Casal sem experiência em obras transformou terra, palha e água em moradia própria no vale de Bitterroot, em Montana, e criou um negócio para ensinar bioconstrução depois de viver sem hipoteca em uma casa de cob feita manualmente ao longo de quase três anos.
Daniel e Katherine Ray vivem sem dívida imobiliária em uma casa de cob construída por eles mesmos no vale de Bitterroot, em Victor, no estado de Montana, nos Estados Unidos.
Com cerca de 70 m², dois quartos e um banheiro, a moradia foi apresentada pelo Business Insider em 2023 como resultado de uma construção manual feita por um casal sem formação profissional em arquitetura ou construção civil.
Casa de cob em Montana virou alternativa ao aluguel
A obra foi erguida com uma mistura de terra com argila, areia, palha e água, materiais que substituíram boa parte dos insumos convencionais usados em construções residenciais.
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Segundo estimativa de Daniel ao Business Insider, o custo da casa ficou abaixo de US$ 20 mil, valor que não inclui o terreno onde o imóvel foi construído.
Antes de levantar a moradia em Victor, os dois voltaram a Montana enquanto ainda pagavam aluguel e buscavam uma alternativa mais acessível para ter uma casa própria.
A primeira experiência ocorreu no terreno dos pais de Daniel, onde o casal construiu uma casa menor, de cerca de 28 m², antes de comprar a propriedade maior no vale de Bitterroot.
Na primavera de 2016, Daniel e Katherine começaram a construir a segunda casa, projeto que levou quase três anos de trabalho até ficar pronto.
Depois de concluir a maior parte da obra, o casal se mudou para o imóvel no outono de 2019, pouco depois do nascimento da filha.
Técnica com argila, areia e palha exige trabalho manual

Ainda na faculdade, Daniel e Katherine conheceram imagens de casas de cob no País de Gales, contato que despertou o interesse dos dois por construções feitas com terra.
A partir dessa referência inicial, o casal passou a reunir materiais de estudo, consultar livros e buscar informações online até transformar uma curiosidade antiga em um projeto real de moradia.
Ao Business Insider, Daniel relatou que ambos se formaram em antropologia e que ele também tem mestrado em biblioteconomia e ciência da informação.
Mesmo com formação acadêmica, nenhum dos dois tinha experiência como empreiteiro antes de desenhar a planta, organizar etapas da obra e participar diretamente da construção da própria casa.
Durante o período de construção, a rotina exigiu esforço contínuo porque o casal manteve empregos em tempo integral enquanto avançava nas etapas do imóvel.
Daniel afirmou que os dois também dedicavam cerca de 40 horas por semana à obra, em um processo manual que dependia de mistura, aplicação, secagem e ajustes constantes nas paredes.
O cob utilizado na casa é preparado com terra rica em argila, água e palha, mistura que ganha consistência ao ser trabalhada com os pés sobre lonas.
No lugar de blocos unidos por argamassa, a técnica permite moldar as paredes em camadas sucessivas, até formar uma estrutura contínua e com aparência orgânica.
Materiais naturais deram forma à casa curva
Boa parte dos materiais naturais usados pelos Ray veio de fontes próximas à propriedade, segundo as informações repassadas por Daniel ao Business Insider.
A palha aplicada nas paredes era da própria região, enquanto a terra, principal componente da estrutura, saiu de uma pedreira localizada a cerca de cinco milhas da casa.
Com formato orgânico, a construção se distancia do padrão de paredes retas, cantos de 90 graus e linhas rígidas comuns em imóveis convencionais.

Daniel explicou ao Business Insider que quase tudo no imóvel é curvo, incluindo elementos internos moldados com terra, como bancadas, prateleiras e áreas de apoio.
Mesmo com aparência artesanal, a moradia não foi planejada como um abrigo isolado ou sem recursos básicos para o uso cotidiano de uma família.
O imóvel está conectado à rede elétrica, utiliza água de poço na propriedade e foi organizado para atender a uma rotina residencial comum.
Custo baixo não elimina limites da bioconstrução
A economia obtida no projeto veio da combinação entre materiais naturais, execução feita pelo próprio casal e pagamento gradual das etapas da obra.
Como Daniel e Katherine bancaram a construção diretamente, eles não precisaram assumir financiamento imobiliário para viver na casa depois da mudança.
Ao comparar o projeto com construções convencionais na mesma região, Daniel disse ao Business Insider que imóveis novos costumavam ficar entre US$ 150 mil e US$ 200 mil.
Apesar da diferença de custo, o próprio caso mostra que uma obra desse tipo exige esforço físico, tempo disponível e disposição para aprender durante o processo.
Também há limitações práticas, já que nem todo terreno, clima ou conjunto de regras municipais permite repetir a mesma solução adotada pelo casal em Montana.
Os Ray informaram que escolheram a região também porque havia menos exigências locais de códigos e licenças para esse tipo de construção.
Durante o inverno de Montana, a casa utiliza um rocket mass heater, sistema de aquecimento citado na reportagem como uma das soluções adotadas no imóvel.
Paredes espessas também contribuem para a estabilidade térmica, porque absorvem e liberam calor lentamente, segundo a explicação dada por Daniel ao Business Insider.
Moradia sem hipoteca virou negócio de oficinas
Após concluir a casa, Daniel e Katherine criaram a SpiritWood Natural Building, iniciativa voltada a ensinar técnicas de construção natural a outras pessoas interessadas no tema.
A página oficial da empresa informa que há oficinas abertas para inscrição em 2026, com cursos sobre introdução ao cob, paredes de cob, rebocos naturais e aquecedores rocket mass heater.
Além das oficinas, o negócio oferece consultorias e construções privadas de pequenas estruturas na região do vale de Bitterroot, onde o casal vive.
No site oficial, a SpiritWood afirma trabalhar com autoconstructores e outras empresas em projetos feitos com materiais saudáveis e de origem local.
A trajetória dos Ray ganhou atenção por reunir casa sem hipoteca, obra de baixo custo e técnica tradicional em um contexto de moradia cara nos Estados Unidos.
Ainda assim, o exemplo não dispensa planejamento, autorização local e avaliação técnica antes de qualquer tentativa de construir uma casa semelhante.
Para Daniel, a principal mensagem das oficinas é mostrar que construir uma casa pode parecer menos inacessível quando o projeto é compacto e o processo avança por etapas.
No caso dos Ray, essa alternativa exigiu anos de esforço antes de se transformar em moradia própria e em uma fonte de renda ligada à bioconstrução.
Você trocaria uma construção convencional por uma casa artesanal de argila, areia e palha se isso reduzisse drasticamente o custo da moradia?

