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Fazendeiros de Nevada são chamados de loucos ao despejar milhões de abelhas nativas sobre um deserto branco de sal sem colmeias nem proteção, mas os insetos passam a viver em túneis subterrâneos, salvam a produção de sementes de alfafa e fazem a colheita render até quatro vezes mais

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Escrito por Carla Teles Publicado em 13/09/2026 às 19:12 Atualizado em 13/09/2026 às 19:13
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Abelhas nativas vivem em túneis subterrâneos no solo alcalino de Nevada e ajudam a polinizar alfafa, aumentando a produção de sementes.
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As abelhas nativas conhecidas como abelhas alcalinas escavam ninhos em solos úmidos sob crostas salinas e são polinizadoras eficientes da alfafa. Registros históricos de Lovelock, em Nevada, mostram que produtores dependeram desses insetos para sementes antes de perdas provocadas por inseticidas alterarem o sistema agrícola local em parte do estado.

No terreno árido de Nevada, algumas abelhas nativas encontraram justamente no solo alcalino e coberto por sais um lugar adequado para construir seus ninhos. A espécie Nomia melanderi, conhecida como abelha alcalina, vive no chão e desenvolveu uma relação particularmente eficiente com as flores de alfafa cultivadas para produção de sementes.

Um vídeo publicado pelo canal MACHINE WORLD PT em 24 de dezembro de 2025 transformou essa relação biológica em uma narrativa de agricultores enfrentando um ambiente quase impossível. O fenômeno, porém, é mais antigo: registros científicos e documentos agrícolas mostram que produtores do Oeste dos Estados Unidos aprenderam há décadas a preservar e até construir áreas de solo específicas para manter grandes populações dessas abelhas.

O solo branco que parece hostil é justamente onde as abelhas conseguem viver

A aparência do terreno ajuda a explicar por que a estratégia causa estranhamento. As abelhas alcalinas não dependem das tradicionais caixas de madeira associadas à apicultura. As fêmeas são solitárias e escavam seus próprios ninhos diretamente no chão, embora milhares delas possam ocupar a mesma área.

A espécie ocorre naturalmente em regiões áridas e semiáridas do Oeste norte-americano e procura condições bastante específicas. O solo precisa apresentar características adequadas de textura, umidade subterrânea e sais minerais. Por isso, produtores chegaram a construir os chamados bee beds, áreas preparadas e irrigadas por baixo para reproduzir as condições encontradas nos locais naturais de nidificação.

Essa combinação parece contraditória à primeira vista. A superfície pode estar seca e apresentar uma crosta salina, enquanto camadas mais profundas precisam conservar umidade suficiente para os túneis e para o desenvolvimento das crias. O que parece um pedaço improdutivo de solo pode abrigar uma enorme concentração de polinizadores.

Dados reunidos pelo Departamento de Agricultura dos Estados Unidos mostram que áreas manejadas podem alcançar centenas de ninhos por metro quadrado e que algumas das maiores agregações conhecidas chegaram a aproximadamente 1,5 milhão de ninhos. Há locais mantidos por produtores durante décadas com controle da umidade e de outros fatores ambientais.

A flor da alfafa possui um mecanismo que dificulta o trabalho das abelhas de mel

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A importância desses insetos aparece quando chega o momento da floração. Para produzir sementes, a alfafa depende de polinização eficiente, mas sua flor possui um mecanismo peculiar: parte da estrutura floral permanece sob tensão e precisa ser acionada durante a visita do inseto.

Quando isso ocorre, o aparelho reprodutivo da flor se desloca rapidamente e entra em contato com a abelha. As abelhas alcalinas realizam esse processo com grande eficiência ao coletar pólen, transferindo-o posteriormente entre as flores.

As abelhas de mel também podem visitar alfafa, mas são menos adequadas para esse trabalho. Muitas aprendem a alcançar o néctar evitando o mecanismo que libera a estrutura floral, reduzindo sua contribuição para a formação das sementes. Outros polinizadores, como a abelha-cortadeira-da-alfafa, também passaram a ser amplamente utilizados pelos agricultores.

Um plano técnico sobre produção de sementes de alfafa registra que as fêmeas de abelha alcalina acionam pelo menos 95% das flores que visitam durante a coleta de pólen. Essa característica ajuda a explicar por que uma população numerosa próxima das plantações pode ter efeito tão expressivo sobre a formação das vagens.

Nevada já teve produtores dependendo dessas abelhas para colher sementes

A ligação com Nevada não é apenas teórica. Um documento histórico do próprio estado relata a experiência de produtores do Vale de Lovelock com a produção de sementes de alfafa e com os insetos utilizados para polinizar as lavouras.

