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Robôs de 6 toneladas vão descer 5 km no Pacífico para aspirar minerais raros do fundo do oceano…

Escrito por Douglas Avila
Publicado em 29/04/2026 às 18:15
Atualizado em 29/04/2026 às 18:57
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No fundo do Oceano Pacífico, a cerca de 5.500 metros de profundidade — onde a pressão é 550 vezes maior que na superfície, a temperatura fica próxima de zero e não chega nenhum raio de luz solar — estão espalhados bilhões de nódulos do tamanho de batatas. Cada um deles contém níquel, cobalto, cobre e manganês: exatamente os minerais que o mundo precisa para fabricar baterias de veículos elétricos, turbinas eólicas e sistemas de armazenamento de energia. A mineração fundo do mar deixou de ser ficção científica: empresas estão enviando robôs de várias toneladas a essa profundidade para aspirar esses nódulos — e o debate sobre se isso é necessário, seguro ou ético está dividindo governos, cientistas e a indústria global.

O Brasil está no centro dessa disputa, mas por razões opostas ao que você poderia imaginar. O país é um dos líderes na resistência internacional à mineração fundo do mar em escala comercial — mas ao mesmo tempo mantém contrato de exploração no Atlântico Sul e tem interesses econômicos diretos na valorização dos minerais críticos que estão no fundo do oceano. É uma contradição que revela muito sobre como a geopolítica dos recursos do século XXI funciona.

O interesse pela mineração fundo do mar acelerou drasticamente depois de 2022, quando a China — que domina entre 60% e 85% do processamento global de minerais críticos como cobalto e terras raras — começou a sinalizar possíveis restrições de exportação. O Ocidente entrou em pânico. De repente, o fundo do Pacífico deixou de ser uma curiosidade científica e virou objeto de corrida estratégica entre potências industriais que não querem depender da China para construir sua transição energética.

A Zona de Clarion-Clipperton, no Pacífico central (entre o México e o Havaí), concentra a maior densidade conhecida de nódulos polimetálicos do planeta. O Serviço Geológico dos EUA estima que o fundo do mar nessa região contém mais níquel e cobalto do que todas as reservas terrestres conhecidas combinadas.

A Autoridade Internacional dos Fundos Marinhos (ISA) calcula que só na Clarion-Clipperton há mais de 21 bilhões de toneladas de nódulos — incluindo quase 6 bilhões de toneladas de manganês, 270 milhões de toneladas de níquel e 230 milhões de toneladas de cobre. São números que fazem os olhos de qualquer gestor de cadeia de suprimentos girarem. E também os olhos de qualquer oceanógrafo — de horror.

Como funcionam os robôs de mineração fundo do mar

As operações de mineração fundo do mar dependem de dois tipos de equipamento: coletores subaquáticos autônomos e navios de produção de superfície. A empresa canadense The Metals Company (TMC) é uma das mais avançadas no desenvolvimento desse sistema, em parceria com a Allseas, firma de engenharia naval que desenvolveu o Hidden Gem — descrito como o primeiro navio de produção de minerais do fundo do mar do mundo.

O processo de coleta funciona da seguinte forma: coletores são baixados por tubos de 5.500 metros até o fundo oceânico, onde aspiram os nódulos do leito marinho. Mais de 90% dos sedimentos capturados são separados dentro do coletor e devolvidos ao fundo, atrás da máquina, para minimizar perturbações. Os nódulos sobem pelo sistema de tubulação vertical até o navio na superfície. Em cada operação, são recuperadas cerca de 35 toneladas métricas de material por lance.

  • Zona alvo: Clarion-Clipperton Zone, Pacífico central, entre México e Havaí
  • Profundidade: 4.500 a 5.500 metros abaixo da superfície
  • Nódulos: tamanho de batata, contendo níquel, cobalto, cobre e manganês
  • Reservas estimadas: mais de 21 bilhões de toneladas na Clarion-Clipperton Zone
  • Operação: coletores autônomos + tubulação vertical + navio de superfície
  • Empresa líder: The Metals Company (TMC), parceria com Allseas (navio Hidden Gem)

A empresa americana Impossible Metals está desenvolvendo uma abordagem diferente: veículos subaquáticos autônomos (AUVs) que coletam os nódulos com braços robóticos mais seletivos, deixando o máximo possível do ecossistema do leito intacto. O modelo mais avançado deles, o Eureka III, pode carregar até 4.000 kg de nódulos por imersão — uma capacidade de quase 4 toneladas. A empresa planeja uma frota inicial de seis dessas máquinas para 2026.

