Entidades cobram do governo um calendário para encerrar os leilões de petróleo no Brasil e alertam para riscos econômicos, ambientais e sociais se a transição energética não sair do papel.
O futuro do petróleo no Brasil entrou novamente em rota de colisão com a agenda ambiental. Enquanto o governo federal corre contra o tempo para entregar um plano de transição energética, organizações da sociedade civil acendem o alerta: sem prazos claros, o país pode continuar preso a um modelo que ameaça tanto o meio ambiente quanto a economia.
O plano foi solicitado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva após a COP30 e precisa ser apresentado pelos ministérios até fevereiro.
No entanto, até agora, o conteúdo segue envolto em mistério. Em meio a essa falta de transparência, mais de 130 organizações reunidas no Observatório do Clima decidiram agir.
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Pressão direta ao governo expõe falta de diálogo
As entidades entregaram ao governo federal uma lista detalhada de recomendações para orientar a política energética do país nos próximos anos.
O objetivo é claro: reduzir a dependência dos combustíveis fósseis, especialmente do petróleo, e acelerar a entrada do Brasil em uma economia de baixo carbono.
No entanto, o processo tem sido marcado por críticas. Segundo o grupo, não houve diálogo suficiente com a sociedade civil até agora.
“Não há muita clareza sobre o que está sendo construído. O prazo curto não permite um diálogo amplo com a sociedade, mas tem sido prometido um processo mais participativo posteriormente. A nossa proposta também pode servir como referência para a presidência da COP no âmbito internacional nos próximos meses”, afirmou o líder de transição energética do WWF Brasil, Ricardo Fujii, em conversa com jornalistas.
Fim dos leilões de petróleo vira o ponto mais explosivo
Entre todas as recomendações, uma delas é considerada a mais polêmica: a criação de um calendário oficial para o fim dos leilões de petróleo no Brasil. A proposta sugere que o país passe a atender sua demanda interna apenas com os poços já existentes, sem abrir novas áreas de exploração.
Além disso, o Observatório do Clima propõe que a produção de petróleo seja reduzida ao mínimo necessário, abandonando a lógica de expansão máxima que domina o setor há décadas.
O grupo também quer proibir a exploração em regiões consideradas sensíveis, como a Margem Equatorial e a Foz do Amazonas, áreas que vêm sendo disputadas por interesses econômicos e ambientais.
Subsídios, Petrobras e ativos que podem virar sucata
O documento vai além da exploração. Ele atinge diretamente o modelo econômico que sustenta o petróleo no país.
As entidades defendem a revisão e a eliminação gradual dos subsídios aos combustíveis fósseis, que hoje consomem bilhões dos cofres públicos.
Outro ponto sensível é a Petrobras. O relatório recomenda uma reformulação profunda da estratégia da estatal, com mais investimentos em energias renováveis e menos dependência do petróleo.
Segundo o próprio Observatório do Clima, até 85% dos ativos da Petrobras podem se tornar obsoletos em cenários alinhados à meta global de limitar o aquecimento do planeta a 1,5°C.
Na prática, isso significa plataformas, refinarias e poços que podem virar ativos encalhados, sem valor econômico.
Impactos sociais e o medo do desemprego
Para as organizações, abandonar os combustíveis fósseis não pode significar abandono de trabalhadores. Por isso, o plano sugere a criação de um programa nacional de desativação das infraestruturas fósseis, acompanhado de requalificação profissional e geração de empregos verdes.
“Quando falamos em acabar com o uso do carvão mineral para a geração de eletricidade, por exemplo, estamos falando de apenas 1,3% da matriz elétrica. O mais importante é ter planejamento para as regiões afetadas e garantir renda e alternativas de trabalho para os trabalhadores. Manter essas fontes é mais prejudicial. A energia nuclear, além disso, é muito cara e desvia recursos que poderiam ser usados na transição”, explica Suely Araújo, coordenadora de políticas públicas do Observatório do Clima.
Você acha que o Brasil deveria mesmo colocar uma data para acabar com os leilões de petróleo, mesmo que isso mexa com empregos, preços e a economia? Ou a proposta é fora da realidade?

