Projeto russo avança para a fase de protótipo e mira o mercado global de caças furtivos com proposta de menor custo, alta velocidade, longo alcance e oferta voltada a países que buscam alternativa ao F-35 em meio a sanções e disputa tecnológica.
A United Aircraft Corporation, estatal russa conhecida pela sigla UAC, iniciou a construção do primeiro protótipo do Su-75 Checkmate, caça monomotor de quinta geração desenvolvido pela Sukhoi para atender às Forças Aeroespaciais da Rússia e a potenciais compradores estrangeiros.
A etapa foi informada pelo diretor-geral da empresa, Vadim Badekha, em declaração divulgada pela agência estatal russa TASS e repercutida por veículos especializados em defesa, que acompanharam as atualizações recentes do programa aeronáutico.
Com o início da fabricação do protótipo, o programa deixa a fase limitada a apresentações conceituais e passa a uma etapa industrial de desenvolvimento, ainda sem indicar produção em série ou entrada operacional confirmada.
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Desde sua estreia pública no salão aeronáutico MAKS, em Moscou, em julho de 2021, o Checkmate havia sido exibido principalmente por meio de maquetes, conceitos de engenharia e material promocional da indústria russa.
De acordo com Badekha, a retomada de um caça moderno, monomotor e de quinta geração foi tratada pela UAC como um projeto relevante para a indústria de defesa russa.
Durante décadas, o país deixou de lançar uma nova plataforma monomotora de combate, depois de modelos como MiG-21 e MiG-23 terem ocupado papel importante na aviação militar soviética e nas exportações de defesa.
A retomada desse segmento ocorre em um período de pressão sobre a indústria aeroespacial russa, afetada por sanções ocidentais, restrições tecnológicas e demanda elevada por aeronaves militares já em produção.

Além do desenvolvimento do Checkmate, fabricantes russos precisam manter entregas e modernizações relacionadas a modelos como Su-30SM, Su-34, Su-35S e Su-57, o que amplia a disputa por recursos industriais, técnicos e financeiros.
Su-75 Checkmate aposta em furtividade e arquitetura digital
O Su-75 Checkmate foi apresentado pela UAC como uma aeronave leve de quinta geração, com baixa observabilidade ao radar, arquitetura digital e soluções derivadas de programas já existentes na indústria russa.
Na descrição da fabricante, o projeto corresponde a um caça tático leve, monomotor, desenvolvido com apoio de tecnologias de supercomputação e sistemas de assistência ao piloto, com foco em missões ar-ar e ar-solo.
Entre as características atribuídas ao modelo estão a entrada de ar ventral do tipo DSI, a cauda em V, os compartimentos internos para armamentos e a possibilidade de operar com diferentes configurações de carga.
Esses elementos são associados, pela indústria russa, à tentativa de reduzir a assinatura radar sem adotar uma plataforma bimotora mais pesada, como ocorre em caças furtivos de maior porte.
As especificações divulgadas pela indústria russa e por publicações especializadas apontam velocidade máxima em torno de Mach 1,8, alcance próximo de 2.800 a 3.000 quilômetros e capacidade para transportar até 7,4 toneladas de armamentos e cargas externas ou internas, conforme a configuração.
A comparação com o Concorde está relacionada apenas à faixa de velocidade, já que o avião supersônico comercial franco-britânico atingia pouco acima de Mach 2 e tinha finalidade civil, sem relação operacional com aeronaves de combate.
No caso do Su-75, o desempenho divulgado pela fabricante fica abaixo do Concorde e se refere a uma plataforma militar projetada para operar em ambientes de defesa aérea contestada.
Custo menor é parte central da aposta russa

A UAC busca posicionar o Checkmate como uma alternativa de menor custo diante de caças ocidentais de quinta geração, especialmente o F-35, produzido pela Lockheed Martin e adotado por diversos países aliados dos Estados Unidos.
A proposta apresentada pela indústria russa prevê uma aeronave furtiva monomotora, com desenho mais simples que o de plataformas bimotores e foco declarado em manutenção menos complexa ao longo do ciclo de operação.
Esse argumento aparece com frequência em comunicados e declarações relacionados ao programa, nos quais a Rostec, conglomerado estatal que controla a UAC, associa o projeto à redução de custos de aquisição e uso.
A meta de preço inferior à de concorrentes ocidentais já foi mencionada pela indústria russa, mas depende de fatores ainda não comprovados em escala, como maturidade industrial, volume de produção e configuração escolhida por cada cliente.
Publicações especializadas registraram que o Checkmate foi anunciado com estimativas de custo unitário na faixa de US$ 30 milhões a US$ 35 milhões, além de promessas de custo por hora de voo inferior ao do F-35.
Esses números seguem como metas de divulgação industrial, e não como valores consolidados em contratos de produção em larga escala, já que não há encomendas públicas capazes de validar o preço final da aeronave.
Segundo Badekha, o Ministério da Defesa russo também tem pressionado a indústria por redução de preço, o que torna o custo de aquisição e manutenção um dos pontos centrais do programa.
Essa diretriz reforça a tentativa de transformar o Su-75 em uma opção voltada tanto ao mercado interno quanto à exportação, especialmente para países que ainda operam frotas antigas de origem soviética.
Disputa com o F-35 e busca por compradores
O Checkmate foi concebido para disputar o mercado de caças leves e médios de nova geração, segmento no qual a UAC pretende oferecer uma plataforma furtiva com custo anunciado abaixo de modelos ocidentais.
A aeronave mira países que não têm acesso ao F-35, não desejam depender dos Estados Unidos ou avaliam como elevado o custo de aquisição e operação de plataformas furtivas ocidentais.
Mercados da Ásia, África, Oriente Médio e América Latina aparecem com frequência em análises sobre possíveis compradores, embora não haja confirmação pública de encomendas firmes para o Su-75.