A viabilidade econômica da mineração fundo do mar depende de uma conta que muda conforme os preços dos minerais na superfície. Com o cobalto em alta, o investimento se paga. Com preços deprimidos — como aconteceu em 2023 e 2024 com o excesso de oferta de cobalto congolês — a equação fica mais apertada. Essa volatilidade explica por que as empresas do setor buscam contratos de longo prazo com governos antes de iniciar operações comerciais, garantindo receita independentemente de oscilações de mercado.

A logística também é desafiadora. Um nódulo de níquel precisa ser extraído a 5.500 metros, trazido à superfície, transportado até um porto, processado numa refinaria e então transformado em produto final. Cada etapa tem custo, risco e complexidade. As empresas pioneiras estimam que os custos operacionais de mineração fundo do mar já são competitivos com mineração terrestre em regiões remotas — mas os custos ambientais e regulatórios ainda são uma incógnita.

Robô submarino autônomo coletando nódulos de manganês no fundo do oceano Pacífico a 5000 metros de profundidade
Veículos autônomos subaquáticos descem a 5.500 metros para coletar nódulos ricos em níquel e cobalto do fundo do Pacífico. Imagem: IA/CPG

A regulação que não existe — e por que isso importa para a mineração fundo do mar

A corrida pelos minerais do fundo do mar tem um problema fundamental: o código de mineração internacional ainda não está finalizado. A ISA (Autoridade Internacional dos Fundos Marinhos), sediada em Jamaica, é o organismo da ONU responsável por regular a exploração dos fundos marinhos em águas internacionais. Ela já emitiu 31 licenças de exploração — mas as regras para exploração comercial ainda estão sendo debatidas desde 2021.

Em março de 2026, a ISA encerrou a Parte I de sua 31ª sessão sem aprovar atividades de exploração comercial. O código de mineração permanece inacabado e contestado. Enquanto isso, a administração Trump assinou em abril de 2025 uma ordem executiva (“Unleashing America’s Offshore Critical Minerals and Resources”) acelerando unilateralmente as licenças americanas para mineração de fundo do mar em águas internacionais — sem esperar pela aprovação da ISA.

Em janeiro de 2026, o NOAA (órgão oceânico americano) finalizou as regras para concessão de licenças comerciais dentro dessa nova política — criando um sistema paralelo ao da ISA que pode abrir precedente para outros países também ignorarem o organismo multilateral. Se isso acontecer, a governança da mineração fundo do mar em águas internacionais pode entrar em colapso antes de ser estabelecida.

A TMC já aplicou, em abril de 2025, para permissões comerciais de recuperação cobrindo mais de 25.000 km² de fundo oceânico e duas licenças de exploração somando quase 200.000 km² adicionais. Se aprovadas, as operações poderiam começar por volta de 2027.

Navio de pesquisa oceanográfica no Oceano Pacífico com equipamentos de coleta de amostras do fundo do mar
A The Metals Company usa o navio Hidden Gem para operações de coleta de nódulos polimetálicos — a 5.500 metros de profundidade. Imagem: IA/CPG

Os riscos ambientais que os cientistas não conseguem quantificar ainda

A oposição à mineração fundo do mar é ampla, tecnicamente fundamentada e politicamente crescente. Quarenta anos após uma expedição de mineração experimental na Clarion-Clipperton Zone, o local ainda não havia se recuperado completamente. Dois meses depois de raspagem experimental do leito marinho, a contagem de organismos marinhos caiu 37% — e os efeitos em cadeia alimentar foram registrados até nas camadas superiores da coluna de água, com plancton ingerindo partículas de sedimento em vez de nutrientes.

O problema é que ninguém sabe exatamente qual será o impacto em escala comercial — porque nunca foi feito em escala comercial. A mineração experimental que existe até agora é uma fração mínima do que as empresas propõem. Os modelos científicos não conseguem prever com confiança o comportamento das plumas de sedimento geradas pela mineração, que podem se dispersar por centenas de quilômetros e perturbar ecossistemas completamente distintos da área de extração.

Para dimensionar o desconhecido: estima-se que a Zona de Clarion-Clipperton, alvo principal da mineração fundo do mar, abriga entre 6 e 8 bilhões de espécies de organismos — a maioria ainda não catalogada pela ciência. Raspar esse leito em escala industrial significa destruir formas de vida que a humanidade nem sabe que existem. Essa incerteza radical é o argumento central dos cientistas que pedem moratória: não se pode avaliar o dano de algo que sequer foi descrito.

