A descoberta de um tear de quase 3.500 anos em Cabezo Redondo, no sul da Espanha, revelou uma produção têxtil mais sofisticada na Idade do Bronze, com indícios de tecidos mais densos, variados e até de uma possível sarja primitiva muito antes do que se imaginava
O tear da Idade do Bronze encontrado em Cabezo Redondo, no sul da Espanha, permitiu a reconstrução parcial de uma estrutura têxtil datada do segundo milênio a.C. e revelou um nível de produção mais avançado do que o normalmente associado à época, com indícios de tecidos mais complexos e possível uso de lã.
A análise foi conduzida a partir de vigas de madeira carbonizadas, cordas de fibra vegetal e pesos de argila descobertos no assentamento arqueológico. O conjunto foi identificado como parte de um tear de urdidura ponderada, um tipo amplamente usado na Europa pré-histórica e no Mediterrâneo para a produção de tecidos com fios mantidos na vertical por pesos fixados na extremidade inferior.
Como esses teares eram feitos sobretudo de madeira e materiais vegetais, a preservação completa é rara no registro arqueológico.
-
A força bruta das ondas vira energia limpa quase sem desperdício, é o que promete um conversor giroscópico criado no Japão que, em simulações, se acopla ao balanço do mar e alcança o limite máximo de 50% de aproveitamento, deixando para trás os geradores marítimos antigos
-
Telescópio espacial da NASA já tem 73% das imagens contaminadas por rastros de satélites, e cientistas alertam que o problema pode chegar a 100% se milhões de objetos forem lançados na órbita baixa da Terra
-
De uniforme descartado a cobertor para quem dorme nas ruas: iniciativa brasileira transforma toneladas de tecido corporativo em abrigo, reduz lixo têxtil e cria uma corrente de impacto social que começa nas empresas e termina nas mãos de quem mais precisa
-
Engenheiros da Noruega desenvolvem uma barcaça submersível para levantar estruturas de 2.500 toneladas sem depender dos maiores navios-guindaste do mundo, visando reduzir os custos da instalação de turbinas eólicas em alto-mar
Por isso, a maior parte do conhecimento acumulado sobre a produção têxtil antiga vinha até agora principalmente dos pesos de tear e de fusos, e não da estrutura dos equipamentos em si.
Tear de Cabezo Redondo amplia leitura sobre a Idade do Bronze
O estudo foi liderado por Ricardo E. Basso Rial, da Universidade de Granada, e tratou o achado como uma oportunidade incomum de observar a morfologia do tear, sua organização espacial e práticas de tecelagem. A preservação dos elementos de madeira ajudou a superar uma limitação recorrente nas pesquisas sobre a produção têxtil da Idade do Bronze no sudeste da Península Ibérica.
A produção têxtil nessa região já era conhecida por meio do estudo de pesos de tear e fusos. Ainda assim, a ausência quase constante dos componentes de madeira restringia reconstruções mais detalhadas sobre o funcionamento do tear e sobre as técnicas aplicadas no cotidiano dessas comunidades.
O caso de Cabezo Redondo se destaca justamente porque preservou, além dos pesos, partes estruturais do equipamento e cordas de fibra vegetal. Isso faz do conjunto um dos exemplos mais bem preservados de tear com pesos na urdidura já identificados no Mediterrâneo ocidental.
Estrutura preservada indica tecidos mais finos e variados
A equipe concluiu que os elementos de madeira do tear foram feitos de pinheiro-de-alepo, árvore nativa da região. Já os pesos de argila chamaram atenção por serem muito mais leves do que outros conhecidos na faixa mediterrânea da Península Ibérica.
Esse detalhe levou os pesquisadores a considerar que o tear poderia ter sido projetado para a confecção de tecidos mais finos ou mais variados. As características do conjunto também sugerem a capacidade de produzir não apenas tecidos de tafetá aberto, mas peças mais densas e tecnicamente mais complexas.
Entre essas possibilidades está a produção inicial de tecidos de sarja, hipótese tratada como um avanço importante para a compreensão da tecnologia têxtil da Idade do Bronze na Península Ibérica. A reconstrução parcial do tear, nesse contexto, amplia o alcance das evidências disponíveis sobre a sofisticação das práticas de tecelagem no período.
Possível sarja primitiva aponta mudança na produção têxtil
A tecelagem em tafetá, frequentemente associada a fibras vegetais como o linho, predominou do Neolítico até a Idade do Bronze. Já a sarja só se tornaria comum no início do primeiro milênio a.C., o que torna a hipótese levantada em Cabezo Redondo especialmente relevante para o estudo da evolução das técnicas têxteis.
Os tecidos de sarja costumavam ser produzidos com lã, e essa associação reforça a possibilidade de que o assentamento tenha participado de uma transformação mais ampla na produção têxtil. Essa mudança envolveria maior uso de lã e uma diversificação crescente dos tipos de tecido fabricados.
Para os pesquisadores, o valor do achado está também no fato de o tear ter sido encontrado praticamente congelado no momento em que estava em uso, há quase 3.500 anos.
A descoberta oferece um raro retrato do trabalho cotidiano da tecelagem na Idade do Bronze e amplia de forma direta o entendimento sobre o desenvolvimento técnico dessa atividade no Mediterrâneo ocidental.

Seja o primeiro a reagir!