Após a ampliação das sanções contra Moscou, o ambiente geopolítico passou a impor dificuldades adicionais às vendas internacionais de sistemas militares russos, incluindo financiamento, logística, manutenção e fornecimento de componentes.
Sanções financeiras, risco de retaliação americana e restrições logísticas afetam a capacidade da Rússia de fechar contratos militares internacionais, sobretudo com países que mantêm relações econômicas relevantes com os Estados Unidos.
Para eventuais compradores, a avaliação do programa envolve não apenas o preço inicial do caça, mas também treinamento, integração de armas, reposição de peças, suporte técnico e previsibilidade de fornecimento ao longo dos anos.
Como argumento comercial, Moscou também utiliza o histórico de exportação de aeronaves militares soviéticas e russas, que criou redes de pilotos, mecânicos e infraestrutura compatíveis com equipamentos produzidos pelo país.
Durante a Guerra Fria e nos anos seguintes, modelos como MiG-21, MiG-23, MiG-29 e aeronaves da família Sukhoi foram vendidos a diferentes forças aéreas, especialmente em países com vínculos militares com Moscou.
Protótipo ainda terá de passar por testes
Apesar do início da construção do protótipo, o Su-75 ainda precisa superar etapas técnicas antes de qualquer decisão sobre produção em série, exportação ou adoção em unidades operacionais russas.
O primeiro voo, os testes de sistemas, a integração de sensores e armas e a validação das características de baixa observabilidade serão necessários para verificar se o projeto corresponde às especificações divulgadas desde 2021.
A UAC chegou a sustentar que o primeiro voo poderia ocorrer em 2026, segundo publicações especializadas que acompanharam declarações recentes da empresa e de representantes ligados ao setor aeronáutico russo.
Esse cronograma, porém, ainda depende do avanço do protótipo, da disponibilidade de componentes e da capacidade da indústria russa de cumprir etapas de certificação, testes e integração em um ambiente tecnológico mais restrito.
Outro ponto sensível é o acesso a componentes avançados, como semicondutores, equipamentos de usinagem de alta precisão e sistemas eletrônicos modernos, áreas consideradas críticas para programas aeronáuticos de nova geração.
As sanções impostas por países ocidentais dificultam a importação de tecnologias utilizadas em diferentes setores industriais, o que pode afetar prazos, custos e alternativas de fornecimento para a indústria de defesa russa.
Paralelamente ao Checkmate, Moscou precisa manter a produção e a modernização de aeronaves como Su-30SM, Su-34, Su-35S e Su-57, que permanecem ligadas às necessidades operacionais atuais das Forças Aeroespaciais russas.
Essa sobreposição de programas pode influenciar o ritmo do Su-75, já que projetos militares complexos dependem de engenheiros, instalações, fornecedores especializados e recursos financeiros disponíveis ao longo de vários anos.
Retorno a uma tradição russa de caças monomotores
A aposta no Su-75 também marca uma tentativa de retomar a tradição russa e soviética em caças monomotores, categoria que perdeu espaço na indústria local após o fim da União Soviética.
Desde os anos 1990, fabricantes russos concentraram parte relevante de seus esforços em caças bimotores, como as famílias Su-27, Su-30, Su-35, MiG-29 e, mais recentemente, o Su-57.
Em comparação com aeronaves bimotores maiores, um caça monomotor costuma ser associado a menor consumo de combustível, manutenção menos complexa e custo operacional reduzido, embora possa ter limitações em redundância, alcance e carga útil.
Esse equilíbrio entre custo, desempenho e capacidade militar compõe o espaço comercial que a UAC busca ocupar com o Checkmate, principalmente entre forças aéreas que não têm orçamento para plataformas mais caras.
O Su-75, portanto, avança como uma tentativa russa de disputar o mercado internacional de caças leves de nova geração, mas ainda sem comprovação operacional, encomendas públicas firmes ou produção em série anunciada.
A construção do primeiro protótipo representa uma etapa industrial do programa, enquanto desempenho, preço final, cronograma de entrada em serviço e capacidade de exportação permanecem dependentes dos próximos testes e decisões oficiais.


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