Cientistas simularam o que aconteceria se todos os oceanos da Terra evaporassem — e encontraram a mesma marca em Marte, sugerindo que um terço do planeta já foi coberto por água
Se você esvaziar uma banheira, a água deixa uma marca na borda — uma linha que mostra exatamente até onde o nível chegou. Cientistas da Universidade do Texas em Austin e do Caltech acabam de encontrar essa mesma marca em Marte.
Usando dados do Mars Orbiter Laser Altimeter (MOLA) da NASA, a equipe liderada pelo pesquisador Abdallah Zaki identificou uma faixa de terreno plana e distinta que se estende por todo o hemisfério norte do planeta vermelho.
Essa faixa — que os cientistas chamaram de “anel de banheira” — tem entre 200 e 400 metros de largura e está posicionada entre 1.800 e 3.800 metros abaixo do que seria o nível do mar antigo.
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É a evidência mais forte já encontrada de que um oceano cobria aproximadamente um terço de Marte há bilhões de anos.
O truque genial: imaginar a Terra sem água
A ideia surgiu de uma pergunta simples. O que aconteceria se os oceanos da Terra desaparecessem completamente?
Os pesquisadores rodaram simulações por computador para descobrir. O resultado foi revelador: a marca geológica mais duradoura que a água deixaria na Terra seria a plataforma continental — aquela faixa inclinada onde o continente mergulha suavemente no fundo do oceano.
Mesmo após milhões de anos de erosão, a plataforma continental continuaria visível. É uma assinatura topográfica estável.
Então eles procuraram a mesma assinatura em Marte. E encontraram.
“Se existe um oceano, deve existir uma plataforma. Essa é uma assinatura topográfica mais estável”, afirmou Zaki.

Não é uma evidência isolada — são várias convergindo
A plataforma costeira não é a única pista. Cientistas já haviam identificado outras evidências independentes que apontam para a mesma conclusão.
Milhares de depósitos de sedimentos em camadas, alguns com centenas de metros de espessura, foram encontrados na região. São o tipo de formação que se espera no fundo de um corpo d’água grande e duradouro.
Antigos deltas de rios foram identificados exatamente na fronteira onde a plataforma começa — no ponto onde a água teria encontrado a terra.
Minerais de argila e rochas alteradas pela exposição prolongada à água estão espalhados pela região. São assinaturas químicas que a água deixa ao interagir com rocha por milhões de anos.
Cada evidência sozinha poderia ser explicada de outra forma. Mas todas juntas, convergindo no mesmo local, formam um quadro difícil de ignorar.
O rover chinês que encontrou praias subterrâneas
Em 2021, a China pousou o rover Zhurong na planície Utopia Planitia, no hemisfério norte de Marte — exatamente na região onde o oceano teria existido.
O Zhurong detectou evidências de praias antigas em camadas sedimentares subterrâneas. São formações que se assemelham a depósitos costeiros na Terra, onde areia e cascalho se acumulam na borda da água.
Essa descoberta é importante porque vem de observação direta no solo — não de satélites. O rover literalmente andou sobre o que pode ter sido o fundo de um oceano.
E o mais fascinante: as praias encontradas pelo Zhurong estão na mesma região onde Zaki e sua equipe identificaram a plataforma costeira.

O que aconteceu com a água? Para onde foi o oceano de Marte?
Marte já teve atmosfera densa o suficiente para manter água líquida na superfície. Mas ao longo de bilhões de anos, o planeta perdeu seu campo magnético global.
Sem essa proteção, o vento solar arrancou gradualmente as moléculas de água da atmosfera. A água literalmente escapou para o espaço.
Estimativas recentes sugerem que Marte pode ter mantido água na superfície até cerca de 2 bilhões de anos atrás — muito mais tempo do que se pensava anteriormente.
Parte dessa água pode ter migrado para o subsolo. Em 2026, um estudo separado detectou evidências de água líquida ainda presa sob a crosta marciana, em reservatórios profundos.
Ou seja, o oceano não desapareceu completamente. Parte dele pode estar escondida lá embaixo, esperando.
Perseverance já está investigando os depósitos do “anel de banheira”
O rover Perseverance da NASA opera na cratera Jezero, um local escolhido justamente porque tem um delta de rio antigo — exatamente o tipo de formação associada à borda do oceano.
A cratera contém depósitos ricos em carbonatos na margem do antigo lago/oceano. Carbonatos se formam quando água interage com dióxido de carbono — um processo idêntico ao que ocorre nos mares da Terra.
O Perseverance está coletando amostras dessas rochas para envio futuro à Terra. Se os carbonatos contiverem sinais de atividade biológica, seria a primeira evidência direta de vida fora da Terra.
A próxima missão vai cavar direto na plataforma costeira
A Agência Espacial Europeia planeja lançar o rover Rosalind Franklin em 2028, com pouso em Marte previsto para 2030.
O rover é equipado com uma broca capaz de perfurar até 2 metros abaixo da superfície — mais fundo do que qualquer missão anterior.
Seu destino: investigar a mineralogia e geologia da plataforma costeira proposta, verificando se ela realmente sustentou um oceano antigo.

O que significa encontrar um “anel de banheira” em outro planeta
Se Marte realmente teve um oceano cobrindo um terço de sua superfície por bilhões de anos, as implicações são enormes.
Água líquida é o ingrediente mais básico para a vida como a conhecemos. Um oceano estável e duradouro ofereceria condições para o surgimento de organismos simples.
Isso não significa que houve vida em Marte. Significa que as condições estavam lá.
A questão já não é mais “Marte teve água?” — isso parece confirmado. A pergunta agora é: “Marte teve vida?”
As amostras que o Perseverance está coletando podem responder. Mas elas só chegarão à Terra na década de 2030. Até lá, o “anel de banheira” de Marte permanece como a marca mais silenciosa e poderosa de um mundo que já foi azul.

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