O agricultor Brinkerhoff relatou que abelhas alcalinas que viviam no solo funcionaram bem durante aproximadamente três anos, até que o uso de um inseticida inadequado eliminou a população. Depois disso, segundo o registro, a produtividade das sementes caiu, e os produtores acabaram recorrendo às abelhas-cortadeiras.

O mesmo documento registrava produção média entre 450 e 500 libras de sementes de alfafa por acre na região de Lovelock, com possibilidade de alcançar cerca de 1.000 libras quando as condições eram favoráveis. Isso mostra como a disponibilidade de polinizadores fazia parte de uma equação agrícola que também envolvia irrigação, clima e manejo da cultura.

As Academias Nacionais de Ciências dos Estados Unidos também apontam Lovelock como uma das regiões onde produtores chegaram a construir grandes áreas de nidificação com irrigação subterrânea e superfície coberta por sais para favorecer a Nomia melanderi. O manejo de uma abelha que vive debaixo da terra tornou-se, assim, parte da própria tecnologia agrícola.

Inseticidas e mudanças no campo contribuíram para o declínio das populações

O sistema também revelou sua vulnerabilidade. As abelhas precisam abandonar os ninhos diariamente para procurar flores, o que as coloca em contato com áreas agrícolas além do local protegido pelos produtores.

Exposição a pesticidas, alagamentos dos ninhos, tráfego e predadores estão entre os fatores capazes de causar mortalidade. As Academias Nacionais registram ainda que mudanças econômicas contribuíram para o abandono de áreas de nidificação em diferentes regiões, enquanto o uso de outros polinizadores aumentava.

Em Nevada, a documentação histórica é particularmente clara ao relacionar a perda de uma população utilizada em Lovelock ao emprego do inseticida errado. A experiência ajuda a explicar por que preservar o polinizador pode ser tão importante quanto proteger a própria plantação que depende dele.

Estudos modernos continuam tratando a abelha alcalina como um caso singular. Uma revisão publicada em 2024 no Annual Review of Entomology a descreve como a única abelha de nidificação subterrânea manejada intensivamente em escala agrícola e destaca sua relevância para a produção de sementes de alfafa no Oeste dos Estados Unidos.

Milhões de abelhas podem surgir sem que exista uma única colmeia

A escala é uma das partes mais impressionantes dessa técnica. Em condições adequadas, os insetos não precisam formar colmeias coletivas. Cada fêmea mantém seu próprio ninho, mas a concentração pode atingir números enormes quando muitas escolhem o mesmo terreno.

Referências utilizadas no planejamento da produção de sementes de alfafa indicam que bons locais naturais podem reunir aproximadamente 1 milhão de abelhas por acre e que áreas artificiais especialmente preparadas podem alcançar densidades ainda superiores. Milhões de indivíduos podem, portanto, ocupar um pedaço relativamente pequeno de solo sem formar uma colmeia convencional.

Depois de emergirem, as fêmeas visitam repetidamente as flores de alfafa, retornam ao solo com pólen e abastecem pequenas câmaras subterrâneas onde serão criadas as novas gerações. O processo conecta duas estruturas aparentemente independentes: a plantação visível acima da superfície e uma população inteira de polinizadores escondida abaixo dela.

É essa relação que tornou a Nomia melanderi tão valiosa. O USDA estima que o trabalho realizado por uma única fêmea ao longo da vida pode estar associado à produção de cerca de um terço de libra de sementes de alfafa. Multiplicado por populações que chegam à casa dos milhões, o efeito deixa de ser pequeno.

Uma solução agrícola construída ao redor do comportamento de um inseto

A história real das abelhas alcalinas é menos sobre despejar insetos em um deserto e mais sobre compreender um sistema biológico que já existia. Agricultores perceberam que, em vez de obrigar o polinizador a viver em estruturas convencionais, poderiam adaptar pequenas áreas da fazenda às exigências naturais de uma espécie que já estava preparada para aquele ambiente.

O resultado é um dos exemplos mais incomuns de manejo de polinizadores na agricultura norte-americana. Um solo salino que poderia parecer inútil passa a ter outra função: oferecer espaço para ninhos de uma abelha capaz de executar de forma extremamente eficiente uma das etapas decisivas da produção de sementes de alfafa.

A experiência registrada em Nevada também mostra o outro lado dessa relação. Quando os insetos desapareceram de áreas agrícolas, produtores precisaram buscar alternativas. Quando condições adequadas são preservadas, por outro lado, grandes populações podem continuar usando o mesmo tipo de habitat durante décadas.

Você imaginava que um terreno branco, salino e aparentemente vazio pudesse esconder milhões de polinizadores responsáveis por ajudar uma lavoura a produzir sementes? Na sua opinião, produtores deveriam reservar mais áreas das propriedades para espécies nativas que prestam esse tipo de serviço? Conte nos comentários.

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Carla Teles

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