Em câmara que simula a atmosfera de Marte, engenheiros do JPL giraram pás de fibra de carbono até as pontas quebrarem a barreira do som a Mach 1,08.
Em março de 2026, dentro da câmara 25-Foot Space Simulator do Jet Propulsion Laboratory, em Pasadena, na Califórnia, engenheiros da NASA conseguiram pela primeira vez um rotor supersonico marte capaz de operar sem se despedaçar.
Segundo o comunicado oficial divulgado pelo JPL em 7 de maio, as pontas das pás de fibra de carbono giraram a Mach 1,08. A atmosfera reproduzida tinha a mesma rarefação do planeta vermelho.
A façanha, anunciada em 14 de maio em reportagem do portal Earth.com, encerra uma campanha de 137 corridas. O teste marca a passagem da aviação marciana para algo muito mais ambicioso.
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O rotor projetado por equipes do JPL e do Ames Research Center, no Vale do Silício, abre uma nova classe de helicópteros marcianos. Eles poderão carregar instrumentos, baterias maiores e amostras de solo.
Para o Brasil, que estuda missões científicas em parceria com a NASA por meio da Agência Espacial Brasileira, o ensaio sinaliza que a aviação fora da Terra começa a se transformar em logística planetária real.
O experimento por trás do rotor supersonico marte

De acordo com a NASA, o feito não nasceu apenas de mais rotação. A equipe combinou rotações de até 3.750 rpm com um vento de proa gerado por rotores auxiliares verticais.
Antes desse vento contrário, as pás de três lâminas alcançavam Mach 0,98 dentro da câmara. Em seguida, com o auxiliar ligado, as pontas ultrapassaram a barreira do som e estabilizaram em Mach 1,08.
A aerodinamicista Shannah Withrow-Maser, do Ames Research Center, foi citada no release oficial da NASA. “Achávamos que teríamos sorte se atingíssemos Mach 1,05, e chegamos a Mach 1,08”, afirmou.
Conforme detalhou o JPL, a câmara 25-Foot Space Simulator foi configurada para reproduzir baixa pressão, temperaturas frias e atmosfera dominada por dióxido de carbono. O cenário replica a superfície marciana.
Além disso, o ensaio mostrou ganho de 30% em sustentação em relação ao desenho atual. Na prática, isso significa pás mais longas e mais finas carregando mais peso por giro.
Do Ingenuity ao novo helicóptero

Para entender por que o feito é tão importante, é preciso voltar a 19 de abril de 2021. Naquele dia, na cratera Jezero, o Ingenuity fez o primeiro voo motorizado em outro planeta.
Pensado como demonstração de 30 dias com cinco voos, o pequeno helicóptero acabou realizando 72 voos até janeiro de 2024. Ele percorreu mais de 2,8 quilômetros e cumpriu quase três anos marcianos.
Em 25 de janeiro de 2024, segundo a nota oficial divulgada pela NASA, o veículo permaneceu em pé. Contudo, imagens do último voo mostraram dano irreparável em uma das pás.
Por outro lado, o sucesso veio com limites duros. O Ingenuity pesava 1,8 quilo, não carregava instrumentos científicos e dispunha de baterias de lítio totalizando 44,4 watt-hora.
Isso bastava apenas para 187 segundos de voo de alta potência. Na prática, autonomia para servir como batedor aéreo do rover Perseverance, mas não para carregar instrumentos completos.
Helicópteros para recolher amostras

