Em Santa Catarina, a codorna integra produção de codorna, carne de codorna e ovo de codorna em cadeia moderna que leva valor do interior aos mercados do Brasil e do exterior.
Santa Catarina mostra, na prática, como transformar a codorna em negócio estruturado: ciclo completo na mesma região, 44 mil ovos por incubação, 17 mil aves abatidas por dia, 40 toneladas mensais e metade dessa produção seguindo em contêineres refrigerados para 10 países.
No campo, no frigorífico e na cidade, a trajetória da ave pequena que muita gente conhece só pelo ovo em conserva virou um caso de agro integrado, tecnologia, gastronomia e renda. Da granja de matrizes ao festival da codorna no carvão, tudo faz parte de uma cadeia que mantém famílias no campo, gera empregos na indústria e ocupa espaço em cardápios no Brasil e lá fora.
De curiosidade de mesa a codorna em negócio global

Muita gente já provou ovo de codorna em conserva, em festa ou restaurante, mas nunca viu a ave inteira no prato.
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Em Santa Catarina, essa distância entre o consumidor e a origem do alimento diminuiu porque o estado decidiu levar a codorna em negócio sério, com ciclo completo de produção, abate, processamento e exportação.
O estado virou referência porque reuniu três elementos na mesma rota: granjas profissionais, agroindústrias com inspeção federal e um mercado interno que aprendeu a consumir a carne em receitas assadas, recheadas ou servidas a passarinho.
Santa Catarina é hoje o único estado brasileiro que exporta carne de codorna em escala industrial e, ainda assim, mantém forte demanda dentro do país.
Matrizes, ovos e incubação: onde nasce o negócio
O ciclo começa no matrizeiro, em Coronel Freitas, no oeste catarinense. As matrizes chegam com seis semanas de idade e entram em um sistema de manejo pensado para garantir sanidade e produtividade.
Cada gaiola reúne 30 fêmeas e 9 machos, combinação calculada para manter uma taxa alta de ovos férteis e dar continuidade à cadeia.
O ovo de codorna é mais sensível do que o de galinha, então a coleta é feita com cuidado redobrado. A cada dia, um único aviário pode chegar a cerca de 3.200 ovos, que seguem para seleção e câmaras refrigeradas.
O objetivo é acumular até 44 mil ovos por ciclo, número que alimenta a incubadora e garante volume suficiente para manter a codorna em negócio constante, sem interrupções na linha de produção.
Na incubadora, os ovos ficam 16 dias em temperatura controlada entre 37,5 e 38 graus, depois mais dois dias no nascedouro, antes da ida para o aviário de engorda.
Nessa etapa, outra peneira: as aves recém-nascidas são classificadas, descartando as menos desenvolvidas para manter uniformidade e desempenho técnico nos lotes que vão para o campo.
Engorda, abate e certificação: a codorna que chega ao mundo
Cada aviário abriga até 33 mil aves em fase de engorda, por cerca de 30 dias, até o peso ideal de abate. A opção por concentrar matrizes, incubatório, aviários e planta industrial na mesma área não é acaso.
Manter todas as fases na mesma propriedade, em estruturas separadas, aumenta o controle sanitário e a biosseguridade, fundamentais para colocar a codorna em negócio de exportação.
Na indústria, o abate diário chega a 17 mil aves, gerando uma produção mensal de aproximadamente 40 toneladas de carne de codorna.
A planta opera sob sistema de inspeção federal, o que abre portas para mercados externos mais exigentes.
A empresa ainda carrega selo halal, requisito para países do Oriente Médio, onde o consumo segue normas religiosas específicas.
Metade da produção segue em caminhões refrigerados até o porto de Itajaí, no litoral norte catarinense. De lá, contêineres com codorna abatida e congelada partem rumo a 10 países, atendendo clientes da América do Sul, Oriente Médio e mercados que ainda estão sendo conquistados na Europa.
Para competir lá fora, o foco é claro: padrão de qualidade, apresentação da carcaça e regularidade de oferta.
