As terras raras, grupo de 17 elementos usados em celulares, trens, lasers, cabos de fibra óptica e equipamentos militares, voltaram ao centro da disputa global por causa do domínio chinês no processamento, da pressão sobre a cadeia de suprimentos e da busca por novas fonts nos rejeitos de minas antigas
A disputa em torno das terras raras ganhou novo peso no debate global por causa do papel desses elementos em tecnologias do cotidiano, equipamentos industriais e sistemas militares, além da preocupação crescente com oferta, processamento e influência chinesa nesse mercado.
Apesar do nome, as terras raras não são exatamente raras na crosta terrestre, mas a dificuldade de extração segura e de processamento em escala ajuda a explicar por que o tema se tornou central em discussões econômicas, ambientais e geopolíticas.
As terras raras reúnem 17 elementos químicos. Entre eles estão o escândio, o ítrio e os 15 lantanídeos, que vão do lantânio ao lutécio na tabela periódica.
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Muitos compartilham propriedades magnéticas, condutoras e ópticas que permitem seu uso como revestimentos e aditivos em ligas metálicas, vidros e outros materiais empregados em uma ampla variedade de tecnologias modernas.
Esses elementos aparecem em motores a jato, lâmpadas de LED, cabos de fibra óptica, lasers e diversas tecnologias militares. Em alguns casos, as terras raras são consideradas insubstituíveis, especialmente em aplicações que dependem de desempenho magnético elevado e miniaturização de componentes.
O neodímio e o praseodímio, por exemplo, possibilitaram a fabricação de ímãs superpotentes usados em telefones, computadores, trens de alta velocidade e máquinas de ressonância magnética.
Mesmo aplicações menos associadas à alta tecnologia dependem desses materiais. Os cintos de segurança de automóveis usam ímãs de terras raras, não por uma exigência específica de engenharia, mas porque esse era o tipo de ímã disponível quando o mecanismo de retração foi desenvolvido.
O que são e por que as terras raras importam
O peso das terras raras está menos em seu nome e mais em sua utilidade prática. Elas sustentam uma cadeia de tecnologias que vai de dispositivos eletrônicos a equipamentos médicos e de transporte, além de sistemas empregados por forças armadas. Isso ajuda a explicar por que sua presença na economia global é tratada como estratégica.
A expressão “terras raras” remonta ao século XVIII, quando o ítrio foi descoberto na Suécia. Na época, esses elementos eram considerados raros porque ainda eram desconhecidos, mas hoje se sabe que estão distribuídos em várias partes do mundo.
Em termos elementares e mineralógicos, representam uma parcela considerável da matéria que compõe a crosta terrestre, e os tipos mais usados são tão abundantes quanto o cobre ou o chumbo.
O problema está em outro ponto. As condições geológicas que concentram terras raras em níveis mais elevados também podem concentrar materiais radioativos, o que torna a extração mais difícil, amplia riscos e eleva os custos para recuperar esses recursos com segurança.
Por que o nome engana e o mercado parece instável
Embora a extração seja complexa, isso não significa que as terras raras sejam metais caros. Elas costumam ser negociadas por valores muito inferiores aos de metais preciosos, como ouro e platina. Na China, que concentra 30% das reservas comprovadas de terras raras do mundo, as minas chegam a descartar até metade do material extraído porque os preços não justificam o esforço de recuperar uma parcela maior dos recursos.
A percepção de escassez ganhou força em 2010, quando uma disputa diplomática levou a China a cortar temporariamente o acesso do Japão a elementos de terras raras. O episódio foi breve, mas teve forte repercussão entre fabricantes de tecnologia e alimentou uma narrativa de vulnerabilidade que continuou influenciando políticas nos anos seguintes.
Essa sensação de ameaça foi ampliada pelo contexto cultural da época. Poucos meses antes, em dezembro de 2009, o filme “Avatar” havia chegado aos cinemas com uma trama centrada na exploração de um material extremamente valioso chamado “unobtanium”. A coincidência entre o sucesso do filme e a crise diplomática ajudou a popularizar uma visão dramática sobre o tema.
O papel da China no fornecimento e no processamento
A dominância chinesa no setor não decorre apenas da presença de reservas. As terras raras estão espalhadas pelo mundo, mas a China construiu uma posição desproporcional nas etapas intermediárias decisivas para transformar a rocha retirada do solo em componentes tecnológicos úteis. É nessa infraestrutura e nessa expertise de processamento que reside a principal força do país no mercado.
Além disso, outros países e setores ajudaram a sustentar esse fortalecimento ao manter o comércio desses materiais. A continuidade dessas relações interessa tanto a compradores quanto a vendedores, o que reduz a probabilidade de rupturas prolongadas no fornecimento internacional.
Oscilações de preço e problemas na cadeia de suprimentos tendem a ocorrer de forma episódica, e não contínua. Para empresas localizadas dentro e fora da China, o interesse comercial favorece a manutenção dos vínculos, já que o isolamento pode prejudicar os próprios negócios envolvidos no setor de terras raras.
Rejeitos de mineração podem virar nova fonte de terras raras
Nos Estados Unidos, uma possibilidade considerada promissora está na recuperação de terras raras e outros minerais importantes a partir dos rejeitos acumulados em minas antigas e em operação. Um estudo recente indicou que boa parte da demanda interna pode ser atendida com o aproveitamento desse material já descartado.
A proposta combina interesse econômico com um possível ganho ambiental. Em vez de depender apenas de novas frentes de mineração, a recuperação em rejeitos pode permitir o reaproveitamento de recursos já disponíveis em áreas problemáticas e abandonadas, transformando passivos antigos em fonte de suprimento.
Esse caminho também aparece ligado a uma agenda mais ampla de transição para longe dos combustíveis fósseis e de mitigação das mudanças climáticas.
A discussão inclui quanto das matérias-primas necessárias para painéis solares e parques eólicos já está sendo usada hoje em tecnologias prejudiciais ao clima, como os equipamentos voltados à extração e ao refino de petróleo.
A avaliação apresentada aponta que há caminhos viáveis para conciliar a expansão das tecnologias necessárias, a proteção de áreas sensíveis e a limpeza de regiões altamente contaminadas. Nesse cenário, as terras raras deixam de ser apenas um tema de escassez e disputa comercial e passam a ocupar também o centro de uma possível economia circular.

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