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Sadia x Perdigão: como rivalidade entre gigantes de SC virou um império de R$ 164 bilhões e vende em 117 países

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Escrito por Maria Heloisa Barbosa Borges Publicado em 18/05/2026 às 22:38 Atualizado em 18/05/2026 às 22:42
Sadia e Perdigão nasceram a 120 km de distância em Santa Catarina e passaram décadas como rivais até que uma crise de R$ 2,5 bilhões forçou a fusão em 2009. Hoje a MBRF fatura R$ 164 bilhões e vende em 117 países.
Sadia e Perdigão nasceram a 120 km de distância em Santa Catarina e passaram décadas como rivais até que uma crise de R$ 2,5 bilhões forçou a fusão em 2009. Hoje a MBRF fatura R$ 164 bilhões e vende em 117 países.
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Sadia e Perdigão nasceram no interior de Santa Catarina, a cerca de 120 quilômetros de distância uma da outra, e passaram mais de seis décadas disputando supermercados, exportações e ceias de Natal no Brasil inteiro. Segundo informações do NSC, a rivalidade entre as duas gigantes da carne terminou em 2009, quando uma crise financeira que custou à Sadia um prejuízo de R$ 2,5 bilhões forçou a fusão que criou a Brasil Foods, depois rebatizada de BRF.

A história não parou na BRF. Em 2025, a companhia se uniu à Marfrig, especializada em carne bovina, dando origem à MBRF, que no primeiro ano de operação consolidada reportou receita líquida recorde de R$ 164 bilhões, vendeu 8,2 milhões de toneladas de alimentos e marcou presença em 117 países. Tudo começou com duas famílias de descendentes de italianos que montaram frigoríficos no Oeste catarinense nas décadas de 1930 e 1940, e cuja rivalidade moldou a indústria de carnes do país. Entender como Sadia e Perdigão saíram de pequenos abatedouros no interior de Santa Catarina para se tornarem a base de um império alimentar de R$ 164 bilhões é acompanhar a própria história da agroindústria brasileira.

Perdigão: 1934, Videira, famílias Ponzoni e Brandalise

A Perdigão nasceu primeiro, em 1934, em Videira, no Meio-Oeste catarinense, fundada pelas famílias Ponzoni e Brandalise, descendentes de imigrantes italianos. O negócio inicial era concentrado no abate de suínos e na venda de alimentos para o mercado regional, atividade que gerava receita suficiente para sustentar as famílias fundadoras, mas que ainda não tinha a escala necessária para competir fora de Santa Catarina.

Com o aumento da produção, a Perdigão passou a investir na criação própria de animais e na estruturação da cadeia agroindustrial. O modelo de integração entre produtores rurais e indústria, no qual a empresa fornece pintinhos, ração e assistência técnica enquanto o agricultor cuida da engorda, tornou-se a base do crescimento da companhia e, posteriormente, de toda a agroindústria do Sul do Brasil. Essa inovação organizacional foi tão determinante para o sucesso da Perdigão quanto qualquer produto que a empresa viria a lançar.

Sadia: 1944, Concórdia, Attilio Fontana

Dez anos depois da fundação da Perdigão, a Sadia surgiu em 1944 em Concórdia, no Oeste de Santa Catarina, fundada por Attilio Fontana. O início foi modesto: um pequeno moinho e um frigorífico ainda em construção, mas já em 1946 a empresa abatia mais de 100 suínos por dia. Desde o começo, a Sadia se diferenciou pelo foco na distribuição para centros consumidores distantes, especialmente o Sudeste, onde a demanda por proteína animal crescia com a urbanização.

A visão de Fontana de levar carne processada do interior de Santa Catarina até São Paulo e Rio de Janeiro definiu o DNA logístico que a Sadia manteve por décadas. Enquanto a Perdigão fortalecia a integração com produtores rurais, a Sadia investia em transporte refrigerado, rede de distribuição e presença nos pontos de venda. As duas estratégias eram complementares em teoria, mas na prática geraram uma competição feroz pelo mesmo consumidor.

A guerra do peru e a invenção do Chester

A rivalidade entre Sadia e Perdigão atingiu um de seus capítulos mais memoráveis nos anos 1970, quando a disputa foi parar nas ceias de fim de ano dos brasileiros. A Sadia dominava o mercado de perus natalinos, e a Perdigão precisava encontrar uma forma de competir sem oferecer o mesmo produto. A solução veio do melhoramento genético: em 1979, a Perdigão importou ovos dos Estados Unidos e desenvolveu uma ave diferenciada, que depositasse mais carne no peito e nas coxas.