Há também um argumento econômico ambiental raramente discutido: os nódulos do fundo do mar acumulam carbonato de cálcio ao longo de milhões de anos e fazem parte do ciclo de absorção de CO₂ dos oceanos. Perturbá-los em escala pode interferir na capacidade dos oceanos de agir como sumidouros de carbono — acelerando o aquecimento global em vez de fornecer minerais para combatê-lo. A ironia seria perfeita: destruir a solução enquanto construímos a solução.

Desde 2025, 32 países declararam apoio a alguma forma de moratória, pausa precautória ou proibição da mineração de fundo do mar. Entre eles estão Brasil, Chile, Costa Rica, Canadá, Reino Unido, Portugal, Suíça, México e a maior parte dos países insulares do Pacífico. A análise do World Resources Institute sobre a mineração de fundo do mar aponta que os riscos para cadeias alimentares oceânicas — que alimentam mais de 3 bilhões de pessoas globalmente — ainda são amplamente desconhecidos.

O Brasil na disputa: contra a mineração mas com reservas próprias no Atlântico

A posição do Brasil no debate sobre mineração fundo do mar é reveladoramente contraditória. O presidente Lula disse publicamente que o país não pode permitir “uma corrida predatória” pelos recursos do oceano — e o Brasil assinou declarações internacionais pedindo pausa precautória. Mas ao mesmo tempo, a Companhia de Pesquisa de Recursos Minerais (CPRM) mantém desde 2015 um contrato de exploração com a própria ISA para uma área no Atlântico Sul.

O alvo é a Elevação do Rio Grande, a cerca de 1.200 km a sudeste da costa brasileira — uma formação geológica subaquática onde há depósitos de crostas de ferromanganês ricas em cobalto. Em 2018, o Brasil pediu à Comissão de Limites da Plataforma Continental da ONU para incluir a Elevação do Rio Grande dentro da plataforma continental brasileira estendida.

Se aprovado, o pedido daria ao Brasil jurisdição exclusiva sobre esses recursos sem precisar de licença da ISA — o que é, em essência, a mesma lógica unilateral que o Brasil critica quando aplicada pelos EUA. A diferença é que o pedido brasileiro passa pelo processo multilateral da ONU, enquanto Washington está agindo por decreto executivo.

Há também uma dimensão econômica que explica a ambiguidade brasileira. O Brasil possui cerca de 10% das reservas mundiais de lítio, cobalto, níquel e terras raras em território terrestre. Se a mineração fundo do mar avançar em escala global e inundar o mercado com cobalto e níquel a preços baixos, isso deprimiria os preços das commodities minerais — prejudicando diretamente a receita de royalties do Brasil com sua mineração terrestre.

É exatamente a mesma lógica que torna a corrida por terras raras em Minas Gerais tão estratégica para o Brasil: quanto mais países conseguirem minerais críticos de fontes alternativas (incluindo o fundo do mar), menor o poder de negociação do país sobre suas reservas terrestres. A lógica econômica e a lógica ambiental coincidem, nesse caso, na resistência brasileira ao avanço acelerado da mineração oceânica.

Nódulos polimetálicos do fundo do oceano contendo níquel cobalto cobre e manganês minerais críticos para baterias
Os nódulos polimetálicos contêm os quatro minerais mais disputados para baterias e energia limpa — e o Brasil monitora de perto a exploração no Atlântico Sul. Imagem: IA/CPG

O debate sobre mineração fundo do mar vai se intensificar em 2026 e 2027, quando as primeiras operações comerciais podem começar — com ou sem o aval da ISA, se os EUA decidirem avançar unilateralmente. Para o Brasil, a questão tem três camadas: a ambiental (risco para ecossistemas oceânicos), a econômica (impacto nos preços de minerais que o país extrai em terra) e a geopolítica (o Atlântico Sul como zona de interesse estratégico). Segundo análise da RAND Corporation, a mineração de fundo do mar poderia produzir volumes de níquel e cobalto equivalentes a toda a demanda projetada dos EUA em 2040 — o que explica por que Washington está disposto a arriscar o conflito com a ISA para avançar. O Brasil observa, com reservas, uma corrida que pode redefinir tanto a geopolítica dos minerais críticos quanto o futuro dos oceanos do planeta.

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Douglas Avila

Trabalho com tecnologia há 16 anos, hoje 100% focado em IA. Atuo como CAIO (Chief AI Officer) em São Paulo, com foco em receita. Formado em Sistemas para Internet pelo Senac. No Click Petróleo e Gás escrevo sobre tecnologia e inovação aplicadas aos setores estratégicos da economia brasileira: energia, indústria, transporte marítimo, automotivo, ciência e engenharia

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