A paisagem se manteve intacta porque, naquele trecho do continente, nunca se formou o tipo de gelo capaz de raspar e desgastar o solo. Antes de virar deserto branco, a região teve clima parecido com o sul da Patagônia, com vegetação que chegou a incluir palmeiras antes do gelo dominar tudo.
Sob quase 2 quilômetros de gelo da Antártida, cientistas encontraram uma paisagem antiga esculpida por rios há pelo menos 14 milhões de anos, e possivelmente desde antes de o continente congelar definitivamente. Do tamanho aproximado do País de Gales, a região foi preservada como uma cápsula do tempo e pode ajudar a prever como o gelo vai se comportar e avançar rumo ao oceano em um cenário de aquecimento global.
A descoberta foi publicada em 24 de outubro de 2023 na revista científica Nature Communications, em um estudo liderado pelo geógrafo Stewart Jamieson, da Universidade de Durham, no Reino Unido. Apesar de o trabalho não ser recente, o tema voltou a ganhar destaque nesta semana com novas reportagens sobre como esse relevo escondido pode influenciar as projeções de subida do nível do mar nas próximas décadas.
Onde fica essa paisagem soterrada

A região fica a cerca de 350 quilômetros da borda da calota de gelo e próxima dos glaciares Denman e Totten, que são considerados especialmente sensíveis às variações climáticas e ao aquecimento dos oceanos.
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Segundo o estudo, a paisagem antiga é composta por três blocos de planalto esculpidos pelos rios, separados por vales profundos. O conjunto se estende por cerca de 300 quilômetros de largura, área comparável à do País de Gales, no Reino Unido, ou da região montanhosa de Eryri, em galês, conhecida em inglês como Snowdonia. Tudo isso permaneceu praticamente intacto sob aproximadamente 2 quilômetros de gelo.
Como enxergar rios sob 2 km de gelo
Como ver um terreno enterrado debaixo de uma camada de gelo tão espessa que vencer a olho nu é impossível? A resposta está na combinação de dados de satélite com o chamado radar de penetração no gelo, técnica em que aeronaves disparam ondas de rádio capazes de atravessar a calota e voltar com informações sobre o que existe lá embaixo.
Com essas ferramentas, os pesquisadores conseguem perceber pequenas ondulações na superfície do gelo que, na verdade, refletem o desenho do relevo enterrado. É como se o terreno antigo deixasse uma sombra discreta no topo do gelo, e a tarefa dos cientistas é justamente reconstruir essa imagem usando satélites, modelagem por computador e comparação com áreas já mapeadas em sobrevoos anteriores com radar.
Uma Antártida muito diferente da atual
Os rios que esculpiram essa paisagem fluíram em um período em que a Antártida era um lugar muito diferente do gigantesco deserto branco de hoje. Antes de a grande calota de gelo se formar, há cerca de 34 milhões de anos, o clima do continente lembrava o atual sul da Patagônia, na Argentina e no Chile, com florestas frias e até evidências de vegetação tropical em momentos anteriores, incluindo palmeiras.
Nessa Antártida pré-glacial, a água corria pela superfície em direção à costa, que ficava algumas centenas de quilômetros adiante, em um continente que vinha se separando havia milhões de anos do supercontinente Gondwana. Quando o clima global esfriou, o gelo avançou rapidamente, cobriu boa parte do território e congelou aquela paisagem fluvial, transformando rios e vales em fósseis geográficos preservados pelas eras.
Por que esse relevo escapou da erosão glacial
O grande mistério da descoberta é explicar por que essa paisagem antiga se manteve intacta sob milhões de anos de gelo. Em outras regiões da Antártida, o avanço de geleiras chamadas de gelo de base quente, mais móveis e capazes de arrastar pedaços do solo, raspou e desgastou boa parte do terreno original, modificando a face do continente de forma profunda.
No caso das bacias Aurora e Schmidt, porém, parece nunca ter havido presença significativa desse tipo de gelo destrutivo. Em vez disso, prevaleceu um gelo frio e mais imóvel, que funcionou como uma espécie de cobertor protetor, deixando o relevo antigo praticamente como estava. Os pesquisadores interpretam esse cenário como sinal de uma estabilidade térmica de longo prazo na região, ainda que limitada à parte interna do continente.
O que isso muda para o nível do mar
Mais do que uma curiosidade geológica, a descoberta tem implicações práticas para o presente. O relevo enterrado funciona como uma espécie de pista, ajudando a entender como o gelo se movimenta sobre a topografia da Antártida. Superfícies mais planas, por exemplo, podem reduzir a velocidade do fluxo de gelo, enquanto vales profundos costumam orientar e acelerar a saída dos glaciares em direção ao mar.
Essa informação é decisiva para refinar os modelos climáticos que tentam prever quanto a Antártida vai contribuir para a elevação do nível do mar nos próximos séculos. Quanto mais detalhado for o conhecimento do relevo real sob a calota, mais precisas se tornam as projeções, especialmente em uma região vizinha aos glaciares Denman e Totten, considerados particularmente vulneráveis ao aquecimento do oceano nas próximas décadas.
O que ainda falta descobrir
Apesar do avanço, muitas perguntas seguem em aberto. Para confirmar a idade exata da paisagem fluvial, seria necessário perfurar quase dois quilômetros de gelo e recuperar amostras de sedimentos do solo abaixo, num desafio logístico enorme, mas com potencial científico altíssimo. Esses testemunhos contariam, com mais precisão, quando o terreno congelou pela última vez e em que condições climáticas isso ocorreu.
Os cientistas também querem entender se o relevo segue, mais adentro do continente, formando outras áreas preservadas e ainda desconhecidas. Cada nova peça desse quebra-cabeça ajuda a montar uma imagem mais completa da história da Antártida, conectando o passado profundo do planeta a um futuro em que o destino do gelo continental terá efeito direto nas cidades costeiras de todo o mundo, inclusive do Brasil.
A descoberta de uma paisagem fluvial antiga preservada sob quase 2 quilômetros de gelo na Antártida é um daqueles achados que misturam fascínio e utilidade científica. De um lado, alimenta a imaginação ao revelar que, antes do continente congelar, havia rios correndo onde hoje só há gelo. De outro, oferece pistas concretas para entender como esse gelo vai se comportar nas próximas décadas, em um cenário de aquecimento global que pode redesenhar litorais em todo o planeta. É a prova de que estudar o passado é, mais do que nunca, uma forma de tentar prever o futuro.
E você, já imaginou que existiu uma Antártida com rios correndo, florestas frias e até palmeiras em algum momento do passado? O que mais te impressiona nessa descoberta debaixo de quilômetros de gelo? Deixe seu comentário, conte o que pensa sobre o impacto do degelo no nível do mar e compartilhe a matéria com quem ama ciência, clima e os mistérios do planeta.

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