Tecnologia inspirada em rovers espaciais permitiu explorar galerias subterrâneas milenares sob um dos principais centros da Etrúria, revelando engenharia hidráulica sofisticada, rituais religiosos e uma rede oculta de canais e túneis
Inspirado diretamente nos rovers utilizados na exploração de Marte, o veículo robótico Magellano percorreu quilómetros de túneis subterrâneos escondidos sob a antiga cidade etrusca de Veios, localizada a apenas 16 quilómetros ao norte de Roma. O resultado da missão impressionou arqueólogos e historiadores, pois pela primeira vez foi possível produzir uma cartografia completa dessa vasta rede subterrânea utilizando métodos totalmente não invasivos.
Além disso, o rover foi capaz de operar em áreas extremamente difíceis para a presença humana. Equipado com uma suspensão do tipo rocker-bogie — tecnologia também utilizada nos veículos da NASA em Marte — o Magellano manteve as rodas constantemente em contacto com o solo irregular. Dessa forma, conseguiu avançar por passagens estreitas, húmidas e de visibilidade reduzida enquanto recolhia dados fundamentais para o estudo do sítio arqueológico.
A informação foi divulgada pelo site Jornal Inside, em reportagem assinada por José Fonseca, que detalha a exploração realizada pelo rover Magellano nos túneis subterrâneos da antiga cidade etrusca de Veios. A matéria também menciona que os estudos estão ligados a pesquisas conduzidas pelo Museu Nacional Etrusco da Villa Giulia e pela cátedra de Etruscologia da Universidade Sapienza de Roma. Segundo os investigadores envolvidos, a aplicação de tecnologia inspirada nos rovers utilizados na exploração de Marte abriu um novo capítulo na investigação arqueológica subterrânea.
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Nas profundezas de Veios
A cidade de Veios — conhecida como Veio em italiano — foi um dos principais centros da antiga civilização etrusca. A partir do século VIII a.C., a cidade floresceu como um polo urbano importante da Etrúria, reunindo bairros organizados, santuários religiosos e extensas necrópoles com túmulos ricamente decorados.
No entanto, o que mais intriga os investigadores atualmente não está apenas na superfície. Sob o território da antiga cidade existia uma complexa rede subterrânea composta por galerias escavadas, aquedutos e cisternas. Esses túneis, conhecidos como cuniculi, tinham como principal função gerir a água da região, garantindo drenagem eficiente e abastecimento constante para a população.
Durante a exploração, o rover Magellano percorreu tanto galerias horizontais quanto poços verticais. Ao longo do percurso, os investigadores conseguiram mapear conexões entre o planalto de Campetti, o vale de Cannetaccio e o famoso Santuário de Portonaccio, um dos locais religiosos mais importantes da antiga Etrúria.
Perto do templo dedicado ao deus Apolo, os arqueólogos identificaram um elemento particularmente impressionante: uma grande piscina sagrada. Alimentada diretamente pelos cuniculi, essa estrutura provavelmente era utilizada em rituais de purificação realizados pelos habitantes da cidade.
Com aproximadamente 20 metros de extensão, o tanque continuou a ser utilizado mesmo após a conquista romana de Veios em 396 a.C., demonstrando que o local manteve importância religiosa e funcional durante séculos.
Tecnologia inspirada em Marte
Assim como os famosos rovers da NASA que percorrem a superfície marciana, o Magellano foi projetado para enfrentar terrenos irregulares e ambientes complexos. Sua suspensão rocker-bogie distribui o peso do veículo e permite ultrapassar obstáculos sem perda de tração.
Graças a sensores avançados, navegação remota e sistemas de recolha de dados à distância, o rover conseguiu avançar por zonas extremamente delicadas sem colocar em risco os investigadores ou as estruturas arqueológicas.
Esse conjunto tecnológico permitiu registrar com grande precisão os detalhes da rede subterrânea. Ao integrar topografia, fotografia e varrimentos de superfície, os investigadores criaram um modelo tridimensional completo do sistema hidráulico antigo.
Os dados recolhidos revelaram mais de 23 quilómetros de canais subterrâneos, demonstrando que os etruscos possuíam um sistema de engenharia cuidadosamente planeado. Dessa forma, ficou claro que essas galerias não eram simples escavações casuais, mas sim parte de um projeto urbano sofisticado.
Segundo Massimo Osanna, diretor-geral dos Museus Italianos, o uso dessas tecnologias representa um avanço decisivo no estudo da antiga civilização etrusca.
“Voltar a estudar o Santuário de Portonaccio com escavações rigorosas e tecnologias de ponta significa alargar decisivamente o conhecimento de um dos lugares mais significativos da Etrúria”, afirmou.
Engenharia etrusca sofisticada
Os dados obtidos pelo Magellano indicam que a cidade de Veios funcionava como um sistema urbano dividido em duas camadas: uma visível na superfície e outra escondida sob o solo.
Enquanto ruas, templos e bairros organizados dominavam a paisagem exterior, um complexo sistema subterrâneo garantia o funcionamento hidráulico da cidade. Canais, cisternas e poços controlavam o fluxo de água, evitando inundações e garantindo abastecimento regular.
Além disso, algumas estruturas subterrâneas parecem ter desempenhado funções religiosas. Bacias e percursos específicos podem ter sido utilizados em rituais de limpeza e sacralização, sugerindo uma forte ligação entre engenharia hidráulica e práticas espirituais.
A distinção entre trechos hidráulicos e áreas rituais ainda exige estudos adicionais. Por isso, os investigadores planeiam analisar materiais, técnicas de escavação e processos de datação para compreender melhor o papel de cada segmento da rede subterrânea.
Entre os principais resultados já identificados pelos arqueólogos estão:
- Conexões entre bairros periféricos e o Santuário de Portonaccio, indicando uma rede subterrânea que servia mobilidade e rituais religiosos.
- Identificação de uma piscina sagrada junto ao templo de Apolo, ligada aos cuniculi e a práticas de purificação.
- Confirmação de trechos utilizados para drenagem e abastecimento de água no vale do rio Crémere.
- Mapeamento contínuo de aproximadamente 23 quilómetros de túneis subterrâneos, incluindo partes preservadas e outras parcialmente colapsadas.
- Criação de uma base de dados georreferenciada que servirá para futuras escavações, conservação e divulgação científica.
Próximos passos da investigação
Com o mapa completo em mãos, os investigadores agora podem planear sondagens arqueológicas extremamente precisas. Em vez de grandes escavações invasivas, será possível realizar intervenções cirúrgicas em pontos específicos do sistema subterrâneo.
Além disso, os cientistas pretendem conduzir análises de sedimentos, estudar o regime hídrico antigo da região e consolidar trechos que apresentam risco de colapso.
A colaboração entre museus, universidades e centros de investigação demonstra o potencial da integração entre ciência moderna e património histórico. Ao utilizar tecnologia originalmente criada para explorar outros planetas, os arqueólogos conseguiram revelar uma cidade invisível escondida sob o solo italiano.
Assim, o rover Magellano não apenas mapeou túneis antigos. Ele também abriu uma nova fronteira para a arqueologia moderna, transformando um labirinto subterrâneo em um sistema compreensível que ajuda a reconstituir a vida e a engenharia de uma das civilizações mais fascinantes da antiguidade.