O Chester chegou ao mercado em 1982 com o slogan “Habemus Chester” e se tornou fenômeno comercial. O que pouca gente sabe é que a ave nada mais é do que um frango de maior porte, pesando entre 4 e 4,5 quilos, resultado de seleção genética que privilegia o rendimento de carne nobre. O veterinário aposentado Vitor Hugo Brandalise, sobrinho dos fundadores da Perdigão, contou que “não era viável, na época, trazer mais uma ave para competir com o mesmo peru da Sadia”, e por isso a empresa buscou algo completamente novo. O Chester dividiu as mesas de Natal do país e transformou a ceia numa batalha entre marcas catarinenses.

A oferta hostil e a crise que inverteu o jogo

A disputa entre Sadia e Perdigão ultrapassou prateleiras e ceias quando, em 2006, a Sadia tentou adquirir a concorrente em uma operação avaliada em cerca de R$ 3,7 bilhões. A oferta foi considerada hostil e rejeitada pelos acionistas da Perdigão, que não aceitaram as condições propostas. A tentativa fracassada deixou marcas na relação entre as duas empresas e pareceu afastar definitivamente a possibilidade de união.

Dois anos depois, porém, o cenário se inverteu de forma dramática. A crise financeira global de 2008 atingiu a Sadia com perdas bilionárias em operações com derivativos cambiais. A empresa fechou o ano com prejuízo próximo de R$ 2,5 bilhões e endividamento que a geração operacional não conseguia cobrir. A mesma Sadia que tentara comprar a Perdigão dois anos antes agora precisava da concorrente para sobreviver. As negociações para a fusão começaram sob a pressão de uma dívida que não admitia demora.

A fusão de 2009 e o nascimento da BRF

BRF tem unidades em Santa Catarina, incluindo Chapecó (Foto: BRF, Divulgação)

A união entre Sadia e Perdigão foi anunciada oficialmente em 19 de maio de 2009 e deu origem à Brasil Foods, depois rebatizada de BRF. A nova companhia nasceu com 119 mil funcionários, 42 fábricas e faturamento anual líquido de R$ 22 bilhões, números que a posicionaram imediatamente como uma das maiores empresas de alimentos do mundo. Para duas marcas que passaram décadas competindo pelo mesmo espaço na gôndola, dividir a mesma estrutura corporativa exigiu ajustes culturais que levaram anos para se consolidar.

Apesar do ganho de escala, o crescimento da BRF nos anos seguintes foi mais lento que o de concorrentes diretos. Segundo estudo da Universidade de São Paulo, entre 2008 e 2021 a receita operacional bruta da companhia passou de cerca de R$ 25,4 bilhões para R$ 56 bilhões. No mesmo período, a JBS avançou de R$ 31,1 bilhões para R$ 361,5 bilhões. A diferença de velocidade indicava que, mesmo após a fusão, a BRF precisava de outro salto para competir com os maiores do setor global de proteína animal.

Da BRF à MBRF: R$ 164 bilhões e 117 países

O salto veio em 2025, com a fusão entre BRF e Marfrig, que criou a MBRF. A Marfrig, especializada em carne bovina, complementou o portfólio da BRF, focada em aves e suínos, gerando uma empresa capaz de oferecer proteína animal completa para qualquer mercado do mundo. No primeiro ano de operação consolidada, a MBRF reportou receita líquida recorde de R$ 164 bilhões e volume de 8,2 milhões de toneladas de alimentos vendidos.

A presença em 117 países transforma a MBRF em uma das maiores exportadoras de alimentos do planeta. Para duas marcas que nasceram em pequenos frigoríficos no interior de Santa Catarina, a escala global é o capítulo mais recente de uma trajetória que começou com abate de suínos na década de 1930 e que hoje abastece populações em todos os continentes. A rivalidade entre Sadia e Perdigão virou fusão, a fusão virou BRF, a BRF virou MBRF, e o que era briga de vizinhos no Oeste catarinense se transformou em império alimentar de R$ 164 bilhões.

De rivais a R$ 164 bilhões: uma história catarinense

Sadia e Perdigão nasceram a 120 quilômetros uma da outra, disputaram supermercados e ceias de Natal por décadas, quase se compraram mutuamente e acabaram unidas por uma crise bilionária que não deixou alternativa. Hoje a MBRF, herdeira dessa rivalidade, fatura R$ 164 bilhões por ano, vende em 117 países e emprega dezenas de milhares de pessoas. A história prova que, no interior de Santa Catarina, até a concorrência mais feroz pode terminar na mesma mesa.

Você é mais Sadia ou Perdigão? Conte nos comentários se lembra da rivalidade entre as marcas, se na sua ceia de Natal tinha peru ou Chester e o que acha da fusão que transformou duas rivais catarinenses num dos maiores grupos de alimentos do mundo. Queremos ouvir a sua história.

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Maria Heloisa Barbosa Borges

Falo sobre construção, mineração, minas brasileiras, petróleo e grandes projetos ferroviários e de engenharia civil. Diariamente escrevo sobre curiosidades do mercado brasileiro.

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