Quando a codorna vira tradição, festa e prato principal
Se no exterior a codorna conquista espaço pelo visual e pela apresentação do prato, no Brasil ela vem ganhando status de iguaria de churrasco, restaurante e festival gastronômico.
Em Chapecó, um dos restaurantes pioneiros serve codorna assada com marinadas longas, combinação de cebola, tomate, alecrim, sálvia e pimenta, em forno lento por cerca de duas horas.
No oeste catarinense e em outras regiões, festivais reúnem milhares de pessoas em eventos conhecidos como “codornadas”.
Em Joinville, no norte do estado, o Festival da Codorna já chega à oitava edição, com assadores que começaram em casa e hoje conseguem atender até 2.500 pessoas, assando cerca de 5.000 aves em um único almoço.
A codorna deixou de ser apenas um complemento para virar protagonista de festas, almoços de domingo e eventos regionais.
Há versões com bacon, alho e óleo, creme, manteiga com queijo e até recheadas. Para muita gente, o sabor lembra aves de caça, como perdiz, com carne firme, mais escura e marcante, o que exige tempero caprichado e preparo cuidadoso.
Essa combinação de tradição regional, técnica de preparo e oferta constante vinda das granjas é o que transforma, na prática, a codorna cultural e econômico ao mesmo tempo.
Ovos de codorna: automatização, conserva e mercado estruturado
A cadeia não se resume à carne. Os ovos de codorna ganharam vida própria no agro catarinense. Em propriedades como a de Petrolândia, no Alto Vale do Itajaí, o avanço tecnológico é visível: um aviário com 100 mil aves recebe ração distribuída por robôs a cada duas horas, somando 3.000 kg de alimento por dia, produzidos na própria fazenda com mistura de milho, soja e outros ingredientes.
A meta é clara: a cada 10 codornas, pelo menos 8 ovos por dia. Os dejetos seguem em esteiras para lagoas de armazenamento e, depois, viram adubo orgânico, aplicado nas lavouras da região.
A automatização do trato, da coleta e do manejo de resíduos mostra como a codorna deixou de ser atividade artesanal e passou a operar em escala, com planejamento e reaproveitamento.
Na indústria de conservas, o ovo de codorna passa por pré-lavagem, cozimento para centralizar a gema, resfriamento, descasque mecânico e, por fim, imersão em calda com vinagre, água e sal.
Os potes seguem para pasteurização em banho-maria, o que garante segurança alimentar sem necessidade de conservantes químicos.
Uma única fábrica pode envasar 15 mil frascos por semana, atendendo redes de cooperativas e marcas terceirizadas em todo o estado.
Nutrição, saúde e valor agregado para o agro catarinense
Além da tradição e do apelo gastronômico, a expansão da codorna em negócio se apoia também nos argumentos nutricionais. Carne e ovos são ricos em proteínas de alta qualidade, fundamentais para manutenção de músculos, tecidos, pele e cabelos.
Com boa saciedade, a proteína ajuda quem precisa controlar peso e reduzir gordura corporal sem perder massa magra.
Ovos de codorna concentram vitaminas, minerais e gorduras boas, como ômega 3 e ômega 6, enquanto a carne, mais magra e firme que a de frango, se encaixa em dietas que buscam variar fontes de proteína animal.
Quando o consumidor entende que está diante de um alimento ao mesmo tempo saboroso, versátil na cozinha e interessante do ponto de vista nutricional, a tendência é que a demanda se consolide e empurre toda a cadeia para frente.
No fim das contas, o que se vê em Santa Catarina é um exemplo de como uma ave pequena pode sustentar uma estrutura grande: produtores de ovos, famílias que investiram em granjas, indústrias que automatizaram abate e cortes, restaurantes que trabalham a apresentação do prato e exportadores que colocam o produto em prateleiras de outros continentes.
Se a codorna estivesse mais presente nos supermercados e restaurantes da sua cidade, você colocaria essa proteína com mais frequência no seu prato ou ainda fica com um pé atrás de experimentar a carne além do ovo em conserva?


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