferenças entre homens e mulheres que surpreenderam os pesquisadores.
A ideia de que o espaço enfraquece os ossos não é nova, mas o que um estudo recente acaba de demonstrar muda a compreensão sobre a velocidade desse processo. Os 8 tripulantes das missões Polaris Dawn e Fram2 da SpaceX voltaram à Terra com sinais mensuráveis de perda óssea na tíbia após apenas 3 a 5 dias em microgravidade, um intervalo de tempo que até então era considerado curto demais para produzir alterações esqueléticas detectáveis. Os dados foram obtidos por tomografia computadorizada quantitativa periférica de alta resolução, técnica que permite avaliar não apenas a densidade, mas toda a microarquitetura interna do osso.
O resultado mais inesperado foi a diferença entre os sexos. Os tripulantes do sexo masculino apresentaram deterioração trabecular mais que o dobro da observada nas mulheres, com perda média de densidade óssea de 0,95% contra 0,24% no mesmo período. As mulheres, por sua vez, mostraram maior aumento na porosidade cortical. Os dados sugerem que o esqueleto masculino pode ser mais sensível à ausência de carga mecânica, enquanto o feminino responde de forma diferente, com vulnerabilidade concentrada na camada externa do osso. O estudo envolveu quatro homens e quatro mulheres e foi publicado com base em exames realizados antes e depois dos voos.
O que a tomografia de alta resolução revelou sobre os ossos dos tripulantes

A equipe de pesquisadores utilizou a HR-pQCT, uma modalidade de imagem que supera a tradicional densitometria óssea por avaliar a microarquitetura tridimensional dos compartimentos cortical e trabecular. Os exames realizados na tíbia dos tripulantes mostraram reduções significativas na densidade óssea total e na densidade trabecular, acompanhadas de diminuição na espessura das trabéculas e aumento na separação entre elas, indicadores claros de enfraquecimento estrutural.
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Em contraste, o rádio distal, osso do antebraço que não sustenta peso corporal, não apresentou alterações relevantes. Esse padrão confirma o que estudos anteriores já indicavam: a perda óssea em microgravidade concentra-se nos ossos que normalmente suportam carga, como a tíbia e a coluna vertebral. A diferença entre os dois sítios esqueléticos reforça a hipótese de que a ausência de estímulo mecânico é um dos principais fatores por trás da deterioração, embora os mecanismos exatos ainda não estejam completamente esclarecidos.
Por que os homens perderam mais osso do que as mulheres em tão pouco tempo
A análise separada por sexo trouxe dados que os próprios pesquisadores classificaram como surpreendentes. Na tíbia, os tripulantes do sexo masculino apresentaram perda de densidade óssea mais que o dobro da registrada nas mulheres, além de reduções mais expressivas na fração de volume ósseo trabecular e aumento maior na separação entre as trabéculas. A carga de ruptura estimada, que mede a resistência do osso a fraturas, diminuiu nos homens e apresentou leve aumento nas mulheres.
Uma possível explicação é que o esqueleto masculino, por ser tipicamente mais denso e suportar maior peso corporal, pode ser mais responsivo tanto ao estímulo mecânico quanto à sua ausência. Os homens da amostra eram, em média, 14,9 quilos mais pesados e 15 anos mais velhos que as mulheres, o que torna difícil isolar completamente o efeito do sexo do efeito da idade. As mulheres, embora relativamente protegidas no compartimento trabecular, mostraram aumento de 8,66% na porosidade cortical, contra 3,37% nos homens, sugerindo que o osso cortical feminino pode ser mais suscetível à degradação sob exposição de curto prazo à microgravidade.
O que diferenciou as missões Polaris Dawn e Fram2 e como isso afetou os resultados
Os tripulantes da Polaris Dawn permaneceram quase cinco dias em órbita em 10 de setembro de 2024 e retornou em 15 de setembro de 2024, totalizando 118 horas e 13 minutos, enquanto a equipe da Fram2 lançada em março/abril de 2025 passou aproximadamente três dias e meio no espaço, com 86 horas e 33 minutos. Ambas as missões utilizaram a espaçonave Crew Dragon da SpaceX, mas seguiram trajetórias orbitais diferentes: a Polaris Dawn operou em órbita elíptica de alta altitude, e a Fram2, em órbita polar.
A exposição à radiação foi drasticamente diferente entre as duas missões. Os dosímetros registraram 1.378 mrem para a Polaris Dawn e 149 mrem para a Fram2, uma diferença de quase nove vezes. Como a radiação pode comprometer a integridade óssea, a combinação de maior tempo em microgravidade e maior exposição à radiação pode ter amplificado a perda óssea nos tripulantes da Polaris Dawn. Os pesquisadores observaram deterioração ligeiramente mais acentuada nesse grupo, embora o tamanho reduzido da amostra impeça conclusões definitivas sobre a contribuição isolada de cada fator.
Como os pesquisadores descartaram que a perda óssea fosse causada pelo envelhecimento natural
Um aspecto metodológico fortaleceu significativamente as conclusões do estudo. A missão Polaris Dawn havia sido programada originalmente para setembro de 2022, mas só foi lançada em setembro de 2024. Isso permitiu que os tripulantes realizassem dois exames de tomografia antes do voo, separados por dois anos, criando uma linha de base que mostra como seus ossos se comportaram em condições terrestres normais durante esse intervalo.
Os resultados foram claros: ao longo dos dois anos na Terra, nenhuma alteração significativa foi detectada na densidade, na microarquitetura ou na resistência óssea dos tripulantes. A variação mediana na densidade trabecular antes do voo foi de +0,28%, enquanto após o voo espacial caiu para -1,41%. Esse contraste comprova que as mudanças observadas após o retorno não podem ser atribuídas ao envelhecimento, mas sim à exposição à microgravidade, mesmo por um período tão curto quanto três a cinco dias.
O que esses resultados significam para o futuro das viagens espaciais
A principal implicação do estudo é prática. Se a perda óssea começa em dias, e não em semanas ou meses como se supunha, então missões de curta duração podem ser utilizadas como campo de testes para avaliar contramedidas antes de aplicá-las em viagens longas, como uma eventual missão a Marte. Os pesquisadores sugerem que futuros estudos combinem o protocolo de tomografia com exercícios em apenas um dos membros durante o voo, permitindo comparações internas no mesmo indivíduo.
Os tripulantes da Fram2, por exemplo, realizaram 30 minutos de exercícios com faixas de resistência durante a missão a bordo da Crew Dragon da SpaceX, enquanto a equipe da Polaris Dawn participou de um experimento de restrição de fluxo sanguíneo sem exercício simultâneo. A possibilidade de testar intervenções em missões curtas acelera o desenvolvimento de soluções e reduz a dependência de missões longas para validar cada nova abordagem. Os pesquisadores reconhecem, porém, que o tamanho da amostra é uma limitação e que estudos futuros com grupos maiores e equilíbrio entre sexos serão essenciais para confirmar os padrões observados.
Você sabia que bastam poucos dias no espaço para os ossos começarem a enfraquecer, ou imaginava que isso levasse meses? Conte nos comentários o que pensa sobre os riscos físicos das viagens espaciais e se acredita que a ciência encontrará uma solução antes de mandarmos humanos para Marte.

