1. Início
  2. Ciência e Tecnologia
  3. Serragem que iria para o lixo vira painel resistente ao fogo e pode mudar o jeito de construir paredes
Faça um comentário 5 min de leitura

Serragem que iria para o lixo vira painel resistente ao fogo e pode mudar o jeito de construir paredes

Imagem de perfil do autor Fabio Lucas Carvalho
Escrito por Fabio Lucas Carvalho Publicado em 22/03/2026 às 17:08 Atualizado em 22/03/2026 às 17:10
ETH Zurich transforma serragem em painel resistente ao fogo, reciclável e voltado a paredes internas na construção civil.
ETH Zurich transforma serragem em painel resistente ao fogo, reciclável e voltado a paredes internas na construção civil.
Seja o primeiro a reagir!
Reagir ao artigo
Prefira o CPG no Google

Pesquisa da ETH Zurich transforma serragem, um resíduo abundante da indústria madeireira, em painéis para paredes internas com resistência ao fogo, possibilidade de desmontagem e reaproveitamento dos componentes, em uma proposta que une construção civil, segurança e economia circular

A serragem, tradicionalmente tratada como resíduo da indústria madeireira e muitas vezes destinada à queima para geração de energia ou ao descarte em aterros, passou a ser a base de um novo material desenvolvido por pesquisadores da ETH Zurich.

A equipe criou painéis duráveis e resistentes ao fogo ao combinar partículas de madeira comprimidas com um aglutinante mineral, abrindo caminho para uma alternativa voltada a paredes e divisórias internas.

A proposta busca dar novo destino a um subproduto gerado em grandes volumes no processamento da madeira. Em vez de liberar gradualmente o carbono armazenado de volta para a atmosfera sem agregar valor, a serragem pode ser incorporada a um compósito com aplicação direta na construção civil.

Segundo os pesquisadores, o material foi desenvolvido com foco em segurança, durabilidade e reaproveitamento de resíduos. O resultado é um painel pensado para ambientes internos, com potencial para reduzir tanto o desperdício industrial quanto o descarte de materiais de construção.

ETH Zurich usa estruvita para criar novo painel com serragem

No centro desse desenvolvimento está a estruvita, um mineral normalmente associado a estações de tratamento de águas residuais. Embora seja mais conhecida por causar entupimentos em tubulações, a substância apresenta propriedades naturais de resistência ao fogo, o que levou os pesquisadores a investigarem seu uso em materiais construtivos.

A aplicação, porém, exigiu a superação de obstáculos técnicos. A estruvita é extremamente quebradiça, e a formação de uma mistura homogênea com partículas de madeira era um dos principais desafios do processo.

Para resolver esse problema, a equipe recorreu à biologia. Os pesquisadores utilizaram uma enzima derivada de sementes de melancia para controlar a formação e a ligação dos cristais de estruvita dentro do compósito, tornando o material mais coeso e estável.

O processo resultou em um painel capaz de reunir madeira residual e aglutinante mineral em uma estrutura mais uniforme. Com isso, o grupo conseguiu transformar um conjunto de componentes com limitações individuais em um material funcional para uso interno.

Ronny Kürsteiner, que desenvolveu o processo como parte de sua tese de doutorado, afirmou que o material é mais resistente à compressão perpendicular às fibras do que a madeira de abeto original. De acordo com ele, essa característica, somada ao desempenho contra incêndio, torna o compósito particularmente adequado para sistemas de parede, divisórias e outros acessórios internos.

Testes mostram atraso na ignição e formação de camada protetora

Para avaliar o comportamento do material diante do fogo, pesquisadores da ETH Zurich trabalharam em conjunto com a Universidade Politécnica de Turim. Os testes foram realizados com um calorímetro de cone, equipamento usado para medir a reação de materiais à exposição térmica.

Nos ensaios, os painéis à base de estruvita levaram mais de três vezes mais tempo para inflamar do que o abeto não tratado. Esse desempenho foi apontado como um dos principais diferenciais do novo compósito em comparação com a madeira convencional.

Quando entram em contato com a chama, os painéis formam rapidamente uma camada protetora composta por carbono e minerais. Essa barreira atua no retardamento da combustão e contribui para o comportamento de autoproteção descrito pela equipe.

Kürsteiner resumiu esse efeito ao afirmar que o material se protege de forma eficaz. A combinação entre resistência mecânica e desempenho ao fogo, segundo os pesquisadores, reforça o potencial de aplicação em elementos internos onde segurança e durabilidade são exigências centrais.

Material pode ser desmontado, separado e reaproveitado

Além da resistência ao fogo, o novo compósito foi desenvolvido com atenção à reciclabilidade. Diferentemente dos painéis de partículas aglomeradas com cimento, que em geral terminam como resíduos de demolição, esse material pode ser desmontado e reutilizado.

Depois de removidos, os painéis podem ser moídos mecanicamente e aquecidos a pouco mais de 100 °C, o equivalente a 212 °F. Esse procedimento libera amônia e separa a serragem do conteúdo mineral, permitindo a recuperação dos componentes.

Após essa etapa, o material recuperado pode ser dissolvido e processado novamente. O procedimento possibilita a formação da newberyita como sólido precursor, que mais tarde pode ser recombinado com serragem para gerar novos painéis à base de estruvita.

Segundo os pesquisadores, esse ciclo fecha o circuito do material e fortalece sua adequação a modelos de construção circular. A proposta oferece um ciclo de vida mais sustentável para painéis usados em interiores e, ao mesmo tempo, contribui para a redução de resíduos na construção civil.

Equipe vê potencial de expansão, mas custo ainda pesa

Além do uso na construção, o material também apresenta potencial para aplicação na agricultura. De acordo com a equipe, ele pode funcionar como fertilizante natural ao liberar gradualmente o fósforo ligado de forma controlada, favorecendo o crescimento das plantas ao longo do tempo.

Apesar dos resultados já obtidos, os pesquisadores ainda pretendem aperfeiçoar o processo. O próximo passo é avançar na melhoria da técnica e buscar caminhos para ampliar a escala de produção até um nível compatível com o uso industrial.

A adoção em larga escala, segundo os próprios pesquisadores, dependerá em grande parte do custo do aglutinante mineral. Esse fator segue como elemento decisivo para determinar a viabilidade comercial do material e o ritmo de sua entrada no setor da construção.

Inscreva-se
Notificar de
guest
0 Comentários
Mais recente
Mais antigos Mais votado
Fabio Lucas Carvalho

Jornalista especializado em uma ampla variedade de temas, como carros, tecnologia, política, indústria naval, geopolítica, energia renovável e economia. Atuo desde 2015 com publicações de destaque em grandes portais de notícias. Minha formação em Gestão em Tecnologia da Informação pela Faculdade de Petrolina (Facape) agrega uma perspectiva técnica única às minhas análises e reportagens. Com mais de 10 mil artigos publicados em veículos de renome, busco sempre trazer informações detalhadas e percepções relevantes para o leitor.

Compartilhar em aplicativos
Baixar aplicativo
0
Adoraríamos sua opnião sobre esse assunto, comente!x