De acordo com a página oficial do Mars Sample Return, o conceito mais avançado é o Helicóptero de Recuperação de Amostras.
Trata-se de um veículo derivado do Ingenuity, mas com massa maior, três pequenas rodas para mobilidade em solo e uma garra robótica capaz de pegar tubos de titânio.
Por sua vez, esses tubos seriam entregues a um lander dotado de um pequeno foguete chamado Mars Ascent Vehicle. Em seguida, um orbitador da Agência Espacial Europeia traria a carga para a Terra.
Ainda assim, o programa Mars Sample Return passou por turbulência política. Em janeiro de 2026, o Congresso dos EUA decidiu cortar a versão “como concebida” da missão.
Cerca de 110 milhões de dólares foram redirecionados para a linha Mars Future Missions. Portanto, o avanço do rotor supersonico marte não fica órfão.
Vira ativo estratégico que pode ser reaproveitado em outras arquiteturas mais enxutas e modulares de exploração robótica.
Por que é tão difícil

Em comparação com helicópteros terrestres, os de Marte enfrentam um problema de física. A atmosfera marciana é cem vezes mais rarefeita que a daqui.
Por isso, para gerar a mesma sustentação, as pás precisam girar muito mais rápido. Em rotações dessa magnitude, as pontas se aproximam da velocidade do som.
De fato, elas correm risco de entrar no regime transônico, onde ondas de choque surgem e a sustentação pode despencar bruscamente sem aviso.
Na Terra, helicópteros tradicionais evitam esse regime mantendo as pontas em torno de Mach 0,7 a 0,85. O Ingenuity já operou em Mach 0,87.
O salto para Mach 1,08, segundo a NASA, mostra que pás de fibra de carbono com perfis aerodinâmicos otimizados aguentam o ar marciano em regime supersônico.
Onde entra o Brasil
Embora o experimento tenha ocorrido na Califórnia, o desdobramento alcança o Brasil. Instituições brasileiras acompanham e participam de etapas de instrumentação científica em missões da NASA.
Conforme o portal já mostrou em cobertura sobre a sonda Psyche, cientistas brasileiros têm presença crescente em missões interplanetárias.
Em segundo lugar, o salto técnico em aviação marciana abre caminho para drones autônomos em ambientes hostis aqui mesmo. Da mesma forma, pás compostas podem ser adaptadas para plataformas offshore no pré-sal.
Conforme já documentou o Click Petróleo e Gás em reportagem recente sobre Marte, esse tipo de avanço alimenta o interesse público pela ciência espacial.
O que vem agora
Segundo a NASA, os dados de Mach 1,08 ainda estão em análise. Os engenheiros suspeitam que haja margem extra de empuxo a ser explorada.
Em seguida, a equipe pretende rodar testes de fadiga prolongada para verificar se as pás suportam ciclos repetidos sem perda de rigidez ao longo dos meses.
De acordo com o roteiro divulgado pela agência, a próxima missão a Marte com helicóptero ainda depende de aprovação orçamentária no Congresso americano.
Naquele momento, se a próxima janela de lançamento for aproveitada, um drone marciano com pás supersônicas pode chegar à superfície ainda nesta década.
- Velocidade alcançada: Mach 1,08 em ar de Marte simulado
- Local: câmara 25-Foot Space Simulator, JPL, Pasadena, Califórnia
- Corridas: 137 testes em março de 2026
- Ganho de sustentação vs. Ingenuity: +30% por giro
- Rotação máxima do rotor: 3.750 rpm com vento de proa
- Massa de referência do Ingenuity: 1,8 kg, sem instrumentos
Limites do rotor supersonico marte
De acordo com a própria NASA, o teste foi feito em terra, dentro de uma câmara. Por isso, ainda não há comprovação de que o conjunto suportará vibração e radiação reais.
Conforme o estudo do Ames Research Center, restam variáveis de longa duração não medidas, como envelhecimento da resina da fibra de carbono em ciclos de ultracongelamento.
Apesar disso, o cronograma de missão depende de decisões políticas em Washington. Os cortes recentes ao Mars Sample Return mostram que o financiamento da exploração marciana é volátil.
Por fim, fica a pergunta: se o avanço de Mach 1,08 pode multiplicar a carga útil de drones planetários, o Brasil tem capacidade de embarcar com instrumentos próprios?

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