Conheça os bastidores do fim do HMS Eagle. De peça central na Crise de Suez a doador de componentes, descubra a história do icônico porta-aviões.
Para garantir a soberania britânica e liderar a modernização tecnológica da aviação naval no pós-guerra, a Marinha Real do Reino Unido operou, entre outubro de 1951 e janeiro de 1972, o porta-aviões HMS Eagle.
Construída pelo estaleiro Harland & Wolff em Belfast, a embarcação da classe Audacious foi projetada em meio aos combates da Segunda Guerra Mundial e adaptada na Guerra Fria para receber caças a jato pesados por meio de profundas reformas em seu convés.
O navio tornou-se peça central da projeção de poder global britânica em conflitos como a Crise de Suez, mas acabou desativado precocemente devido a severos cortes no orçamento de defesa, sendo transformado em sucata no ano de 1978.
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Dimensões e legado do HMS Eagle
Operando com uma tripulação total que chegava a 2.750 militares na configuração com o grupo aéreo, as dimensões do HMS Eagle eram impressionantes para a realidade do pós-guerra.
O navio media cerca de 247,4 metros de comprimento (811 pés e 9¾ polegadas), 52,1 metros de boca (171 pés) e apresentava um calado de 11 metros (36 pés).
Sua propulsão era garantida por quatro eixos acionados por turbinas a vapor e oito caldeiras Admiralty, que geravam uma potência de 152.000 shp e faziam o navio atingir a velocidade máxima de 29,5 nós.

Toda essa potência e capacidade para carregar até 45 aeronaves e 10 helicópteros transformaram o navio em uma ponte histórica que conectou o aprendizado de engenharia da Segunda Guerra Mundial à era dos jatos pesados na Guerra Fria.
Somente no século XXI, com a introdução dos modernos navios da classe Queen Elizabeth, a Marinha Real voltaria a ter em sua frota porta-aviões com porte e capacidades estratégicas superiores às do Eagle e do Ark Royal.
Crise financeira e as decisões políticas no Reino Unido
A aposentadoria da embarcação foi ditada por fortes pressões orçamentárias e revisões estratégicas que dividiram opiniões em Londres ao longo da década de 1960.
O governo britânico concluiu que manter grandes porta-aviões convencionais gerava custos operacionais excessivos para a realidade econômica do país no pós-guerra.
Essa linha de pensamento político afetou o destino da frota de várias formas:
- Cortes no programa original: Dos quatro navios planejados inicialmente para a classe Audacious na Segunda Guerra Mundial, apenas dois — o HMS Eagle e o HMS Ark Royal — foram concluídos;
- Substituição de modelo: A aposta estratégica de defesa de Londres migrou para submarinos nucleares, bases terrestres e, mais tarde, navios menores da classe Invincible;
- Falta de investimentos: Embora o navio mantivesse um alto valor militar, sua atualização para operar plenamente as novas gerações de jatos exigiria recursos econômicos que o governo não estava disposto a liberar;
- Impacto estratégico futuro: Dez anos após a sua baixa, durante o conflito da Guerra das Malvinas em 1982, a ausência de grandes navios equipados com catapultas e cabos de retenção foi intensamente lembrada por especialistas como uma grave perda para o poder de defesa britânico.
O batismo de fogo e o declínio geopolítico em Suez
O auge operacional do HMS Eagle ocorreu muito antes de seu sucateamento, mais especificamente em 1956, durante a Crise de Suez.
Naquela ocasião, na Operação Musketeer, o Reino Unido e a França realizaram uma intervenção armada no Egito em resposta à decisão do presidente Gamal Abdel Nasser de nacionalizar o Canal de Suez.
O navio funcionou como o principal núcleo da força-tarefa aérea britânica no Mediterrâneo.
A partir de seu convés, foram lançados caças marcantes como Hawker Sea Hawk, de Havilland Sea Venom, Westland Wyvern e Douglas Skyraider.

A campanha provou a importância militar de projetar poder longe de casa quando não há bases terrestres disponíveis por perto.
No entanto, o desfecho político em Suez também trouxe uma lição amarga para os britânicos: a constatação de que o país já não possuía margem econômica e política para atuar como potência imperial independente no xadrez global, acelerando uma percepção de declínio relativo e consolidando a dependência estratégica de Londres em relação aos Estados Unidos durante a Guerra Fria.
Inovações técnicas e o grupo aéreo do HMS Eagle
Apesar das amarras políticas, o navio construído pelo estaleiro Harland & Wolff em Belfast — cujo batimento de quilha ocorreu em 24 de outubro de 1942 e o lançamento ao mar foi feito pela princesa Elizabeth em 19 de março de 1946 — foi o grande laboratório da revolução técnica da aviação naval a jato.

Para lidar com aeronaves mais rápidas e pesadas nas decades de 1960 e 1970, o porta-aviões passou por uma reconstrução profunda em Devonport, recebendo recursos modernos:
- Convés em ângulo: Uma pista diagonal de 8,5 graus que permitia ao jato arremeter em segurança caso não prendesse o cabo de parada, eliminando o risco de colisão com os aviões estacionados à frente;
- Catapultas a vapor: Equipamentos potentes que davam empuxo para jatos decolarem com carga máxima de combustível e armamento;
- Sistema óptico por espelho: Tecnologia visual instalada para dar maior precisão e segurança aos pilotos nos pousos;
- Radar tridimensional Type 984: Sensor de ponta para guiar o tiro e monitorar os movimentos de frotas soviéticas em missões da OTAN.
Esse aparato tecnológico dava suporte a um grupo aéreo equilibrado, composto por aviões de ataque de baixa altitude Blackburn Buccaneer, caças de defesa aérea de Havilland Sea Vixen e os Fairey Gannet AEW, pertencentes ao Esquadrão Aéreo Naval 849 e usados para alerta antecipado. Completavam a frota os helicópteros Westland Wessex e Sea King, focados em guerra antissubmarina e missões de busca e salvamento.
Fonte: Poder Naval
