Em uma operação de dragagem que pretendia apenas extrair areia para uma ilha artificial, uma empresa indonésia trouxe à superfície mais de 6 mil fósseis de um ecossistema que existiu há 140 mil anos — incluindo dois crânios de Homo erectus, o primeiro registro humano do continente perdido de Sundaland
Entre 2014 e 2015, uma empresa indonésia dragou mais de 5 milhões de metros cúbicos de areia do fundo do Estreito de Madura, entre as ilhas de Java e Madura.
O objetivo era simples: construir uma ilha artificial próxima ao porto de Surabaya.
Ninguém esperava o que veio junto com a areia.
-
Do lixo da lavoura a 50 mil toneladas de biochar por ano, cientistas chineses criam tecnologia verde que vira adubo, armazena energia e agora aponta para o querosene de avião
-
Tijolão de 500 g e tela esverdeada, o primeiro smartphone do mundo saiu em 1994 por US$ 899 e, corrigido pela inflação, custaria hoje R$ 6.222, o preço de um iPhone 16 Plus
-
Robô mergulhou nas profundezas do oceano Atlântico e registrou imagens inéditas em alta definição de uma rara lula-gigante
-
Com 100 mil m² e até 100 aviões, São Paulo ativa o maior acervo de aviação militar do país, que a FAB quer transformar em um dos cinco maiores do mundo — mas só abre em 2027
Misturados aos sedimentos estavam mais de 6 mil fósseis de vertebrados — elefantes extintos, hipopótamos, tigres, tubarões de água doce e ancestrais dos dragões de Komodo.
E, entre todos eles, dois fragmentos cranianos de Homo erectus datados de 140 mil anos atrás.
Segundo estudo publicado na revista Quaternary Environments and Humans, liderado pelo arqueólogo Harold Berghuis, esse é o primeiro registro fóssil de hominídeos proveniente das terras submersas de Sundaland.

Um continente do tamanho da Europa que desapareceu debaixo do mar
Sundaland era uma vasta extensão de terra firme que conectava as ilhas do Sudeste Asiático ao continente.
Durante as eras glaciais, o nível do mar ficava 100 a 120 metros mais baixo que o atual.
Isso expunha uma plataforma continental enorme, unindo Bornéu, Sumatra, Java, Bali e a península da Malásia em uma única massa terrestre.
Quando o gelo derreteu há cerca de 10 mil anos, o mar subiu e engoliu tudo.
O que hoje são ilhas separadas por oceano era, na época, terra contínua com rios, florestas e planícies.
Os cientistas chamam essa região de “continente perdido” porque sua história está literalmente debaixo d’água.
Um ecossistema extremamente fértil sob as ondas
Os mais de 6 mil fósseis recuperados revelam um ecossistema rico e diverso.
Entre os animais identificados estão Stegodon — parentes extintos dos elefantes —, hipopótamos, búfalos, tartarugas e varanos gigantes.
Esses varanos eram ancestrais dos atuais dragões de Komodo.
Havia também tubarões de água doce, o que indica a presença de rios caudalosos.
Alguns fósseis de tartaruga apresentam marcas de corte feitas por ferramentas de pedra — evidência de que humanos processavam esses animais como alimento.
É a primeira vez que marcas assim são encontradas no Sudeste Asiático para esse período.

Homo erectus: o humano que viveu no continente perdido
Os dois crânios encontrados pertencem a um adulto e a um jovem de Homo erectus.
Essa espécie humana chegou à região de Java há 1,8 milhão de anos — é o famoso “Homem de Java”.
Os fósseis do Estreito de Madura datam de 140 mil anos atrás, período em que o Homo erectus já estava em declínio.
Os pesquisadores acreditam que esses indivíduos tinham “um conhecimento detalhado do entorno e sabiam como aproveitar seus recursos ao máximo”.
Cerca de 60 mil anos atrás, o Homo sapiens chegou à região.
As duas espécies podem ter coexistido por milhares de anos.
A partir de Sundaland, os Homo sapiens cruzaram para a Austrália e Nova Guiné há 50 mil anos, tornando-se os ancestrais dos aborígenes australianos e dos melanésios.
Um vale de rio escondido sob o oceano
O local exato da descoberta corresponde ao leito de um antigo vale do rio Solo, que hoje atravessa Java Central.
Durante a glaciação MIS6, entre 190 mil e 130 mil anos atrás, o rio escavou esse vale.
Quando o clima esquentou, o vale foi preenchido por sedimentos.
E quando o mar subiu, tudo foi coberto pelas águas do Estreito de Madura.
Os fósseis ficaram selados sob a areia do fundo do mar por mais de 100 mil anos — até que uma draga os trouxe de volta à superfície.

Similar ao Doggerland europeu, mas muito mais antigo
A Europa tem seu próprio “continente perdido”: o Doggerland, hoje submerso no Mar do Norte.
Ele conectava a Grã-Bretanha ao resto da Europa durante a última glaciação.
Humanos do Mesolítico viveram lá até cerca de 8 mil anos atrás.
Sundaland é comparável em escala, mas os registros humanos são muito mais antigos.
Os Homo erectus de Sundaland viveram 140 mil anos atrás — quase 20 vezes antes dos habitantes de Doggerland.
Um molar de 150 mil anos revela outra espécie humana no mesmo lugar
Além do Homo erectus, há evidências de que os Denisovanos também viviam em Sundaland.
Um molar de uma menina, datado de 150 mil anos, foi encontrado na região.
Os Denisovanos são uma espécie humana extinta conhecida principalmente por DNA extraído de fósseis na Sibéria.
A presença deles no Sudeste Asiático indica que Sundaland era um ponto de encontro de múltiplas espécies humanas.
O que ainda falta descobrir
Os fósseis foram encontrados de forma acidental durante uma dragagem comercial.
Isso significa que o contexto geológico original foi parcialmente destruído.
Os pesquisadores usaram datação por luminescência (OSL) para estimar a idade, mas técnicas adicionais seriam necessárias para confirmar.
Não houve escavação planejada no local — tudo veio junto com a areia.
O arqueólogo Harold Berghuis e sua equipe internacional destacam a necessidade de expedições subaquáticas para mapear o que mais existe sob o Estreito de Madura.
O fundo do mar do Sudeste Asiático pode guardar milhares de sítios arqueológicos que nunca foram explorados.
Sundaland é um continente perdido não porque desapareceu — mas porque ainda não aprendemos a procurá-lo direito.
