Um estudante de escola pública desenvolveu o Flexia, um assistente virtual com inteligência artificial para personalizar os estudos de alunos neurodivergentes.
Kelvin Moraes, estudante de 17 anos da rede estadual de ensino de Novo Hamburgo, na Região Metropolitana de Porto Alegre, desenvolveu uma IA para estudantes neurodivergentes que adapta o acompanhamento escolar às necessidades de alunos com TDAH e dislexia. Batizada de Flexia, a assistente atua como tutora, conduzindo o usuário por perguntas em vez de fornecer respostas prontas.
A ferramenta nasceu como trabalho de conclusão do curso técnico de Desenvolvimento de Sistemas realizado pelo jovem no Senac. Atualmente no 3º ano do ensino médio no Colégio Estadual 25 de Julho, Kelvin afirma que o sistema já pode ser utilizado, mas ainda depende do interesse de estudantes e instituições de ensino.
O projeto procura oferecer suporte em momentos nos quais o professor não está disponível, sem assumir o lugar do educador. A proposta é usar a inteligência artificial como complemento ao processo de aprendizagem e tornar os conteúdos mais acessíveis para diferentes formas de atenção, leitura e compreensão.
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Flexia conduz o estudante por meio de perguntas
Em vez de resolver a atividade pelo usuário, a Flexia foi configurada para estimular o raciocínio. Kelvin explica que adotou um método socrático de aprendizagem. Nesse formato, a inteligência artificial apresenta questionamentos que ajudam o aluno a construir o caminho até a solução.
“Usamos um método socrático de aprendizagem, onde questionamos o aluno ao invés de entregar algo pronto”, destaca o estudante.
Essa escolha procura evitar que a tecnologia se transforme em uma ferramenta usada apenas para copiar respostas. O objetivo é manter o aluno envolvido na atividade, respeitando seu ritmo e ajudando-o a compreender o conteúdo.
A IA para estudantes neurodivergentes também recebe adaptações conforme as necessidades apresentadas pelo usuário. Dessa maneira, o acompanhamento não segue necessariamente a mesma abordagem para todos.
Como a assistente criada por Kelvin funciona
A Flexia reúne algumas características centrais:
- atua como tutora durante os estudos;
- oferece apoio quando o professor não está disponível;
- adapta a interação para diferentes neurodivergências;
- utiliza perguntas para orientar o raciocínio;
- evita fornecer a solução completa imediatamente;
- pode ser testada por meio de vouchers disponibilizados pelo projeto.
A ferramenta foi construída com engenharia de prompt, técnica usada para definir as instruções que orientam o comportamento de uma inteligência artificial.
Quanto mais clara e detalhada for essa orientação, mais próximo do objetivo esperado tende a ser o resultado produzido pelo sistema. Kelvin utilizou esse processo para estabelecer como a Flexia deve conversar, questionar e apoiar o aluno.
Ferramenta não pretende substituir professores, mas sim ajudar estudantes
O estudante ressalta que a tecnologia foi pensada como apoio, e não como substituição do trabalho realizado em sala de aula.
“A Flexia é uma IA tutora, foi criada para auxiliar os estudos, nós não temos o intuito de substituir o professor, mas, sim, ajudar o aluno quando o professor não está disponível ou realmente qualificado”, explica Kelvin.
A assistente pode ser utilizada em períodos de estudo individual, quando o aluno encontra uma dificuldade e não consegue esclarecer a dúvida imediatamente com um educador.
Nesse contexto, o sistema atua como uma ponte temporária. O estudante continua participando da resolução do problema, enquanto a inteligência artificial organiza perguntas para ajudá-lo a avançar.
Concurso do Google levou jovem a procurar um problema real
O ponto de partida para o projeto foi o Gemini 3 Hackathon, concurso promovido pelo Google.
A descrição da competição estabelecia que os participantes deveriam criar algo capaz de resolver um problema ou beneficiar uma comunidade. Ao analisar o desafio, Kelvin decidiu procurar uma situação relacionada à própria realidade.

“Eu queria fazer algo que também seria útil para mim”, conta.
A partir daí, o estudante começou a consultar artigos, trabalhos acadêmicos e outros materiais. Em uma das pesquisas, encontrou a informação de que TDAH e dislexia aparecem entre os diagnósticos mais frequentes em crianças brasileiras com baixo rendimento escolar.
Esse dado direcionou a proposta para a educação inclusiva e levou Kelvin a pensar em uma tecnologia capaz de apoiar alunos que enfrentam dificuldades durante o aprendizado.
Experiência pessoal e convivência escolar influenciaram o projeto
A escolha do tema não foi motivada apenas pela competição.
A experiência de Kelvin e a observação das dificuldades enfrentadas por colegas contribuíram para a definição da ferramenta. O jovem buscava desenvolver uma solução que tivesse aplicação no cotidiano escolar e que também pudesse ser útil para ele.
Sua mãe, que possui formação em psicanálise, ajudou o estudante a compreender melhor o cenário relacionado às neurodivergências.
A combinação entre vivência pessoal, pesquisa e orientação familiar permitiu que a Flexia fosse pensada a partir de necessidades concretas, e não apenas como uma demonstração técnica de inteligência artificial.
Projeto surgiu em curso técnico do Senac
Kelvin desenvolveu a assistente como trabalho de conclusão do curso técnico de Desenvolvimento de Sistemas. A formação foi realizada pelo Senac e concluída no início deste ano.
Durante o processo, o estudante aplicou conhecimentos de programação e configuração de sistemas de inteligência artificial para transformar a ideia em uma ferramenta funcional. O projeto também conecta duas áreas que ele pretende continuar estudando: tecnologia e comportamento humano.
Depois de concluir o ensino médio, Kelvin planeja cursar Análise e Desenvolvimento de Sistemas, Computação e Psicologia. A escolha mostra que o jovem pretende aprofundar tanto a parte técnica da Flexia quanto a compreensão sobre os estudantes que poderiam utilizá-la.
Manutenção da inteligência artificial tem custo
Embora esteja apta para testes, a ferramenta ainda não é oferecida gratuitamente de forma ampla. Kelvin explica que manter um sistema de inteligência artificial envolve despesas e, por isso, o acesso experimental é disponibilizado de maneira limitada.
“Infelizmente a ferramenta não é gratuita, manter uma inteligência artificial não é algo barato. Os testes podem sim ser feitos, mas nós liberamos somente alguns vouchers para testes”, afirma.
O custo representa uma das barreiras para a expansão da IA para estudantes neurodivergentes. Para chegar a um número maior de usuários, o projeto precisará encontrar uma forma de sustentar a operação da tecnologia.
Flexia procura escolas e estudantes interessados
A etapa de desenvolvimento já permitiu que Kelvin considerasse a ferramenta pronta para utilização. “A única coisa que falta são os alunos ou escolas interessados”, declara o estudante.
A adoção por instituições de ensino permitiria observar o desempenho da assistente em situações reais e reunir experiências de estudantes com diferentes necessidades. O uso dentro das escolas também poderia mostrar em quais conteúdos a ferramenta oferece mais apoio e quais adaptações ainda precisam ser realizadas.
Criada por um aluno que conhece a rotina da rede pública, a Flexia parte de um problema observado dentro da própria comunidade escolar. Agora, o futuro do projeto depende da aproximação com instituições e estudantes interessados em testar uma nova forma de apoio à aprendizagem.
